Friday, December 25, 2009

2009, o meu conto de Natal

25 de Dezembro. Vêm duas senhoras ao quarto para lavar a minha mãe e arranjarem-lhe a cama. Aproveito para ir tomar um café. Talvez o bar da entrada do hospital esteja aberto. Mas é Natal… talvez não esteja…
Sim, estava aberto. O lugar que parecia naturalmente destinado a mim era ali, naquele espaço de balcão entre dois sujeitos, qualquer um deles mais alto do que eu. O da minha esquerda, nitidamente mais velho. O da minha direita, nitidamente mais novo. Ambos vestiam aparentando ser pessoas “remediadas”, como ainda há bem pouco se costumava dizer.
O homem mais novo, o da minha direita, queria pão, perguntou à senhora do lado de lá do balcão se tinha pão. Sim, tinha, mas não era de hoje. O senhor hesitou, se não era de hoje… Parecia que vinha buscar pão para o almoço do dia de Natal, para a mulher e os filhos, queria uns sete ou dez, mas assim, de ontem…
O homem mais velho, à minha esquerda, disse que o pão de véspera era pão bom. O outro concordou, sim, o pão do dia anterior às vezes até sabia melhor que o do dia. Parecia que queria matar dois coelhos de uma só cajadada: ser simpático para com o outro senhor e convencer-se a si próprio de que o pão da véspera era bom.
Sim, ia levar o pão. Se a senhora tivesse, olhe, ele até levava doze. Ai tinha?… Então eram mesmo doze.
Enquanto a senhora foi lá dentro ensacar o pão e eu bebia o meu café, o sujeito da minha esquerda, como que para ocupar o vazio de silêncio que parecia querer cair ali no meio de nós os três, lembrou que no tempo dele – e eu imaginei-o nesta altura a pensar nos seus netos – o pão era de mais dias, era mesmo de muitos mais dias, até o pão com bolor se comia todo.
Aquecia-se água, deixava-se ferver um pouco o pão nessa água e o bolor “ia-se todo naquela água”. Depois arrefecia e comia-se. Por isso achava engraçado que hoje em dia as pessoas achassem que o pão da véspera já não prestava.
O sujeito à minha direita quedou-se a pensar. E eu quedei-me a vê-lo pensar. Voltei-me para o “meu avô” e ele agora olhava para lá da parede em frente dele, perdido no longínquo mar das memórias.
Até que desabafou: “Dizem que é ó tempo volta p’ra trás, não é?… Ainda bem que não…”
O “meu pai” pegou no saco com as doze carcaças, perguntou quanto devia e pagou.Eu tinha decidido demorar o meu café para não perder bocadinho que fosse daquele diálogo. Pela minha visão periférica, apercebia-me dos movimentos de cabeça de um e de outro, ora a olharem-se um ao outro, ora a olharem em frente, só com a parede do fundo à frente deles.
Mas agora que o sujeito do pão se ia embora olheio-o directamente. Por cima do meu olhar, sem que do meu olhar se apercebesse, ele olhou o “avô” seu interlocutor, fez-lhe um aceno e desejou-lhe boas-festas. O outro esboçou vagamente um sorriso e voltou a envolver-se com as suas memórias, as memórias do que foram duros natais, natais de tantos dias, dos tais tantos dias do ano que nos convencem que, afinal, o natal não é sempre que um homem quiser.

Atrás de mim, a minha mãe agora dorme. Já há algum tempo, no ecrã que mostra a informação que os fios que caem sobre ela recolhem, os números que se actualizam constantemente mantêm-se na cor verde e não apitam mais no amarelo, nem no vermelho. As apitadelas das letras vermelhas punham enfermeiros e enfermeiras a entrarem no quarto correndo. Os gráficos são menos claros para mim, mas parecem-me agora, sem dúvida, mais harmoniosos entre si.
Não sei se alguma vez ela comeu pão com bolor fervido, ainda um dia lho perguntarei. Mas lembro-me, por exemplo, das histórias da sardinha - uma só - repartida com um dos irmãos. E outras histórias.
Como escreve David Mourão-Ferreira, um dia haverá um primeiro Natal que será feito para sempre sem ela.
Consola-me a inquebrantável certeza que, se a lei natural da saúde e das gerações o permitir, até que esse venha, nenhum ela passará sem a presença aconchegadora de um dos filhos. Se calhar, colhe o que semeou. O que pôde semear.
Fernando Pinto, Horta (Faial) 25 de Dezembro de 2009

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Thursday, December 10, 2009

Mensagem de Natal 2009

Há pouco fui chamado a resolver um problema delicado. A pessoa com quem falei estava tensa, grave, muito preocupada. Quando a conversa acabou, estava já tranquila. Olhou-me, estendeu-me a mão, sorriu-me e desejou-me um bom Natal.
Nesse momento tomei consciência de que a festa grande desta época do ano acabava de voltar.
- O que é o Natal?… é a pergunta que vai e volta, todos os anos, mais ou menos por esta altura. E todas as vezes a gente tenta dar uma resposta nova, diferente.
- O Natal é sentirmo-nos em casa, à volta de memórias, do convívio e de sonhos, pensei eu.
Nos mais pequenos há mais sonhos do que memórias, nos mais velhos há mais memórias do que sonhos. O convívio de todos é o convívio possível, em que se fazem votos para que o possível seja igual ao desejo. O desejo é sempre cheio de paixão e de amor.
Tantas vezes que os sonhos dos mais pequenos são a alegria dos mais velhos e as memórias dos mais velhos fazem as delícias dos mais pequenos!…
Não sou nada original a dizer que escrevi esta (pretensiosa) mensagem de Natal “aos ombros de dois gigantes”: Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade.
Fernando Pessoa escreveu “A minha pátria é a minha língua”.
Eugénio de Andrade, por seu lado, escreveu o poema que a seguir transcrevo:

O sal da língua
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Nas palavras cabem os sonhos, cabem as memórias e cabe o convívio. Cabem o entendimento e a tolerância.
E os votos de Feliz Natal!
Até p’ró ano!
Um xi-coração grande, grande, grande, do
Fernando Pinto

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Saturday, November 28, 2009

O meu nome em Japonês, segundo o Facebook


Estamos, com certeza, perante classificações pouco credíveis, como serão estas que se multiplicam como coelhos no Facebook.
Mas que gosto de me ver associado a esta classificação, gosto, sim senhor!

E vou trazer em breve, para aqui, um poema sobre o mar.
Nós temos tantos, na nossa Língua!…
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Sunday, November 22, 2009

O fascínio da Bíblia

Calhou (não terá sido por acaso, apareceram nas livrarias muito próximos um do outro) ler, primeiro, alternadamente; a partir de certa altura, terminando um e só depois pegando no que restava do outro, os últimos livros de Dan Brown e de José Saramago, “O símbolo perdido” e “Caim”, respectivamente.

Ambos se ocupam da Bíblia. Ambos se ocupam com o sentido literal e com o sentido metafórico dos textos bíblicos. Ambos atraídos pelo sentido literal dos textos bíblicos.

Um, Dan Brown, desvenda no fim do livro o fascínio pela relação divina entre Deus e os homens, dizendo que “a única diferença entre nós e Deus é o facto de nós nos termos esquecido de que somos divinos”.

O outro, José Saramago, desde o início da obra obcecado em negar a própria existência do divino, a partir do absurdo das descrições literais. Radicalmente negando a mínima de margem para o simbólico.

Ambos parecem muito seguros do que dizem, do que quase atestam. De onde lhes vem tal segurança?…

Só encontro uma resposta: na convicção da sua própria crença. Quer dizer, da fé de cada um.

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Monday, August 31, 2009

Quando os cãe voam

A notíca que fui buscar à última edição do Courier Internacional faz-me lembrar o artigo que li há cerca de 35 anos, que dizia que a alimentação de um cão nos E.U.A. daria para alimentar à volta de 25 pessoas do 3.º mundo.

A minha formação profissional, que me alerta para a realidade das memórias reconstruídas, faz-me, por vezes, interrogar-me se estas velhas memórias são mesmo verdadeiras, ou são das tais “reconstruídas”. Pela notícia que agora reproduzo, parece mesmo que não. Infelizmente.

Para quando o verdadeiro empenho de governantes e decisiores políticos e poderosos económicos para reduzir este abismal fosso de desenvolvimento e de condição humana básica?

Mandar o Bobi para o porão? Nem pensar isso!

Nos EUA, a companhia Pet Airways transporta o seu animal de estimação em cabinas climatizadas. “Imaginem só”, escreve THE NEW YORK TIMES. “Compartimentos individuais, muito espaçopara esticar as pernas, pessoal de bordo, um salão reservado, acompanhamento durante o registo de embarque, passeios antes de subir a bordo. É verdade que uma ida simples Nova Iorque/Los Angeles demora cerca de 24 horas, masinclui jantar, sessões de brincadeira e uma noite em Chicago. Não lhes fazem discursos sobre segurança nem passam filmes: há apenas o luxo de o passageiro se poder entregar aos seus sonhos de cão, na sua cabina privada”. A Pet Airways serve as cidades de Nova Iprque, Washington, Chicago, Denver e Los Angeles.Um bilhete só de ida custa entre 105 e 210 euros. (Courrier Internacional, Setembro 2009, n.º 163, p. 112)

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Saturday, June 6, 2009

Saudação aos alunos finalistas da ESEQ em 2008/09

Não pude estar, ao contrário do que era meu desejo, na Festa de Finalistas dos alunos da minha Escola, a Secundária Eça de Queirós, nos Olivais, em Lisboa.

Deixei-lhes uma saudação. Que agora aqui torno pública. No geral, estes alunos foram cepa que produziu bons frutos. Frutos de bom alimento para os professores e para as pessoas que os professores são. Garanto-o com o meu testemunho pessoal.

SAUDAÇÃO AOS ALUNOS FINALISTAS DA E.S.E.Q., ANO LECTIVO 2008/09

Queridos alunos, 

            Sei que alguns de vocês gostariam, muito sinceramente, que eu estivesse aí nesse jantar, convosco. Mas não posso.

            O professor Acúrcio, meu mano, mesmo que filhos de pais diferentes, sabe as razões. Se vocês as soubessem também, sei que me compreenderiam. O meu mano, esse, já me perdoou a falta.

            Esta ocasião é uma ocasião muito oportuna para citar o versículo bíblico de que tanto gosto, que tanto me diz:

            - Fala, ancião, porque isso te compete; mas com discrição, não perturbes a música.

            Tenho mantido, nos últimos tempos, uma troca epistolar muito interessante com um jovem aluno da nossa escola, que, eventualmente, estará presente nesse jantar. Ele é um rapaz magnífico, e as cartas que temos trocado têm sido para mim um prazer muito grande.

            Mas, como lhe disse numa das últimas cartas que lhe mandei, houve tempos em que andei muito zangado com as palavras, odiei Fernando Pessoa e abominei tudo aquilo que ele escreveu.

            A razão foi que, por causa das suas palavras (palavras arrumadas por quem tem jeito em mexer com elas), o meu grande ídolo daquela altura, o nadador português Rui Abreu se suicidou estupidamente, sozinho, numa banheira, no quarto da sua universidade, nos Estados Unidos, onde chegara com mérito e quando parecia que a vida lhe sorria e prometia um futuro de sonho. Ao lado da banheira, aberto, estava o livro com as terríveis palavras de Fernando Pessoa.

            A solidão é mesmo uma coisa terrível! É da solidão que um grande amigo meu, um pouco mais velho do que eu, tem agora um medo cada vez maior.

            Contudo, um dia destes, aconteceu-lhe uma coisa inesperada, que lhe trouxe apaziguamento e outra coragem para enfrentar os anos que antecipa à sua frente. Ele reencontrou um antigo aluno, que não via há cerca de 20 anos. E saudou-o tocando-lhe no ombro esquerdo com a sua mão direita, como sempre fazia com os seus alunos, olhando-os de frente.

            O aluno, agora homem crescido, pousou a sua mão direita sobre a mão do seu antigo professor e, num suspiro que lhe veio do fundo da alma, disse para o meu amigo:

            - Que bom, professor!… As saudades que eu tinha desse seu gesto!… Esse seu gesto é único, fez-me sempre tanto bem.

            Quando o meu amigo me contou este episódio, eu falei-lhe dos gestos em que tocamos nos outros para nos excitarmos com esse toque; e nos gestos em que tocamos para, pelo contrário, podermos sentir nos outros a sua alegria de estarem connosco. E a nossa alegria de estarmos com eles. 

            As citações de autores e personagens célebres são coisas complicadas. São bonitas, podem ser profundas, mas podem também ter o encanto das serpentes tentadoras. Há frases lindíssimas escritas por homens tenebrosos!

            Muito recentemente, recebi da minha colega Ermelinda uma daquelas citações que agora, recorrentemente, aparecem nas nossas caixas de correio da Internet. Só que, desta vez, vinha magnificamente ilustrada por uma aguarela lindíssima que ela própria pintou.

            A citação é de Charles Chaplin. Diz assim: 

“Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
porque cada pessoa é única e nenhuma outra a substitui.
Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova
de que as pessoas não se encontram por acaso.” 

            Queridos alunos, queridos colegas,

 Permitam-me a fantasia de vos fazer uma proposta: 

            - Mano Acúrcio, orienta aí o pessoal!… 

            Passem o vosso braço por detrás de quem tiverem à vossa direita e poisem a vossa mão sobre o seu ombro. Deixem-se estar assim um bocadinho, sintam esse bocadinho e guardem-no na vossa memória. Procurem tomar consciência da alegria que neste momento vos percorre. Só da alegria mesmo! Porque a tristeza e a saudade também estarão hoje aí no meio de vocês. Seguramente. Por isso, repito, dêem primazia à alegria e tentem tomar consciência da alegria e do prazer que é estarem assim juntos.

(…)

            Vamos ver quem se lembrará deste gesto daqui a 20 anos.

            Desejo a todos um bom jantar, desejo a todos uma festa linda!

            Como dizem os Trovante, num poema dedicado a uma pessoa muito especial, que tive a felicidade de conhecer e de quem fui grande amigo,

Há quem espere por nós assim
mesmo ao meio da rota do fim
há quem tenha os braços abertos
para nos aquecer
e acenar no fim.

            Queridos alunos finalistas, na Escola Secundária Eça de Queirós haverá sempre alguém de braços abertos à vossa espera, para vos receber com alegria e companheirismo.

            Numa dádiva que me esforçarei sempre por merecer, recebi do nosso querido aluno João Soares Matos, já nesta semana, uma mensagem no meu blogue que diz assim, entre outras coisas belas e deliciosas: Com esforço e dedicação, todas as estrelas estão à distância de um abraço. (…) Sinto-me privilegiado por frequentar a Eça de Queirós, que brilha sob o céu azul todos os dias.”           

Queridos alunos,

- Felicidades nas vossas vidas, vão dando notícias!

            - Até sempre, queridos alunos!

            - Até um dia destes na Escola, queridos colegas e amigos!

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Sunday, May 24, 2009

Cuidar da criança que somos sempre

A causa próxima deste apontamento foi um vídeo que vi no YouTube, sobre a participação do pequeno Miguel Guerreiro no que parece ser um “supra-concurso” musical para crianças e jovens, em Itália.

Pessoalmente, afligem-me sempre os interesses “interesseiros” que rapidamente crescem à volta das crianças e dos jovens que se destacam por habilidades e artes especiais, que revelam precocemente.
O pequeno Miguel parece que está a ser, aos poucos, metido em formas que o moldam, não aos seus interesses e ao seu desenvolvimento, mas ao desenvolvimento de interesses de outros.
Se tivesse hipótese de lhe dizer alguma coisa, e aos seus pais, citar-lhes-ia este pequeno poema do espanhol Juan Ramón Jiménez, que ganhou o prémio Nobel da literatura no ano em que eu nasci, em 1956:

Não corras, vai devagar,
que onde tu tens de chegar só tu o podes fazer!

Vai devagar, não corras,
senão, a criança que há em ti, eterno
recém-nascido,
não consegue seguir-te!

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Saturday, April 25, 2009

“25 de Abril, sempre!” edição de 2009

Ontem participei, na Escola, na palestra que algumas colegas do Grupo de História (a Eulália Andrade, a Paula Faia e a Cristina Kirkby) organizaram para lembrar e celebrar o 25 de Abril. Essencialmente, alguns professores da Escola, desfiaram lembranças pessoais desse dia e dessa época.

No meu caso, não quis deixar de destacar a grande alegria, a paz, a tranquilidade que o dia me trouxe:
O meu pai, sargento do Exército Português, fez praticamente a guerra toda. De 1961 a 1974, os anos todos da guerra no Ultramar, raramente ele esteve estavelmente na companhia da esposa e dos filhos. Foi muito mais o tempo de estar em Angola e Moçambique em comissões militares do que na Metrópole, junto da família. 
Como muitas famílias portuguesas, nós - a minha mãe, os meus irmãos e eu próprio - tivemos que nos habituar a viver permanentemente com a tensão do que se passava em África, especialmente na província ultramarina em que o 1.º-sargento Pinto se encontrava.
Lembro-me de, por volta dos 14 anos, fazer repetidamente as contas ao tempo da minha vida que tinha sido passado com pai e mãe; e irmãos. E nunca gostei do resultado dessas contas! Por mais voltas que desse, por mais pequenas ocasiões que aproveitasse, nunca consegui que fosse dominante o tempo de estarmos todos juntos!
A dedicação da minha mãe à troca de correspondência e à marcação diária das cruzinhas (uma por cada dia que passava, a reduzir o espaço branco - enorme! - dos dias que faltavam para o dia do regresso, são e salvo) era observada com discrição e alguma distância por mim e os meus irmãos. Eles - pai e mãe - sempre procuraram poupar-nos ao conhecimento de factos, de horrores vividos ou presenciados, cuja realidade os filhos deduziam apenas quando observavam a mãe sentada à escrevaninha  a reagir com lágrimas - tantas vezes de aflição! - às palavras que dias antes o marido tinha decidido confidenciar-lhe ou partilhar.
Lembro-me perfeitamente que nesse dia, no 25 de Abril de 1974, a certa altura fui tomado pela certeza, indefinidamente saborosa, de que o meu pai não voltaria à guerra em África!
Os 10 de Junho, que começámos a seguir na televisão, eram, em nossa casa, dias terríveis. Quantas vezes a nossa mãe nos contagiou com a reacção que as imagens de viúvas e órfãos-crianças; de soldados estorpiados; de velhos pais, órfãos, também, dos seus próprios filhos, despertavam nela, tão forte seria a identificação que faria a esses dramas pessoais e familiares, o espectro da possibilidade de a mesma tragédia um dia poder tocar-nos na pele.
Lembro-me de um dia - creio que o único dia! - em que o meu pai foi à escola dos Quinchosos falar com o meu professor, o professor Virgílio. O orgulho e a satisfação que tive nesse dia! A causa era, outra vez e sempre, a guerra, que não deixava oportunidades para que o que aconteceu naquele dia na escola - e me deixou tão feliz - acontecesse mais vezes.
Pois é… que saborosa aquela certeza que o 25 de Abril me deu!
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Saturday, April 11, 2009

A Páscoa, com ou sem coelhinhos

Foi esta a mensagem que, a celebrar a época festiva que atravessamos, tão característica da nossa tradição cultural, espiritual ou religiosa, enviei à quase totalidade das minhas listas de endereços electrónicos (Quer dizer, modernices… cómodas, rápidas e eficazes modernices). Foi escrita ontem, à tarde:

Ai!… Ai!…

Agora, às três e meia da tarde, cá por casa, cada um descansa para seu lado…

De manhã fui p’ró mar, ver baleias e golfinhos, depois de dar à pressa o pequeno-almoço à minha “Velhitas”.
Cheguei a casa quase às duas da tarde, ela esperava por mim para almoçar. Creme de ervilhas e um belo bacalhau no forno!…
Depois consolámo-nos - quem ainda estava em casa - com amêndoas, que eu trouxe de Lisboa, escolhidas quase uma a uma! Falámos de folares (que os temos cá em casa; os do Redondo já acabaram, mas temos ainda um grande do Pico, que uma doente da minha irmã fez questão de lhe oferecer), até dos lagartos com olhinhos de feijão frade que há mais de 30 anos a tia Rosinda oferecia aos sobrinhos!… Eram deliciosos!… O Pedro Henrique, o meu sobrinho açoriano mais velho, foi surfar para São Jorge, come menos amêndoas, só as que tiverem sobrado no domingo de Páscoa; é bem feito!… (Talvez lhe guarde algumas, às escondidas)
Daqui a pouco, vou levar a minha mãe - como agora se tornou hábito - a acender o farol, o que, além de útil para quem cruza o mar no canal entre as ilhas, é um excelente passeio higiénico para ela.
Amanhã vamos todos almoçar fora, ao Chinês (!) que é a grande novidade aqui na cidade da Horta.
No domingo de Páscoa vamos chamar os amigos (aqueles muito especiais) e os outros familiares da Ilha e vamos todos almoçar tradicionalmente cá em casa.
De manhã iremos todos ao cemitério levar as amêndoas aos gulosos do senhor José (o Peter) e ao nosso “Velho”. À tarde, será tempo de telefonar para a família de (Grande) Lisboa, Coimbra, Cernache, Abrantes e Matosinhos. E amigos, também do continente.
A missa pascal é seguida em casa, pela televisão, pelas duas anciãs da família, Lourdes e Luísa.

Desejo a todos vós uma Páscoa igual à minha! Ou melhor!…
Beijinhos e abraços!

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Thursday, March 19, 2009

No dia do Pai

Pus-me na Net à procura do poema do salgueiro à borda d’água, que o meu pai cantava aos netos, a embalá-los - é assim a lembrança que dele guardo, não me lembro de o ouvir cantar a canção do salgueiro aos filhos -, completamente dedicado e feliz nessa ocupação ao mesmo tempo tão paternal e tão maternal.
Antes de encontrar o poema (que mais abaixo reproduzo), encontrei estoutro, em boa hora, que aqui deixo, e que na família facilmente se perceberá porquê: Coimbra… a “cabra”… o Mondego… o comboio… Abrantes…
E desde já recomendo a visita ao blogue do seu autor, que saúdo agradecendo o poema oportuno:

UM BREVE ADEUS

Parto! Da minha Coimbra ao anoitecer
Talvez a “cabra” dê uma badalada
Que imagem tão linda de se ver
A alta universitária iluminada
Ou a luz que serve de guia
Naquele templo de sabedoria

No Mondego, correm abundantes águas
Que inundam todos os seu recantos
Quem sabe se de velho estudante são mágoas
Ou lágrimas de D. Pedro nos seus prantos

Há notas que uma guitarra entoa
Espelhada em sonhos de uma mocidade
Tocando na Utopia que por ali voa
Palavras de versos na eternidade

Mas na noite, a cidade esvai-se por fim
Na noite, da sua própria imensidão
Deixa muita, mas muita saudade em mim
Para sempre, gravada no coração

Coimbra, 6 de Abril 2006
Rui Lopes
(texto escrito no combóio de Coimbra para Abrantes)

E agora, o poema do salgueiro à borda d’ água, especialmente a pensar nos netos que, ao colo do avô Pinto, fixavam os olhos (enquanto os conseguiam manter abertos) na boca que lhes passava o encantamento da melodia:

O salgueiro à borda d’água
Dá-lhe o vento, balanceia
Quem tem seus amores na terra
Pela porta lhe passeia

O salgueiro à borda d’água
Perguntou ao amieiro
Qual dos amores é mais firme
O segundo ou o primeiro

Um abracinho, bem apertado
Para quem ama não é pecado
Não é pecado, não é, não,não
Um abracinho do coração

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