Monday, August 31, 2009

Quando os cãe voam

A notíca que fui buscar à última edição do Courier Internacional faz-me lembrar o artigo que li há cerca de 35 anos, que dizia que a alimentação de um cão nos E.U.A. daria para alimentar à volta de 25 pessoas do 3.º mundo.

A minha formação profissional, que me alerta para a realidade das memórias reconstruídas, faz-me, por vezes, interrogar-me se estas velhas memórias são mesmo verdadeiras, ou são das tais “reconstruídas”. Pela notícia que agora reproduzo, parece mesmo que não. Infelizmente.

Para quando o verdadeiro empenho de governantes e decisiores políticos e poderosos económicos para reduzir este abismal fosso de desenvolvimento e de condição humana básica?

Mandar o Bobi para o porão? Nem pensar isso!

Nos EUA, a companhia Pet Airways transporta o seu animal de estimação em cabinas climatizadas. “Imaginem só”, escreve THE NEW YORK TIMES. “Compartimentos individuais, muito espaçopara esticar as pernas, pessoal de bordo, um salão reservado, acompanhamento durante o registo de embarque, passeios antes de subir a bordo. É verdade que uma ida simples Nova Iorque/Los Angeles demora cerca de 24 horas, masinclui jantar, sessões de brincadeira e uma noite em Chicago. Não lhes fazem discursos sobre segurança nem passam filmes: há apenas o luxo de o passageiro se poder entregar aos seus sonhos de cão, na sua cabina privada”. A Pet Airways serve as cidades de Nova Iprque, Washington, Chicago, Denver e Los Angeles.Um bilhete só de ida custa entre 105 e 210 euros. (Courrier Internacional, Setembro 2009, n.º 163, p. 112)

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Saturday, June 6, 2009

Saudação aos alunos finalistas da ESEQ em 2008/09

Não pude estar, ao contrário do que era meu desejo, na Festa de Finalistas dos alunos da minha Escola, a Secundária Eça de Queirós, nos Olivais, em Lisboa.

Deixei-lhes uma saudação. Que agora aqui torno pública. No geral, estes alunos foram cepa que produziu bons frutos. Frutos de bom alimento para os professores e para as pessoas que os professores são. Garanto-o com o meu testemunho pessoal.

SAUDAÇÃO AOS ALUNOS FINALISTAS DA E.S.E.Q., ANO LECTIVO 2008/09

Queridos alunos, 

            Sei que alguns de vocês gostariam, muito sinceramente, que eu estivesse aí nesse jantar, convosco. Mas não posso.

            O professor Acúrcio, meu mano, mesmo que filhos de pais diferentes, sabe as razões. Se vocês as soubessem também, sei que me compreenderiam. O meu mano, esse, já me perdoou a falta.

            Esta ocasião é uma ocasião muito oportuna para citar o versículo bíblico de que tanto gosto, que tanto me diz:

            - Fala, ancião, porque isso te compete; mas com discrição, não perturbes a música.

            Tenho mantido, nos últimos tempos, uma troca epistolar muito interessante com um jovem aluno da nossa escola, que, eventualmente, estará presente nesse jantar. Ele é um rapaz magnífico, e as cartas que temos trocado têm sido para mim um prazer muito grande.

            Mas, como lhe disse numa das últimas cartas que lhe mandei, houve tempos em que andei muito zangado com as palavras, odiei Fernando Pessoa e abominei tudo aquilo que ele escreveu.

            A razão foi que, por causa das suas palavras (palavras arrumadas por quem tem jeito em mexer com elas), o meu grande ídolo daquela altura, o nadador português Rui Abreu se suicidou estupidamente, sozinho, numa banheira, no quarto da sua universidade, nos Estados Unidos, onde chegara com mérito e quando parecia que a vida lhe sorria e prometia um futuro de sonho. Ao lado da banheira, aberto, estava o livro com as terríveis palavras de Fernando Pessoa.

            A solidão é mesmo uma coisa terrível! É da solidão que um grande amigo meu, um pouco mais velho do que eu, tem agora um medo cada vez maior.

            Contudo, um dia destes, aconteceu-lhe uma coisa inesperada, que lhe trouxe apaziguamento e outra coragem para enfrentar os anos que antecipa à sua frente. Ele reencontrou um antigo aluno, que não via há cerca de 20 anos. E saudou-o tocando-lhe no ombro esquerdo com a sua mão direita, como sempre fazia com os seus alunos, olhando-os de frente.

            O aluno, agora homem crescido, pousou a sua mão direita sobre a mão do seu antigo professor e, num suspiro que lhe veio do fundo da alma, disse para o meu amigo:

            - Que bom, professor!… As saudades que eu tinha desse seu gesto!… Esse seu gesto é único, fez-me sempre tanto bem.

            Quando o meu amigo me contou este episódio, eu falei-lhe dos gestos em que tocamos nos outros para nos excitarmos com esse toque; e nos gestos em que tocamos para, pelo contrário, podermos sentir nos outros a sua alegria de estarem connosco. E a nossa alegria de estarmos com eles. 

            As citações de autores e personagens célebres são coisas complicadas. São bonitas, podem ser profundas, mas podem também ter o encanto das serpentes tentadoras. Há frases lindíssimas escritas por homens tenebrosos!

            Muito recentemente, recebi da minha colega Ermelinda uma daquelas citações que agora, recorrentemente, aparecem nas nossas caixas de correio da Internet. Só que, desta vez, vinha magnificamente ilustrada por uma aguarela lindíssima que ela própria pintou.

            A citação é de Charles Chaplin. Diz assim: 

“Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
porque cada pessoa é única e nenhuma outra a substitui.
Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova
de que as pessoas não se encontram por acaso.” 

            Queridos alunos, queridos colegas,

 Permitam-me a fantasia de vos fazer uma proposta: 

            - Mano Acúrcio, orienta aí o pessoal!… 

            Passem o vosso braço por detrás de quem tiverem à vossa direita e poisem a vossa mão sobre o seu ombro. Deixem-se estar assim um bocadinho, sintam esse bocadinho e guardem-no na vossa memória. Procurem tomar consciência da alegria que neste momento vos percorre. Só da alegria mesmo! Porque a tristeza e a saudade também estarão hoje aí no meio de vocês. Seguramente. Por isso, repito, dêem primazia à alegria e tentem tomar consciência da alegria e do prazer que é estarem assim juntos.

(…)

            Vamos ver quem se lembrará deste gesto daqui a 20 anos.

            Desejo a todos um bom jantar, desejo a todos uma festa linda!

            Como dizem os Trovante, num poema dedicado a uma pessoa muito especial, que tive a felicidade de conhecer e de quem fui grande amigo,

Há quem espere por nós assim
mesmo ao meio da rota do fim
há quem tenha os braços abertos
para nos aquecer
e acenar no fim.

            Queridos alunos finalistas, na Escola Secundária Eça de Queirós haverá sempre alguém de braços abertos à vossa espera, para vos receber com alegria e companheirismo.

            Numa dádiva que me esforçarei sempre por merecer, recebi do nosso querido aluno João Soares Matos, já nesta semana, uma mensagem no meu blogue que diz assim, entre outras coisas belas e deliciosas: Com esforço e dedicação, todas as estrelas estão à distância de um abraço. (…) Sinto-me privilegiado por frequentar a Eça de Queirós, que brilha sob o céu azul todos os dias.”           

Queridos alunos,

- Felicidades nas vossas vidas, vão dando notícias!

            - Até sempre, queridos alunos!

            - Até um dia destes na Escola, queridos colegas e amigos!

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Sunday, May 24, 2009

Cuidar da criança que somos sempre

A causa próxima deste apontamento foi um vídeo que vi no YouTube, sobre a participação do pequeno Miguel Guerreiro no que parece ser um “supra-concurso” musical para crianças e jovens, em Itália.

Pessoalmente, afligem-me sempre os interesses “interesseiros” que rapidamente crescem à volta das crianças e dos jovens que se destacam por habilidades e artes especiais, que revelam precocemente.
O pequeno Miguel parece que está a ser, aos poucos, metido em formas que o moldam, não aos seus interesses e ao seu desenvolvimento, mas ao desenvolvimento de interesses de outros.
Se tivesse hipótese de lhe dizer alguma coisa, e aos seus pais, citar-lhes-ia este pequeno poema do espanhol Juan Ramón Jiménez, que ganhou o prémio Nobel da literatura no ano em que eu nasci, em 1956:

Não corras, vai devagar,
que onde tu tens de chegar só tu o podes fazer!

Vai devagar, não corras,
senão, a criança que há em ti, eterno
recém-nascido,
não consegue seguir-te!

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Saturday, April 25, 2009

“25 de Abril, sempre!” edição de 2009

Ontem participei, na Escola, na palestra que algumas colegas do Grupo de História (a Eulália Andrade, a Paula Faia e a Cristina Kirkby) organizaram para lembrar e celebrar o 25 de Abril. Essencialmente, alguns professores da Escola, desfiaram lembranças pessoais desse dia e dessa época.

No meu caso, não quis deixar de destacar a grande alegria, a paz, a tranquilidade que o dia me trouxe:
O meu pai, sargento do Exército Português, fez praticamente a guerra toda. De 1961 a 1974, os anos todos da guerra no Ultramar, raramente ele esteve estavelmente na companhia da esposa e dos filhos. Foi muito mais o tempo de estar em Angola e Moçambique em comissões militares do que na Metrópole, junto da família. 
Como muitas famílias portuguesas, nós - a minha mãe, os meus irmãos e eu próprio - tivemos que nos habituar a viver permanentemente com a tensão do que se passava em África, especialmente na província ultramarina em que o 1.º-sargento Pinto se encontrava.
Lembro-me de, por volta dos 14 anos, fazer repetidamente as contas ao tempo da minha vida que tinha sido passado com pai e mãe; e irmãos. E nunca gostei do resultado dessas contas! Por mais voltas que desse, por mais pequenas ocasiões que aproveitasse, nunca consegui que fosse dominante o tempo de estarmos todos juntos!
A dedicação da minha mãe à troca de correspondência e à marcação diária das cruzinhas (uma por cada dia que passava, a reduzir o espaço branco - enorme! - dos dias que faltavam para o dia do regresso, são e salvo) era observada com discrição e alguma distância por mim e os meus irmãos. Eles - pai e mãe - sempre procuraram poupar-nos ao conhecimento de factos, de horrores vividos ou presenciados, cuja realidade os filhos deduziam apenas quando observavam a mãe sentada à escrevaninha  a reagir com lágrimas - tantas vezes de aflição! - às palavras que dias antes o marido tinha decidido confidenciar-lhe ou partilhar.
Lembro-me perfeitamente que nesse dia, no 25 de Abril de 1974, a certa altura fui tomado pela certeza, indefinidamente saborosa, de que o meu pai não voltaria à guerra em África!
Os 10 de Junho, que começámos a seguir na televisão, eram, em nossa casa, dias terríveis. Quantas vezes a nossa mãe nos contagiou com a reacção que as imagens de viúvas e órfãos-crianças; de soldados estorpiados; de velhos pais, órfãos, também, dos seus próprios filhos, despertavam nela, tão forte seria a identificação que faria a esses dramas pessoais e familiares, o espectro da possibilidade de a mesma tragédia um dia poder tocar-nos na pele.
Lembro-me de um dia - creio que o único dia! - em que o meu pai foi à escola dos Quinchosos falar com o meu professor, o professor Virgílio. O orgulho e a satisfação que tive nesse dia! A causa era, outra vez e sempre, a guerra, que não deixava oportunidades para que o que aconteceu naquele dia na escola - e me deixou tão feliz - acontecesse mais vezes.
Pois é… que saborosa aquela certeza que o 25 de Abril me deu!
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Saturday, April 11, 2009

A Páscoa, com ou sem coelhinhos

Foi esta a mensagem que, a celebrar a época festiva que atravessamos, tão característica da nossa tradição cultural, espiritual ou religiosa, enviei à quase totalidade das minhas listas de endereços electrónicos (Quer dizer, modernices… cómodas, rápidas e eficazes modernices). Foi escrita ontem, à tarde:

Ai!… Ai!…

Agora, às três e meia da tarde, cá por casa, cada um descansa para seu lado…

De manhã fui p’ró mar, ver baleias e golfinhos, depois de dar à pressa o pequeno-almoço à minha “Velhitas”.
Cheguei a casa quase às duas da tarde, ela esperava por mim para almoçar. Creme de ervilhas e um belo bacalhau no forno!…
Depois consolámo-nos - quem ainda estava em casa - com amêndoas, que eu trouxe de Lisboa, escolhidas quase uma a uma! Falámos de folares (que os temos cá em casa; os do Redondo já acabaram, mas temos ainda um grande do Pico, que uma doente da minha irmã fez questão de lhe oferecer), até dos lagartos com olhinhos de feijão frade que há mais de 30 anos a tia Rosinda oferecia aos sobrinhos!… Eram deliciosos!… O Pedro Henrique, o meu sobrinho açoriano mais velho, foi surfar para São Jorge, come menos amêndoas, só as que tiverem sobrado no domingo de Páscoa; é bem feito!… (Talvez lhe guarde algumas, às escondidas)
Daqui a pouco, vou levar a minha mãe - como agora se tornou hábito - a acender o farol, o que, além de útil para quem cruza o mar no canal entre as ilhas, é um excelente passeio higiénico para ela.
Amanhã vamos todos almoçar fora, ao Chinês (!) que é a grande novidade aqui na cidade da Horta.
No domingo de Páscoa vamos chamar os amigos (aqueles muito especiais) e os outros familiares da Ilha e vamos todos almoçar tradicionalmente cá em casa.
De manhã iremos todos ao cemitério levar as amêndoas aos gulosos do senhor José (o Peter) e ao nosso “Velho”. À tarde, será tempo de telefonar para a família de (Grande) Lisboa, Coimbra, Cernache, Abrantes e Matosinhos. E amigos, também do continente.
A missa pascal é seguida em casa, pela televisão, pelas duas anciãs da família, Lourdes e Luísa.

Desejo a todos vós uma Páscoa igual à minha! Ou melhor!…
Beijinhos e abraços!

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Thursday, March 19, 2009

No dia do Pai

Pus-me na Net à procura do poema do salgueiro à borda d’água, que o meu pai cantava aos netos, a embalá-los - é assim a lembrança que dele guardo, não me lembro de o ouvir cantar a canção do salgueiro aos filhos -, completamente dedicado e feliz nessa ocupação ao mesmo tempo tão paternal e tão maternal.
Antes de encontrar o poema (que mais abaixo reproduzo), encontrei estoutro, em boa hora, que aqui deixo, e que na família facilmente se perceberá porquê: Coimbra… a “cabra”… o Mondego… o comboio… Abrantes…
E desde já recomendo a visita ao blogue do seu autor, que saúdo agradecendo o poema oportuno:

UM BREVE ADEUS

Parto! Da minha Coimbra ao anoitecer
Talvez a “cabra” dê uma badalada
Que imagem tão linda de se ver
A alta universitária iluminada
Ou a luz que serve de guia
Naquele templo de sabedoria

No Mondego, correm abundantes águas
Que inundam todos os seu recantos
Quem sabe se de velho estudante são mágoas
Ou lágrimas de D. Pedro nos seus prantos

Há notas que uma guitarra entoa
Espelhada em sonhos de uma mocidade
Tocando na Utopia que por ali voa
Palavras de versos na eternidade

Mas na noite, a cidade esvai-se por fim
Na noite, da sua própria imensidão
Deixa muita, mas muita saudade em mim
Para sempre, gravada no coração

Coimbra, 6 de Abril 2006
Rui Lopes
(texto escrito no combóio de Coimbra para Abrantes)

E agora, o poema do salgueiro à borda d’ água, especialmente a pensar nos netos que, ao colo do avô Pinto, fixavam os olhos (enquanto os conseguiam manter abertos) na boca que lhes passava o encantamento da melodia:

O salgueiro à borda d’água
Dá-lhe o vento, balanceia
Quem tem seus amores na terra
Pela porta lhe passeia

O salgueiro à borda d’água
Perguntou ao amieiro
Qual dos amores é mais firme
O segundo ou o primeiro

Um abracinho, bem apertado
Para quem ama não é pecado
Não é pecado, não é, não,não
Um abracinho do coração

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Sunday, March 8, 2009

Lembrar o Tibete, o sofrimento das suas crianças

Quando se almoça sozinho, dá-se mais atenção ao que passa na televisão. É habitual nas nossas casas haver uma televisão a jeito de quem se senta à mesa a comer.

Quando liguei a minha televisão, sintonizei-a na SIC Notícias, que começava a passar um documentário sobre as crianças do Tibete.
O documentário está muito bem feito, mostra o sofrimento, a esperança, o cuidado pessoal do Daila Lama, a defesa da luta não violenta; e a insistência na contenção do ódio. “Tibete - crianças no exílio”.
Muitos pais tibetanos pagam a passadores para que levem os seus filhos para Dharamsala, na Índia. Pagam, em média, pelos serviços incertos dos passadores, à volta de 700 euros, o correspondente a dois anos de trabalho. Atrás do sonho da liberdade e da educação na escola. De um futuro bem melhor.
Os repórteres queriam seguir o percurso das crianças, desde que saem de ao pé dos seus pais até que iniciam a sua vida junto da comunidade tibetana que os recebe na cidade indiana. Chegaram-se de máquina de filmar e de microfone em punho à casa que acolhe estas crianças, foram junto de um rapazinho e perguntaram-lhe se ele tinha chorado quando deixou os pais.
É claro que reagi imediatamente a esta pergunta quase perversa, quase obscena! Como se eles não soubessem o que iria na amálgama de afectos e emoções sofridos que seguramente preencheriam naquele instante toda a vida da criança. O rapazinho teria à volta de uns 10 anos.
Ele largou o sorriso que até ali mostrara, a expressão do rosto (no olhar ziguezagueante, nos trejeitos dos pequenos e diversos músculos faciais e nos movimentos repentinos e desconexos, quase imperceptíveis, do pescoço) a denunciar o turbilhão emocional profundamente sofrido que o avassalava, e mentiu com a nobreza que o recato e o respeito pela intimidade pessoal e familiar reclamam:
- Não… não chorei…
Nesta altura quem tinha os olhos já completamente marejados de lágrimas era eu!…
Mas a malvadez inconsciente do repórter (Bem-hajam os repórteres que nos trouxeram um documentário assim!, é o paradoxo destas coisas…) quis espetar a faca um pouco mais fundo ainda e desferiu outra pergunta:
- Mas não tens saudades dos teus pais?…
Aparentemente a criança não teria saída, desta vez: humanamente, é impossível que uma criança, compulsivamente afastada dos pais que ama e que a amam, não tenha saudades dos próprios progenitores; moralmente, todos os filhos devem gostar e ter saudades dos seus pais. A câmara do técnico de som fazia agora companhia ao silêncio da repórter e esperava avidamente pelas primeiras lágrimas da criança. A intensidade dramática da reportagem assim exigia: lágrimas, já!
Olhos postos na criança, todos pudemos voltar a ver os mesmos sinais de vertigem emocional. Mas mais rapidamente ainda que perante a pergunta anterior, a criança, aquele rapazinho admirável, fixou os seus olhos nos olhos da repórter, sorriu-lhe e deixou sair de si as seguintes palavras, medidas e soltadas pausadamente, claramente; muito firmemente:
- Eu não quero ter saudades dos meus pais…
Manteve os olhos fixados nos da repórter como que a dizer: Vê se entendes onde é que eu quero chegar, o que é que eu te estou a dizer. Já muito os meus pais e eu sofremos para que eu chegasse aqui sem eles; e tu me pudesses estar a fazer estas perguntas. Agradeço-te a tua preocupação, mas, por favor, não me obrigues a mostrar e a manter aberta a ferida que nos faz sofrer tanto.
Alguns meses depois o mesmo repórter perguntou ao mesmo rapazinho o que queria ele fazer no futuro. Ele respondeu-lhe que queria estudar durante dez anos e depois voltar para ao pé dos pais.
Que lição, senhores, que lição de vida!…
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Friday, December 26, 2008

Cardeal Patriarca de Lisboa apela ao entendimento na Educação

O Público destacou ontem o seguinte, na edição on line do jornal:

Cardeal Patriarca de Lisboa apela ao entendimento na Educação 

25.12.2008 - 16h32 Lusa

O Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, apelou ontem a um entendimento entre professores e tutela, considerando que a educação das crianças e jovens não pode ser alvo de batalhas políticas ou sindicais.

Na sua mensagem de Natal, D. José da Cruz Policarpo classifica a missão dos professores e formadores “como decisiva para o futuro de Portugal” e faz referência aos últimos acontecimentos na área da educação marcados por um conflito entre docentes e Ministério da Educação relativamente ao modelo de avaliação do desempenho.

“Que ninguém ouse transformar este sofrimento em simples arma de luta política, porque na batalha da educação os únicos vencedores têm de ser os vossos filhos”, referiu D. José Policarpo.

Para as crianças e jovens, adianta o Cardeal Patriarca de Lisboa, “esta batalha não é política ou sindical: é a batalha da vida, que eles só vencerão com a generosidade, a competência e a coragem de todos nós”.

Na sua mensagem de Natal intitulada “O Natal é a vitória da vida e da esperança”, D. José Policarpo afirma que neste dia tem particularmente no coração aqueles que sofrem, pelo que dedica também umas palavras às famílias com dificuldades económicas, “agravadas com a situação que o mundo está a viver”.

“Também aí é preciso deixar reacender a esperança, perceber que viver é lutar”, referiu o dignitário da Igreja Católica.

Em crises deste género, adiantou, os que por elas são atingidos não podem considerar-se apenas vítimas, mas protagonistas da solução.

“Abramos o coração à solidariedade, estejamos atentos ao nosso próximo, isto é, ao nosso vizinho. E se as dificuldades exigirem de nós austeridade, saibamos que ela pode ser convite à coragem e experiência de liberdade”, disse.

Na sua mensagem de Natal, o religioso faz ainda referência aos doentes, sobretudo àqueles para quem o sofrimento “se torna tão pesado que lhes tira a alegria de viver”. “Alguns desistem mesmo de viver e suplicam que os ajudem a morrer” referiu o Cardeal Patriarca, que, numa alusão à prática da eutanásia, adianta que “ninguém tem o direito de ajudar os outros a morrer”.

 

No espaço disponibilizado pelo jornal, deixei o seguinte comentário:

 

Do meu ponto de vista, o Cardeal Patriarca de Lisboa disse mais, parece-me que o Público não destaca o essencial. O Senhor Cardeal destaca, nas suas palavras, ditas sob o signo do sofrimento libertador, imitado no Filho de Deus feito Homem, os doentes, as famílias em dificuldades e os professores. Pessoalmente, agrada-me muito que o Senhor Cardeal tenha chamado a atenção de todos para esta dimensão do sofrimento fundamental, libertador, a que se liga a função do professor. Por ele, por esse sofrimento fundamental, passa, nas imensas condições adversas em que os professores exercem hoje em dia o seu papel, a generosidade, a competência e a coragem que também são deles, dos professores. Salienta, finalmente, o Senhor Cardeal Patriarca, que a batalha da Educação é a batalha da vida; não é uma batalha qualquer: é vida e é batalha, não é um “fait divers”. Só mais uma palavra. A fonte do sofrimento é o amor pelo próximo. As palavras não são minhas, são do Senhor Cardeal Patriarca.

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Friday, December 12, 2008

O bispo do Porto e os professores

Excerto da entrevista do bispo do Porto, D. Manuel Clemente, à Visão (n.º 823, 11 a 17 de Dezembro de 2008)

No conflito entre professores e ministra da Educação ainda haverá espaço para o bom-senso?

Tem de haver. As partes envolvidas têm de pensar no bem dos alunos. É para isso que existe a escola.

Em que medida tudo isto não é uma consequência da desvalorização do papel do professor?

Eles queixam-se disso. E uma coisa é factual: o papel que o professor tinha como transmissor de uma cultura e garantia dos alunos está esbatido. Há um esvaziamento do seu papel social. Os professores devem ser constantemente estimulados pelo Governo e pela sociedade. E isso é uma batalha a longo prazo.

Pela minha parte, por agora, nenhum comentário. Para todos pensarmos.

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Tuesday, December 2, 2008

Eu e a greve de professores, amanhã, dia 3 de Dezembro

Escrevi assim, hoje, aos meus colegas de escola, a propósito da greve dos professores, amanhã:


Caros colegas,
 
Penso que não conseguiria deixar passar este dia sem dizer qualquer coisa.
Desculpem-me a extensão do texto:
 

 

                O texto que aqui trago resulta, essencialmente, da circunstância de três ocorrências se terem juntado por puro acaso. O que não foi obra do acaso foi a associação que entre elas fiz.

                Primeira ocorrência: recentemente escrevi uma carta aberta em que falava do privilégio que foi conhecer, ser considerado amigo e ter partilhado o cadeirão dos sábios com o dr. João dos Santos. Mais do que uma vez eu o ouvi dizer o que, numa última vez, ele repetiu no seu consultório, quando a doença, que acabou por vitimá-lo, já lhe tinha levado a robustez do porte e dos gestos. Uma última vez, como que a aconselhar-me que nunca o esquecesse: que, na vida, o que verdadeiramente importa é a educação e a política.

                Estou certo de que se com ele me cruzasse agora, precisamente da maneira que com ele me cruzei naquela última vez, quando eu caminhava a pé, vindo do Marquês de Pombal para o centro comercial das Amoreiras, eu saberia o que faria, como o olharia, e o que lhe diria. Novamente, como nessa vez, já com o centro à vista, eu deixaria fosse o que fosse que lá me levasse, e voltaria para trás com ele, acompanhando-o ao seu consultório. E lá, outra vez sentados, um em frente do outro, eu lhe diria, olhando com ternura e satisfação antecipada pela aprovação que ele seguramente me dirigiria, que nunca mais me tinha esquecido das suas palavras, e a inventariação das minhas empresas pessoais e profissionais aí estariam para o comprovar.

                Segunda ocorrência: como muita gente da minha idade, vi o filme “Música no coração”, pela primeira vez, há mais de 40 anos. Há dias, fui à FNAC e lá encontrei, sem que intencionalmente o procurasse, um CD com uma versão recente de todos os temas musicais do filme. Não gosto muito desta versão. O refinamento a que os vários temas musicais foram levados, cantados por vozes belíssimas, educadas profissionalmente anos a fios, teve como consequência afastá-los de nós, que cantamos no caminho para o trabalho, durante o banho, ou quando nos ocupamos com uma tarefa caseira. Na versão original, quando os actores cantam, a gente acompanha-os. Nesta versão, as belas vozes desapropriam-nos da identificação aos actores e às melodias que cantam. Podemos apenas agarrar-nos ao sentido dos versos.

                Mas no meio de uma decepção generalizada, sim senhor, apreciei muito a reprise final do tema Climb ev’ry mountain. No canto, que coisa mais envolvente há que o vigor do coro feito de homens e mulheres cantando à uma? E precisamente aqueles versos acompanham-me há mais de 40 anos. Sim, desses versos eu me apropriei e toda a vida os tenho cantado. Tornei-os na minha maneira de viver a vida.

                Entretanto, dramaticamente consciencializei que alguma coisa mudava no meu pensamento e na minha forma de ver as coisas. Qualquer coisa, que até há bem pouco eu tinha como condição pessoal adquirida por esforço pessoal honesto ao longo de um já bem considerável número de anos, afinal, tinha sido perdida: pela acção de intenções e decisões espúrias e mal-intencionadas por parte de quem tem responsabilidades governativas no meu País (por parte de quem deveria usar o poder que democraticamente a sociedade portuguesa precisamente ao contrário do que o fez – na minha opinião, evidentemente. Opinião, entretanto, igual à de tanta gente! Lembro-me, por exemplo, de um artigo há muito tempo escrito por José Gil, na Visão, que falava de um, digamos, “pecado original” dos actuais decisores da educação em Portugal, na forma de se lidar com os professores do ensino secundário), dizia eu, eu tinha para mim adquirida a dignidade de professor. A minha dignidade. É, hoje sinto que não a tenho, que ma roubaram.

                E que tem isto a ver com o tal tema musical do “Música no Coração”?… Esse tema musical desafia-nos a subir montanhas e a vencer obstáculos, sempre em perseguição do sonho que devemos alimentar com todas as nossas forças. Pois, hoje em dia, eu sinto que a dignidade profissional passou a fazer parte do meu sonho. Deixou de estar adquirida e passou a fazer parte do meu sonho, vou ter de juntar forças e ir outra vez em busca dela. Ao pé desta empresa, a subida ao Quilimanjaro, que realizei há pouco mais de um ano, torna-se quase insignificante. Assim tenha eu forças para juntar à de tantos outros professores que estão no mesmo sonho, na mesma luta!…

                Terceira ocorrência: o canal Odisseia, da televisão por cabo, passou regularmente, durante o mês de Novembro, uma série de documentários reunidos à volta de um tema aglutinador: o poder da mente. Tentei vê-los todos, uns mais que outros serviam propósitos e conteúdos das minhas aulas de Psicologia.

                Um desses documentários foi sobre o perdão, sobre a elaboração pessoal da culpa, da raiva, do ódio, da perda; do trabalho do luto e da emergência do perdão. Coisa extraordinária!, a merecer reflexão e discussão pessoal sinceramente dedicada.  Mas agora não. Agora, apenas o que tem a ver com a circunstância de juntar três ocorrências a que atribui um significado. Uma das histórias apresentadas era a de uma mãe, pastora anglicana, que perdeu a filha de 24 anos de idade nos atentados bombistas que houve há poucos anos no Metro de Londres. Dizia ela que sentia culpa. Todo o seu magistério fora sempre dedicado a promover a paz, a concórdia e o perdão. Mas aquela experiência pessoal, que a rasgara cruamente até ao mais fundo do seu ser, mergulhou-a na mais intensa das raivas; afundou-a numa culpa castigadora; e nunca a permitiu sentir a dádiva do perdão. Até que um dia, muitos e muitos dias depois de intenso trabalho de reflexão pessoal, conseguiu perceber a origem da culpa. Só nesse momento ela foi capaz de vencer a raiva e foi capaz de sinceramente perdoar. Testemunhou ela para os autores do documentário que um dia ela percebeu que muito falara na sua igreja, na sua paróquia, do amor do próximo, do respeito pela diferença, da comunhão com o outro. “Mas, o que é certo, é que nunca fui para a rua, nunca fui a uma manifestação em que me juntasse a outros iguais a mim, e a outros diferentes de mim, e nunca gritei na rua pelos direitos dos outros e pelo verdadeiro respeito pela diferença. E perguntava-se: Como poderiam os outros, os que eram diferentes de mim, saberem que eu estava ali com eles?…

                É assim, colegas, amanhã, e sempre, mesmo depois de amanhã, eu quero estar na rua a manifestar-me, ao lado de outros, perseguindo o meu sonho, na luta política, a luta que faz o outro lado da educação que abracei.

Bjnhs e abraços!

Posted by Fernando at 22:30:59 | Permalink | No Comments »