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  • Fernando Pinto 10:38 am em April 15, 2012 Link | Responder  

    Macau, minha terra – 001 

    Quase seguramente, a primeira notícia das muitas que para aqui trarei sobre a terra onde nasci.

    Porquê esta? Simplesmente porque calhou, alguma teria de ser a primeira.

    Espero que o meu sobrinho Pedro Henrique, que bem perto de Macau está, lhes encontre algum interesse.

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  • Fernando Pinto 6:52 pm em December 7, 2011 Link  

    5 de dezembro Terça feira Ano de 2011… 

    5 de dezembro. Terça-feira. Ano de 2011. Para que conste.

    Dei as duas voltas à chave do costume, e encaminhei-me para as escadas. Voltei a olhar para o relógio, estávamos a cair em cima das oito da manhã. Boa! Dava tempo para ir a pé para a escola. Já tinha reparado que não estava a chover. Isso, iria a pé para a escola.

    Desci as escadas para o oitavo andar, depois para o sétimo. No último lance de degraus para o sexto andar, que nos põe de frente para as caixas dos elevadores, ainda pude ver uma miudita a abrir a porta do elevador da direita e a entrar lá para dentro. Ela estava de costas para mim, não me viu. Ainda hesitei em dar-lhe os bons-dias. Desisti de o fazer, ela não teria tempo de se voltar para mim e responder-me.

    Notei ainda, quando a menina entrou no compartimento do elevador, o que poderia ser uma dificuldade no andar, mas a brevidade da situação não me permitiu concluir fosse o que fosse. A menina voltou-se de frente para a porta do elevador, talvez me pudesse ver ainda. E então, se me visse, que interesse poderia ter isso? Afinal, eu não a conhecia, ela não me conhecia; ela certamente ia já com a cabeça posta na escola dela e eu na minha. Na melhor das hipóteses, ele ver-me-ia a prosseguir o meu caminho, ver-me-ia a voltar-me de costas para o elevador, e atacar o primeiro lance de degraus que me levaria ao andar imediatamente abaixo.

    Contudo, no último momento da visão periférica, pude perceber que a menina estava a abri a porta do elevador. Seria que me viu? Seria que teria pensado que eu poderia querer descer também de elevador? Não devia ser, na verdade, estou mais habituado, naqueles elevadores, a pessoas que apressam o fecho da porta para evitarem o contacto com alguém, seja quem seja; basta que seja alguém. Tantas vezes que, naqueles elevadores, as portas fechadas apressadamente, denunciam pessoas que não querem entrar em contacto – pelo menos naquele instante –  com quem quer que seja!

    Afinal, era mesmo para mim, a menina abriu nitidamente a porta, projectou a cabeça para fora do elevador, olhou-me e perguntou-me se eu queria aproveitar para descer. Sem qualquer hesitação, não deixei que o pé direito tocasse sequer o primeiro degrau do lance de escadas logo já ali à beira, torci-me num ângulo de 180 graus e dirigi-me ao elevador.

    Assim que entrei, ainda mesmo antes que a porta se fechasse, olhei para a menina. Ela sorria para mim, eu sorria para ela. “Costumo descer pelas escadas, mas como podia eu dizer não a um convite simpático de uma vizinha tão bonita?…” disse-lhe eu. A menina riu-se e baixou os olhos. ”Como se chama a minha simpática vizinha?…” A menina disse-me o seu nome.

    Ela era pequenina, e pelos discretos movimentos no elevador, a conformar a posição dela com a minha no pequeno compartimento, confirmei que tinha uma deficiência motora acentuada nos membros inferiores. “Em que ano andas?…” perguntei eu, tentando ser prudente, não queria arriscar o ano escolar. Se o tivesse feito, teria afirmado o 4.º ano. Falharia, a menina anda no 6.º ano.

    “Então, o Pai Natal vai ser simpático contigo nas notas do primeiro período?…” A minha simpática anfitriã de elevador  riu-se e respondeu-me indefinidamente: “Ainda me falta fazer dois testes…”. Nessa altura, o elevador abrandou, outra pessoa ia entrar e juntar-se a nós. Era uma senhora do 4.º andar que, tão depressa entrou, tão depressa se pôr de costas para nós, de nariz quase pregado à porta do elevador, depois de nos ter cumprimentado com um brevíssimo “Bom dia!”. Seguramente a nossa vizinha carregava já com ela, aquela matinal hora, a preocupação antecipada das coisas que o dia de trabalho reservaria para ela, e, no fim desse dia, a necessidade de harmonizar a vida de trabalho com a vida da casa.

    “Ui!… Está bem, faltam dois testes, mas de certeza que tens já uma ideia do aproveitamento que vais ter…” disse eu à menina, puxando dos meus galões de professor sabedor destas coisas. A minha pequena vizinha voltou a rir e enfrentou a perguntou com afabilidade: “Acho que vou ter só duas positivas, o resto é tudo negativas…” Ela olhava-me nos olhos, continuava a sorrir. “Ai que dor!… reagi eu, olhando-a também, sorrindo também. Como é que o Pai Natal pode ser assim tão mauzinho para ti?…

    Nesta altura, a senhora, nossa vizinha, que ia de costas para nós, virou-se para trás e olhou para mim e para a menina. Agora já éramos três vizinhos a sorrir no espaço exíguo do elevador.

    “Como pode uma coisa destas acontecer a uma menina tão bonita e tão simpática?” continuei eu. Nesta altura, o elevador parava no rés-do-chão. Saímos os três e eu não me despedi logo da menina. Ela caminhava lentamente por causa da sua deficiência motora. Já na rua, perguntei-lhe em que escola ela andava. “Na é-bê-dois-três dos Olivais.” Ó minha querida vizinha, temos de tratar dessas negativas todas, que é para no ano que vem ires para a minha escola, lá eu ajudo-te a teres muitas positivas logo a partir do primeiro período.”

    “Que escola é a sua?…” perguntou-me a menina, continuando a caminhar ao meu lado. Íamos na direcção da entrada do Metro. Respondi-lhe directamente à pergunta. Ela pareceu ficar contente com a minha resposta: “Tenho lá uma amiga minha, a (a minha interlocutora disse-me o nome da amiga, mas eu não fixei), está no 7.º ano”. Perguntei-lhe se ela sabia de que turma era, mas não, a minha vizinha não tinha bem a certeza. Lembrei-me da nossa vizinha chinesa que há muito tempo que encontro, logo de manhã, à espera do Metro, mas que só há pouco tempo reconheci como aluna da minha escola. Será que a A. Conhecia a vizinha chinesa? Resolvi indaga-la: “E também lá está uma outra vizinha nossa, do sétimo, é uma menina chinesa.” “Eu sei quem é, às vezes vejo-a, é uma menina simpática.” “Muito bem, ficamos todos lá à tua espera para o ano que vem…” “Não, não dá, eu, quando for para o sétimo, vou para o D. Dinis.” “Pois, é lógico, é natural, concordei eu, está aqui bem mais perto, tens razão.”

    Já estávamos à entrada do Metro, a minha vizinha parou e perguntou-me se eu ia de Metro. Respondi-lhe que sim, presumindo – erradamente, como logo a seguir constatei – que ela iria também apanhar o Metro. “Eu não, eu vou de autocarro, disse-me ela, vou ali para a paragem.” “Olha, eu vou contigo, quando saí de casa estava a pôr a hipótese de ir a pé, é cedo, agora resolvi ir mesmo, acompanho-te até à paragem.”

    “O senhor entra a que horas? Na minha escola, nós entramos às oito e um quarto…” “Eu vou entrar às oito e vinte, tenho mais cinco minutos do que tu para chegar à escola, a mim dá-me perfeitamente para ir a pé.” A deliciosa menina, no seu vagar de andar, andar de frágeis passinhos, impostos pela infelicidade física, pegou espontaneamente outra vez no assunto das notas da escola: “Levantei a Inglês, mas baixei nas outras todas… Não consigo fazer melhor…” “É o que te disse, A., temos de olhar para isso com atenção. Um destes dias vou a tua casa falar com os teus pais e vamos ver o que se poderá fazer. Em que andar moras?” A menina disse-me em que andar morava e continuou a falar: “Só que eu não moro com os meus pais, moro só com a minha mãe, os meus pais estão separados…” “Não há problema! Falamos primeiro com um e depois com o outro!” No que podia ser tomado como uma anuência implícita da menina, ela esclareceu-me: “Esta semana eu estou com a minha mãe, e na semana que vem é que estou com o meu pai… Uma semana estou com a mãe e outra semana estou com o pai…” “Ó minha querida vizinha, isso assim não deve dar muito jeito, pois não?…” Pela primeira vez se notou na conversa um pequeno silêncio. A menina maneou a cabeça ora para um lado, ora para o outro; fez aquele esgar de boca que é praticamente instintivo no ser humano, em que revira para baixo os cantos da boca, puxados para fora, para denunciar que não sabe, que não tem a certeza e acabou por dizer-me: “Não é assim tão mau, até dá jeito…” E fez outra pausa, que, outra vez, resolvi não perturbar. Ela, seguramente, iria dizer mais qualquer coisa. “Até é bom, pelo menos não os oiço discutir…” “Ó A., e isso é tão importante, não é?… Os filhos afligem-se tanto quando veem os pais a discutir, não é?” A menina que caminhava ao meu lado, e que comandava, com os seus, os meus passos, concordou que sim. Eu precisava agora de rematar a conversa, estávamos a chegar à paragem de autocarro. “Se calhar, para resolver este assunto, eles entendem-se um com o outro e não discutem, os dois vão ajudar, que achas?…” A menina concordou comigo. “Muito bem, A., deixo-te aqui, agora eu vou continuar o meu caminho. Depois a gente fala. Um bom dia de aulas, cara vizinha!”

    Por sorte, o Sérgio estava ali junto da paragem do autocarro. Meti-me com ele propositadamente, para que a menina percebesse, da minha parte, alguma coisa da minha condição de professor, e assim pudesse ganhar alguma confiança no vizinho que acabara de conhecer.

    E esta, hein?… Inesperadamente, no tempo de um elevador rápido a descer e de uma rua atravessada até à paragem de autocarro que bem perto ali ficava, pude experimentar o prazer, todos os dias renovado, de descobrir e tomar contacto com uma pessoa interessante. Simpática e interessante. E tudo porque, onde a generalidade dos adultos dos ambientes marcadamente citadinos, sobretudo às horas de ir para os empregos ou chegarem a casa, se apressam a fugir do contacto humano, uma menina, pequenina, sozinha, de boa fé, não reagiu com temor e desconfiança dos desconhecidos que, hoje em dia, mais do que nunca, avisamos os nossos filhos para terem cuidado e evitarem e não deixarem esses desconhecidos meterem-se com eles.

    Caminhei para a escola a pensar que teria de escrever este pequeno episódio matinal. Logo nessa altura me perguntei como foi possível isto tudo acontecer na brevidade do tempo da descida de um elevador. “Ninguém vai acreditar que houve tempo para isto tudo acontecer, com tempo e com vagar, entre um nono andar e um rés-do-chão, num elevador que anda rapidamente!…”

    Mas é verdade, isto aconteceu exactamente assim. Se não acreditam, perguntem à minha pequena vizinha. O que ela poderá realmente estranhar é que alguém tenha feito do que aconteceu uma composição assim tão grande, que deve dar muito trabalho a ler.

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  • Fernando Pinto 12:32 pm em November 20, 2011 Link
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    Reencontro de amigos e colegas da E.I.C.A. – episódio 1 

    Sem dele termos intenção ou sequer consciência, surgido aparentemente do nada, tomou forma o lema “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”.

    Pela memória reavivada de alguns, pudemos constatar que, curiosamente, esse tinha sido o desafio que, há cerca de 40 anos, a professora Hermenegilda, de Português, nos lançou numa composição que nos mandou fazer, se a gente bem se lembra, logo a abrir o ano letivo. Recuperar esse lema, como agora aconteceu, ilustra cabalmente o velho e sábio pensamento que diz que a razão tem razões que a própria razão desconhece.

    A coluna vertebral deste reeencontro estruturou-se à volta das turmas 3 e 5 do 1.º ano do Curso Geral de Comércio da Escola Industrial e Comercial de Abrantes, no ano letivo de 1969-1970.

    Partilhámos alegrias, memórias e saudades; piadas e brincadeiras carinhosas, bem humoradas. Cada um conteve para si, discretamente, tudo o que pudesse ensombrar a luz ou reduzisse o sabor gostoso do reencontro. Só o Zé Fernandes não pode poupar-nos às marcas evidentes de um acidente irremediável. “Podia ser pior…”, “Há desgraças maiores…”, “Faço praticamente tudo igual como antes…”, são coisas assim que dizemos nestas alturas para aliviar a aflição de quem se preocupa connosco. Seja. Que seja verdade. Mas há um momento, por mais pequeno que seja, em que nos dói, em que gostávamos que não tivesse acontecido, em que queremos mostrar solidariedade, dar algum conforto.

    Um abraço muito grande para todos os meus amigos e colegas. Nenhum deles me levará a mal se o do Zé Fernandes for um pouquinho mais especial.

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  • Fernando Pinto 8:48 am em October 30, 2011 Link  

    O tempo e a idade não esperam por ninguém (岁月 不 留 人) 

    Tomando como certo o que está escrito numa página da Internet, a sabedoria popular chinesa avisa-nos de que “O tempo e a idade não esperam por ninguém”.

    Fiz questão de escrever no dia de hoje, o dia do meu aniversário, qualquer coisa que me trouxesse a presença de Macau, a terra em que nasci. Por isso fui à Net – há lá tanta coisa! – em busca da milenar sabedoria chinesa, antecipadamente certo de que encontraria uma frase que pudesse fazer sentido hoje. Encontrei esta, discretamente exposta em tanta simplicidade.

    Seguramente porque a idade vai passando, o tempo, esse tempo que um dia, muito provavelmente, sentirei faltando, faz o desejo de conhecer a terra onde nasci tomar forma cada vez mais evidente dentro de mim. Mais evidente e premente.

    Tenho procurado cultivar o jeito (um dia certamente consciencializarei se o fiz com sabedoria) de levar certinha a minha idade pelos caminhos que o tempo me tem convidado a percorrer.

    Três escritores que muito aprecio ler ocupavam recorrentemente os seus escritos com o tempo, o seu sentido, a marca que paulatinamente deixa nas nossas vidas. Falo de  José Saramago, Marguerite Yourcenar e, com especial obsessão, Thomas Mann.

    Thomas Mann parece que escreve a Montanha Mágica do jeito que o faz porque a essência do tempo é para ele uma coisa hipnotizante, que ele tenta esforçadamente compreender e, talvez até, dominar. Na tetralogia “José e os seus irmãos”, escrita alguns anos depois, ele mostra-se apaziguado com o tempo, que definitivamente deixou de querer dominar e passou a querer fruir em toda a sua plenitude.

    Faço do que ensino aos meus alunos a minha vida e ponho a minha vida no que ensino aos meus alunos. Por exemplo, ainda há bem pouco aos alunos deste ano mostrei o fio complexo do tempo que me liga, na evolução da espécie que produziu o homem em que me tornei, ao ser mítico que foi batizado como o “Adão da Ciência”. Transmiti-lhes o que a Ciência hoje diz e, ao fazê-lo, acabei por lhes falar do que faz sentido para mim. Eles captaram ambas as dimensões, por isso, em turmas diferentes me interrogaram sobre esse sentido.

    Tenho cada vez mais clara em mim a ideia do infinitamente pequeno átomo que sou no complexo ser a que chamamos Universo. Tenho também cada vez mais clara a ideia de que sou um átomo que, mesmo que infinitamente pequeno, tenho valor; tanto mais valor quanto eu acreditar que o possuo, o reconheça e tenha a sabedoria de o fazer valer.

    Curiosamente, inesperadamente, um rapazinho da minha escola, sem que o soubesse e sem que o desejasse, conseguiu, há poucos dias, fruto de uma circunstância inteiramente inesperada, fazer-me tomar consciência de algo que, se não é o meu valor, é, no mínimo, parte fundamental dele: tenho – deixei de ter qualquer dúvida a esse respeito, precisamente pela ação não intencional desse rapazinho – um toque de Midas. Como o personagem mítico tinha o poder de transformar coisas em ouro, eu tenho o poder de transformar coisas para que passem a brilhar intensamente. O tempo do meu encontro com tal rapazinho foi o tempo de estender a mão na sua direção e tocá-lo como Midas, tão somente essa brevidade de tempo. E ele reluziu como ouro.

    Olhei-o, mirei-o e deixei-me impressionar pelo que jovem que assim mirava. Tomei bem consciência do meu poder. O seu olhar, o olhar dos seus olhos bem postos em mim, devolvia-me o brilho intenso do ouro. Os anos que vivi, neles pude já cruzar-me com Ulisses, que me ensinou, como nenhum outro, a conhecer o poder fascinante das sereias e o engano que é o brilho do ouro.

    As sereias que vivem todos os dias connosco, que fazem parte de nós, são as mais perigosas de todas, fazem-nos crer cegamente que podemos ser ou fazer o que nunca, verdadeiramente, seremos capazes. E o brilho do ouro, afinal, só vale mesmo pelo Sol que qualquer lingote consiga refletir.

    Foi assim que o Sol nasceu hoje à minha janela. Brilho puro, sem corpo!

    “Nem tudo o que reluz é ouro”, diz a canção popular, querendo assim alertar-nos para não nos deixarmos enganar pelo brilho das coisas. Até pelo brilho do próprio ouro. O brilho que vale verdadeiramente é o brilho do Sol. E este, que tantas vezes, tantos dias, olho de manhã pela minha janela, quer um jeito especial de ser tocado e pegado. A ânsia de pegá-lo pode cegar-nos. Ou estatela-nos no chão, que o diga Ícaro.

    Se há anos subi o Kilimanjaro para ficar tão perto do Sol quanto queria, os anos que de passaram de lá até hoje fizeram-me perceber o poder que ele me pôs nas mãos. Midas teve um dia um poder igual, mas fracassou porque confundiu o brilho do ouro com o brilho do Sol. Sei eu agora que tenho de ir um pouco mais além: o único brilho que vale mesmo a pena é o do Sol, o do ouro é um engano. Foi precisamente isso de que fui capaz de perceber quando o tal rapazinho da escola fixou os olhos dele nos meus: eles brilhavam o brilho do Sol, não era o do ouro. Que bom foi reconhecê-lo!

    É… chego à idade a que chego, vejam lá, a sonhar como Ícaro. Tenha eu o seu entusiasmo mas também a sabedoria – que ele não teve – de evitar a ilusão e o logro em que se deixou cair. Não tome eu nada nem ninguém como se de ouro para mim se tratasse, nem ninguém me sinta a valer como vale o ouro. Se assim for saberemos sempre tomar do Sol o que ele tem de conveniente nas nossas vidas.

    Caros alunos do 7.º ano da Escola Secundária Eça de Queirós, há dois ou três dias fiz parte do grupo que vos impeliu a escreverem objetivos pessoais e de grupo para o ano letivo que ainda está no seu começo. O que acabei de escrever são os objetivos que assumo para o ano de vida que agora inicio: não me deixar enganar por tanta coisa que brilha como o ouro; e saber reconhecer as coisas, os momentos e as pessoas em que o Sol, a fonte da vida, brilha.

    E para que me servirá reconhecer o brilho do Sol? Agora a resposta já é simples: para ajudar os outros a encontrarem os seus próprios valores.

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  • Fernando Pinto 3:17 pm em August 1, 2011 Link  

    escrito no Facebook a propósito de uma fotografia… 

    (escrito no Facebook, a propósito de uma fotografia da estação ferroviária dos Olivais, guardada no Arquivo Fotográfico de Lisboa. A fotografia é de 1962 e o autor é Artur Goulart.)

    O prometido é devido, com a prontidão possível. A propósito da apresentação que associei à fotografia da estação ferroviária dos Olivais, no álbum de fotografias sobre a história dos Olivais. É natural que venha a fazer uma ou outra pequena revisão ao texto, como é meu costume.

    Eu tenho a certeza de que vou escrever esta história pela segunda vez. Não encontro o texto da primeira vez que o fiz. Não o tenho guardado nos meus arquivos digitais, nem o encontro na Net. Quase seguramente foi um dos textos que perdi quando a autocaravana dos Traquinas foi assaltada, durante a noite, na fronteira entre a Itália e a França. Essa também é uma história, ou melhor, um livro inteiro de histórias. Era a primeira vez que eu levava o meu computador portátil para o estrangeiro. Roubaram-mo. Tinha lá um tesouro de cerca de 250 páginas, de apontamentos diários de vidas de jovens que comigo partilharam tantas aventuras e trabalhos dos Traquinas da Boa Vida. Era o tempo do “Vencer o Medo com o Prazer da Cultura”. E outro quase igual, com mais de 140 páginas. Como eu reagi na altura, “foram-se os anéis, mas ficaram os dedos.” Afinal, eu celebrava, sob a iniciativa dos jovens que comigo foram na viagem a Veneza, a remissão de um melanoma maligno que muito me assutara e que muitoas peripécias clínicas me fez passar. Com outros vagares, contarei também esta(s) história(s) toda(s).

    Todas as coisas que escrevemos com muitos anos de distância são sempre coisas reconstruídas na memória, por isso será engraçado algum dia vir a encontrara a primeira versão e compará-la com a que agora vou escrever, a segunda.

    Vamos à história:

    Não sei de onde vinha àquela hora, não me lembro do dia do mês, do dia de semana, do mês e do ano. Era mais verão que inverno, o tempo estava bom, não me lembro de haver interferência de frio.

    Era muito tarde, talvez ente a uma e as duas da manhã. Desci de um autocarro que me deixou na paragem à saída da Avenida Gago Coutinho para a Rotunda do Relógio. Eu não tinha ainda carta de condução. Seria um dos meus últimos romantismos adolescentes, tardava quanto podia a necessidade de ter carro. Já estava na casa dos 30, resistia como podia. Ora precisamente naquela noite ter-me-ia dado muito jeito ter um.

    Enquanto esperava o autocarro que me levasse até casa (a carreira 19, ou 34, já não me lembro…) apercebi-me que ali bem perto, do outro lado da avenida, uma criança pequena brincava rodando num poste (sinal de trânsito, ou poste de iluminação, sei lá…). Aos poucos estranhei que a criança ali continuasse. Olhei à volta, ainda sem saber porquê, e acabei por tomar consciência de que a incoerência de que me tinha vagamente apercebido era a de a criança estar ali sozinha. É verdade, não havia mesmo mais ninguém por ali.

    A criança não dizia nada, não parecia aflita. Pôs-se a andar um pouco para cima, um pouco para baixo, não dava para perceber o que queria, ou melhor dava para perceber que não sabia o que queria.

    O meu autocarro veio, deixei-o ir, não fiz sinal para que parasse. Atravessei a rua e cheguei-me ao pé da criança. Era um rapazinho, não teria mais do que 4 ou 5 anos. Perguntei-lhe o que estava a fazer ali àquela hora, sozinho. Disse-me que queria ir para casa. Perguntei-lhe onde morava, respondeu-me que não sabia. Perguntei-lhe com quem estava, respondeu-me que com ninguém.

    Eu ia olhando à volta, não havia mesmo mais ninguém por perto. Fiz mais algumas perguntas ao miúdo e comecei a perceber que as coisas que a criança dizia não davam umas com as outras. Mais ainda, o miúdo não dava sinais de aflição nenhuns!… Que estranho… Parecia um passarinho desorientado, tão desorientado que nem sequer percebia que tinha razões mais que suficientes para se afligir. Falava comigo e mal me olhava. Perguntei-lhe se queria ir comigo, ia para minha casa, dormia lá e depois, de manhã íamos procurar a casa dele. Disse-me que sim, desafetadamente, nem sei se ele percebeu o que estava eu exatamente a propor-lhe.

    Senti algum desconforto porque temi que pudesse, sem querer, estar a enganá-lo. Eu já tinha decidido passar pela esquadra dos Olivais e pus a hipótese de que, ao contrário do que dissera os rapazinho, não me deixassem levá-lo para casa- Era a primeira vez que me via numa situação daquelas. “Táxi!…”

    Na esquadra, identifiquei-me e perguntei se tinham alguma notificação ou queixa de um miúdo, da idade dele, perdido. Nada, absolutamente nada. Disse aos polícias quem eu era, onde trabalhava, onde morava e o que pensava fazer. Deixava os meus dados todos, especialmente o número de telefone de casa (ainda não tínhamos entrado na era dos telemóveis).

    A alternativa era o miúdo ficar a dormir ali na esquadra, àquela hora da noite não podiam fazer mais nada. Não foi difícil convencer os polícias a deixarem-me levar o miúdo para casa.

    Quando chegámos a casa, perguntei ao miúdo se tinha fome. Disse-me que sim, levei-o à cozinha, mostrei-lhe a comida à vista (fruta, pão…) e abri o frigorífico para que ele olhasse lá para dentro. Pediu-me pão. Perguntei-lhe se queria manteiga, acenou que sim. Mais alguma coisa?… Leite?… Não?… Não, mais nada. Na conversa bem parca – e cada vez menos fiável, diga-se de passagem –, que fui mantendo com o miúdo (eu nem sequer conseguia saber como ele se chamava!…), a única coisa que foi sendo repetida foi a referência a um comboio, o que me levou a pensar que talvez ele se tivesse metido num comboio, depois saiu numa estação qualquer, perdeu-se, antes ou depois de sair do comboio, da(s) pessoa(s) com quem estava e depois não soube encontrar o caminho de volta para casa.

    Mas… ali?… na Rotunda do Relógio, tão longe de qualquer estação ou apeadeiro de comboio?… Mais perto dali, estavam a estação do Areeiro e a estação de Cabo Ruivo…

    O miúdo não quis comer mais nada, perguntei-lhe se queria tomar um banho – estava tão sujinho!… -, acenou que sim, ainda bem que não acenou que não!… Meti-o na banheira, dei-lhe um banho e depois levei-o para o meu quarto. Mantive-o enrolado ao lençol de banho enquanto lhe preparei uma cama ali no chão. Arranjei-lhe uma t-shirt, ficou com ar de quem tinha vestido uma camisa de dormir. Ele deitou-se, estava com muita vontade de dormir.

    O miúdo fez tudo sempre mansamente, sem qualquer queixume, desde o momento em que o abordei na rotunda. Uma mansidão quase arrepiante!…

    Fui lavar-lhe a roupa e meti-a a secar, na esperança que de manhã ele a pudesse vestir outra vez. Deitei-me depois, a pensar o que iria fazer no dia seguinte. O miúdo dormia a bom dormir.

    No outro dia de manhã (devia ser sábado ou domingo, eu tinha o dia disponível), quando ele acordou, levantei-o, arranjei-o, vesti-o (a roupa dele estava seca!) e dei-lhe de comer. Telefonei para a esquadra, não senhor, não havia novidades, ninguém tinha reclamado por uma criança com as caraterísticas dele. Combinei com a polícia que o miúdo ficaria comigo durante o dia, ia levá-lo, talvez à estação do Areeiro, talvez à dos Olivais, o miúdo continuava a dizer que queria ir para o comboio.

    Acabei por perceber que o miúdo morava num casebre, ou numa barraca. Levei-o à estação do Areeiro, não deu sinais de que reconhecesse fosse o que fosse. O miúdo mal falava, mal se percebia o que dizia. Era cada vez mais evidente que tinha algum atraso no desenvolvimento. E, é verdade – bolas! –,  era tão pequenino!… Que poderia eu querer dele?…

    Levei-o à estação dos Olivais – que eu não conhecia! -, foi a primeira vez que lá fui e gostei da estação… Sei, agora, que gostei porque foi a estação em que o miúdo pareceu mais esclarecido, mais entusiasmado. Fomos a Santa Apolónia, fomos a Cabo Ruivo; voltámos à estação dos Olivais, mas ele não me dava pistas do que fazer a seguir. Ele não dava mostras de saber qual comboio apanhar, qual o lado da linha… Passámos o dia nisto, desisti, e fui com o rapaz à esquadra dos Olivais. Recomendaram-me que deixasse o miúdo com eles, ainda não havia quem o tivesse reclamado. Resignei-me, concordei que seria o melhor a fazer; talvez não demorasse a ser identificado e a voltar para ao pé dos pais. Despedi-me do miúdo, dei-lhe um beijo e pedi aos polícias que me dessem notícia do que se passaria a seguir com ele.

    Praticamente 24 horas depois voltei à esquadra. Continuava a situação de ninguém reclamar a criança. A polícia tinha-o encaminhado para a Mitra, ali na zona do Beato, lá ficaria até que alguém o fose reclamar.

    Os dias foram passando sem novidades, até que cerca de uma semana depois a polícia me disse que a criança tinha acabado de ser entregue à mãe. Só que havia um “pequeno” (o tom era irónico…) pormenor: verdadeiramente, ninguém tinha reclamado a criança. O que aconteceu foi o seguinte: a mãe tinha participado à polícia o desaparecimento de um irmão um pouco mais velho, que lhe fazia falta para a ajudar e o irmão também tinha sido recolhido na Mitra mais ou menos na mesma altura. Quando a mãe foi à Mitra buscar o irmão, para grande surpresa dela, deu de caras com o filho que eu recolhi em minha casa!… Aproveitou, qual dois em um, e levou ambos os filhos de volta para casa!… Nunca ninguém percebeu porque é que ela não tinha reclamado o filho mais pequeno…

    Perguntei ao polícia se me podia dizer quem era a mãe e onde moravam. Deram-me a morada e até me disseram a data de nascimento do “meu” rapazinho: faria anos dali a dois ou três dias.

    Uma amiga minha tinha acabado por se interessar muito pelo caso deste miúdo, é claro, já uma onde de solidariedade se assumia à volta do “meu” rapazinho. Falei com ela e combinámos fazer uma visita à família do miúdo no dia do seu aniversário. Arranjámos um bolo de anos, juntámos algumas prendas para ele e para os irmãos (não sabíamos quantos eram, levaríamos algumas prendas “de reserva”) e lá aparecemos.

    Eles viviam numa barraca para os lados da Brandoa. Ficaram todos muito contentes quando nos viram lá chegar. Cantámos os parabéns ao rapaz e distribuímos os presentes.

    E afinal, o que é que se tinha passado no dia em que os miúdos se perderam de casa? O que aconteceu foi que os dois irmãos se tinham juntado com outros miúdos lá do bairro, vaguearam por aqui e ali, indo parar à estação de comboios ali mais perto. Meteram-se num que passou, numa carruagem qualquer, e foram até à estação do Rossio. Os mais novos acabaram por se perder dos mais velhos. O “meu” miúdo não conseguia – o que é bastante compreensível – explicar como é que tinha ido parar à Rotunda do Relógio. Enfim, agora também já não interessava. Ambiente de miséria à parte, sempre poderíamos dizer “Tudo está bem quando acaba bem”. Pelo menos o momento de cantar os parabéns e de abrir as prendas foi alegre.

    Nesta ocorrência, a novidade, para mim, não foi as barracas, as relações familiares difusas, os cuidados abandónicos da prole, a miséria dos pais e das comunidades. A novidade, para mim, foi a estação de comboios dos Olivais.

    Não deixei passar muitos dias sem lá voltar. Fiquei, sozinho, chegado à ponta de uma das plataformas, tentando perceber o que pode o miúdo perdido ter encontrado ali que tivesse gostado. Não cheguei a conclusão nenhuma, mas agradou-me estar ali.

    Sem querer, portanto, fiquei a conhecer a estação de comboios dos Olivais; e fiquei a gostar dela. Por isso gostei também muito de ter encontrado a fotografia de Artur Goulart, de 1962.

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  • Fernando Pinto 10:21 pm em July 12, 2011 Link  

    Um toque moderno como o de Midas, a fazer estragos 

    Hoje fui almoçar num restaurante habitual, com companheiros habituais, na hora habitual, apanhando o movimento de clientes habitual.

    Habitual não foi a razão que nos juntou ao almoço. “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…”, cantámos nós ao companheiro que quis assinalar o dia oferecendo-nos o almoço.

    Ficámos na sala do fundo, um retângulo que parece um corredor, quem sabe?, um aproveitamento de espaço numa casa que enche sempre, durante a semana, à hora do almoço. Na mesa do meio. À nossa direita, três sujeitos; muito provavelmente, colegas de trabalho, tal como nós. À nossa esquerda, mais quatro sujeitos.

    O grupo da direita, quando chegámos, já estava na parte final da refeição. Para saírem, teríamos de nos levantar para os deixar passar. Parecia que nem nos deixariam aquecer as cadeiras, estavam mesmo a acabar a refeição. Afinal, deixaram-se ficar ali pachorrentamente, conversando uns com os outros; deram-nos tempo a que comêssemos tranquilamente o arroz de pato. Aparentavam ter as mesmas idades do grupo da nossa esquerda, nenhum deles chegaria ainda à segunda metade dos trinta. Quando saíram, trocámos algumas palavras de circunstância, bem-humoradas. Rimo-nos todos e eles fizeram questão de nos mostrar que não precisavam de nos incomodar para se irem embora, bastou que dessem a volta a uma das mesas deles.

    O grupo da esquerda era, dos três grupos, o mais atrasado na refeição. O facto de olhar à minha esquerda para conversar com um dos meus companheiros de refeição – ainda por cima, o celebrante – punha constantemente esse grupo no meu campo de visão e não deixei de notar que um dos talheres que eu via sempre nas mãos de, pelo menos, dois ou três deles, era… o telemóvel. O jeito era de tal forma que, a certa altura, o gesto distraído de um deles deitou ao chão uma travessa ainda meia de entrecosto e de batatas fritas.

    Acabei por fixar um pouco mais a atenção no grupo porque, a certa altura, estavam os quatro de telemóvel nas mãos, completamente distraídos dos seus parceiros de mesa. Todos eles de telemóvel com touch screen. Era uma cena tão pregnante, tão contrária à confraternização habitual de um almoço em grupo, que chamei a atenção dos meus companheiros de mesa para a situação dos nossos vizinhos. À medida que largavam os telemóveis, levavam à boca uma garfada de batatas fritas ou um osso de entrecosto. Parecia que tentavam evitar olhar logo para os companheiros de mesa.

    A cereja no topo do bolo foi quando o elemento do grupo mais chegado ao meu companheiro da esquerda, incapaz de resistir à presença do telemóvel em cima da mesa, com o ecrã virado para baixo, pegou novamente no aparelho e atacou outra vez o touch screen. Chegou-se um pouco para trás e virou o ecrã mais na nossa direção. Pasmei!… Estava a jogar às cartas, e tentava que os seus companheiros de mesa não o vissem a jogar!

    Olhei para os outros sujeitos sentados àquela mesa. Outro deles pegava também no seu telemóvel, pela enésima vez. Não!… Decididamente, os meus companheiros de mesa não mereciam que continuasse a distrair-me deles e ficar ali a observar aqueles toques de Midas modernos.

    Pensei na razão que justificava o almoço entre nós. Senti-me bem, a pensar que ainda fazemos parte do grupo que não deixa de aproveitar até alguns acontecimentos menos agradáveis da vida para confirmarmos que vale a pena puxar pela vida, puxar pelo humor, puxar  pelas ocasiões de conversar agradavelmente à mesa.

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  • Fernando Pinto 12:37 am em January 13, 2011 Link  

    I’m just thankfull I am here tonight 

    Enquanto não me ver o tempo que preciso para escrever sobre esta afirmação de Janey Cutler, deixo-a ficar aqui como lema, que podemos lembrar por alguns segundos, de preferência, quando nos aconchegamos para dormir:

    I’m just thankfull I am here tonight.

    Estou apenas grata por poder estar aqui esta noite.

    Já conheço esta afirmação há vários meses, mas não me canso de a ouvir dita pela própria autora, da forma, com os gestos e a expressão com que o fez.

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  • Fernando Pinto 11:39 am em December 30, 2010 Link  

    Viva o Ano Novo! A passagem de ano é… 

    Viva o Ano Novo!

    A passagem de ano é um cíclico momento de festa, de festa rija, mesmo à beira de anos de crise e de corte nos salários. E, dos que são antecipadamente anunciados, não guardo memória de outro pior do que aí está a chegar.

    É uma festa de otimismo, provavelmente é a festa do otimismo mais espalhada e comemorada simultaneamente em todo o mundo. Simultaneamente e sequencialmente, hora a hora, durante vinte e quatro horas, um após outro arco de longitude. Numa brevíssima fração de tempo, as pessoas vivem a ilusão de que as coisas que fazem a vida podem tornar-se melhores para todos. Todos assim desejam, todos prometem empenhar-se… Assim, a ilusão é completa.

    Pessoalmente, tenho a experiência, de alguns anos, de estar do lado dos que, nessa noite, muito têm de trabalhar para que a muitos outros, iguais a eles, mas do outro lado, seja proporcionada a possibilidade de muito se divertirem. Lembro-me perfeitamente que a minha grande preocupação era sempre que, quando a noite chegasse ao fim, os membros da minha equipa, já à luz da madrugada do Ano Novo, se sentissem devidamente compensados pela noite vertiginosa de trabalho.

    Claro que nem todos os povos e culturas celebram a passagem do ano. Nem em todos os anos terá havido vontade de contar as doze badaladas ou de abrir a garrafa de champanhe no último segundo de cada ano, lembremo-nos, por exemplo, sobretudo nos países diretamente envolvidos, os anos das grandes guerras (coisa que apenas conjeturo, dedutivamente, pela informação histórica que disponho; é engraçado, não me lembro de este assunto – a passagem de ano nos anos da Guerra – alguma vez ter sido conversado em família, só me lembro da minha mãe e as minhas tias falarem, a propósito dos anos “normais”, dos bailes de passagem de ano no Sporting ou no “Órfeon”, “O do ‘Órfeon’ era mais chique”, diz a minha mãe.).

    Como é natural, são os velhotes os que menos se entusiasmam com a celebração da passagem do ano. Nas idades a que conseguiram chegar, não sobem como antes (deixaram de ir em cantigas) o degrau do carrossel das ilusões.

    Pela minha parte, já me faltou muito mais para me começarem a chamar frequentemente “velhote”. Tive este ano o primeiro aviso: estava eu no hall de entrada do Coliseu, em Lisboa, o meu querido amigo Miguel Guerreiro ia cantar numa festa da TVI. Tinha a mana do Miguel ao colo, de costas viradas para mim, como se a bebé estivesse numa cadeirinha e assim pudesse mirar bem o mundo à volta dela. Ela, com pouco mais de meio ano de vida, abria bem os seus cativantes olhos e absorvia tudo o que se mexia à volta dela. Hipnotizado por aquele olhar fascinante, um senhor chegou-se bem à bebé, fez-lhe uma festa, olhou para mim e perguntou-me: “O senhor é o avô?” Sem esperar pela minha resposta, voltou-se de novo para a bebé e continuou: “É muito bonita a sua neta!” Olhou de novo para mim, desejou-me boa noite e continuou o seu caminho. Compreendido! Obrigado pelo aviso, senhor!…

    Não quero aparecer a remar contra a maré, nem tão pouco ser um novo Velho do Restelo, mas achei apropriado associar à celebração do Ano Novo o poema que a seguir apresento. Repito, não quero ser arauto do pessimismo ou da ausência de esperança no futuro, mas tenho ideia, cada vez mais arreigada, que todos nós pedimos demais ao futuro. Ou então, preocupamo-nos demasiadamente pouco com ele. Balouçamos absurdamente entre estes dois extremos.

    Encontrei na Biblioteca Municipal da Horta, quando lá fui à procura do meu velho colega de escola, agora diretor da Biblioteca, um delicioso livro de poemas recolhidos de memória, há cerca de cem anos, todos eles de naturais da ilha açoriana de São Miguel.

    Não pude deixar de associar um deles à celebração da passagem de ano. A celebração da passagem de ano, em si própria, é uma efemeridade, é a celebração de uma ocorrência carregada de volatilidade, tão depressa começa, para logo a seguir se findar, esgotada, e deixar-nos, mesmo que ainda atónitos, imediatamente confrontados com as rotinas exigentes do resto do ano.

    O poema em que me fixei fala da vida, mas precisamente desse aspeto inerente também à celebração da passagem de ano e do otimismo implícito: a efemeridade do acontecimento. O poema diz, fundamentalmente, que a vida é um acontecimento efémero. Nesse sentido, não é um poema pessimista; é um poema que fala das coisas que passam depressa na vida, que estão constantemente a passar assim na vida. Dá a ideia que as pessoas atravessam a vida saltando de ilusão em ilusão. Até que um dia deixam de acreditar e de se entusiasmarem tanto. Nessa altura, já estão velhotes, e é como a celebração da passagem de ano, que volta novamente todos os anos, já não embarcam em mais ilusões.

    O poeta, anónimo, escreveu, como foi tradicional fazer na sua época, uma décima, um “fado” açoriano que foi fixado assim pela memória de um conterrâneo:

    MELRO AZUL

    É a vida um sonho breve

    Dura apenas um momento

    O viver é um gemido

    O pranto, dores e tormento.

    …………

    A vida é nuvem de fumo

    Que a leve brisa desfaz

    Espuma que a onda traz

    De canto a canto sem rumo

    A vida é simples resumo

    De uma pena cor de neve

    Que a brisa leva mui leve

    Sem saber qual o seu norte

    Como um sorriso da sorte

    É a vida um sonho leve.

    …………

    É um som que foge além

    Uma flor que desmaia

    Onda que morre na praia

    Folha caída ao desdém

    Em constante vai e vem

    Como gira o pensamento

    A vida é um lamento

    Nas asas da viração

    E sendo triste visão

    Dura apenas um momento.

    ……….

    É a vida a fada terna

    Que ternamente se adora,

    Como a radiante aurora

    Perdida em noite eterna,

    No corpo a alma se interna

    Em espírito convertido

    A vida é um ai perdido

    Que sai dos lábios e morre

    A vida é nuvem que corre

    O viver é um gemido.

    …………

    E depois de tanta lida

    Tanta ilusão sem ventura

    Ossos, cruz e sepultura

    Eis o que resta da vida

    É flor ao chão pendida

    Já sem vigor nem alento

    Quando assopra rijo vento

    Vai pelo ar sem destino

    A vida é sopro divino

    O pranto, dores e tormento.

    …………

    Eis a pura verdade

    Que ao pensamento ocorre

    Mas há muita criatura

    A pensar q’ nunca morre.

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  • Fernando Pinto 10:13 pm em December 21, 2010 Link  

    O Natal deste ano formou-se como se formam os flocos de neve 

    Queridos familiares, amigos, colegas e alunos,
    Quem não tiver paciência para ler esta “pequenina” mensagem de Natal, pois bem, desde já antecipo que acaba assim:
    Um Santo Natal para todos, com o que de mais importante o fermento do Natal tem para nos dar a todos: o renovado aconchego da família, dos vizinhos e dos amigos! São estes os votos que para todos formulo, do fundo do coração.
    Fernando, o Pinto
    O “resto” da mensagem, pois bem, é a prosa que se segue:

    No dia 13 de Novembro tive parte decisiva no reencontro de dois velhos amigos que não se encontravam há muito, há mais de 30 anos. Pude fazer o que fiz com a ajuda entusiasta de uma muito recente amiga, com quem os laços de amizade se estabeleceram rapida e solidamente porque ambos, à distância, nos dispusemos, de boa fé, a acreditar um no outro.
    Desse reencontro que ajudei que acontecesse ganhei eu um novo e valioso amigo, fazendo juz, no máximo da sua expressão, ao adágio que nos diz que “os amigos dos nossos amigos nossos amigos são”.
    A 30 de Novembro, só nesse dia, reparei que um rapazinho, desconhecido, me deixara escrito no blogue, quinze dias antes, a 12 de Novembro, a seguinte mensagem: “Muito obrigado senhor Fernando. Eu sou o autor do desenho. Fico grato pela homenagem. Um abraço!” O rapazinho, brasileiro do Brasil, descobriu-me na Internet, quando um dia constatou que, sem que eu o conhecesse, fosse de onde fosse, dei atenção a um maravilhoso desenho que fez e falei dele aos meus alunos. Uma muito auspiciosa amizade parece começar a nascer entre nós dois, a partir das mensagens que entre os dois já trocámos. Creio sinceramente que assim vai acontecer.
    No dia 11 de Dezembro participei num jantar de Natal com antigos alunos da escola Eça de Queirós. O meu mano, o professor Acúrcio estava comigo. Soube-me muito bem rever e abraçar velhos alunos, que não via, alguns deles, há mais de 15 anos. Nas “ondas de choque” deste reencontro, outros contactos pude ver restabelecidos, por e-mail, telefone; e pelo Facebook. É precisamente no Facebook que, poucos dias depois, a 18 de Dezembro, recebo a seguinte mensagem: “Várias vezes passei pelo Peter´s para ver se o via, mas disseram-me que já não estava por lá. Como está tudo? Trabalho numa loja de [omito, para não identificar], se um dia cá quiser passar é sempre bem recebido. Um abraço para o melhor “stôr” que tive!”
    Ainda neste dia, 18 de Dezembro, fiz o jantar de Natal com alunos atuais, e com os colegas Acúrcio e Carlos Marques. Foi um jantar para lhes dizermos, os professores aos alunos, que o melhor da vida passa seguramente pela amizade e pela reciprocidade, que se cultivam desde muito cedo, e que eles não deixem de a fazer crescer entre todos, desde já.
    Para este jantar já pude levar a máquina fotográfica que o J.A. me trouxe da Alemanha (cheguei atrasado ao jantar para dar tempo a que a bateria carregasse completamente). O J.A. é um tesouro que me foi posto nas mãos há muitos anos, há cerca de 25 anos. Parece que consegui cuidar do tesouro como ele merecia ser cuidado. A viagem da Alemanha para cá foi muito atribulada, mas o J.A. não quis deixar de me entregar prontamente o que ele sabia que eu tanto queria.
    Também minutos antes do jantar, eu tinha sido “encontrado” no Facebook por uma antiga colega de escola, com quem deixei de ter contacto há mais de 35 anos. À pressa, para não chegar (mais) atrasado ao jantar, “teclei” que, sim senhora, eu era o antigo colega que ela pensava que eu seria. Depois de voltar do jantar com os meus atuais alunos, pude ler no Facebook a seguinte mensagem desta velha amiga e colega: “Exactamente – Fernando Jorge – lembro-me perfeitamente. Tu um pouquinho mais “baixo e mais gordinho” que o teu irmão. Saíamos da Escola, “iamos estudar” para a tua casa (na agora Av 25 Abril), tu que eras o BOM ALUNO – sabias tudo de tudo – o teu irmão, eu, o [A.], a [E.] e não sei mais quem…e no meio de “tanto estudo” a tua mãe ainda nos fazia uns lanches espectaculares. Que bom encontrar aqui um dos Pintos. [...] Voltaremos a falar. Beijinho grande”.
    No dia a seguir, domingo, fui levar os meus sobrinhos açorianos ao avião, de volta a sua casa. A caminho do aeroporto, cruzei o meu olhar com o olhar familiar de um jovem adulto, fardado com se fardam quem nos aviões trabalha. Ele estava parado no passeio. Parei o carro, corri para ele e ele, que agora já é maior do que eu, pegou-me ao colo, num valente abraço. Não pode fazer o jantar de Natal habitual dos Traquinas este ano. Sugere que o adiemos para os Reis, em Janeiro. Assim será, digo-lhe eu.
    À noite, outro jantar: em casa de um jovem estrangeiro que foi refugiado de guerra em Portugal há alguns anos. Em casa dele e da sua jovem esposa, da mesma nacionalidade que ele. Depois de ter voltado para o seu país, o rapaz voltou para cá, para o país que o tinha acolhido e à família em momento socialmente e politicamente tão crítico. E regressou precisamente ao fim de um ano de, assim me disseram os especialistas, esforços bem sucedidos que empreendi sobre as mais dificultantes burocracias, nacionais e internacionais. Eles não celebram o Natal, são muçulmanos; calhou apenas, por puro acaso, nesta época a oportunidade de me mostrar a ecografia do “neto” kosovar que o jovem casal fez questão de me pôr nas mãos. O bebé vai nascer em Abril.
    Ontem fui jantar com os fantásticos e sempre solidários colegas da licenciatura de Psicologia (pena foi que dois deles não tivessem podido estar com os que apareceram). Aos que são, ano vai, ano vem, recorrentes nestes jantares de Natal, pude juntar mais uma colega, que connosco não estava desde que acabámos a licenciatura em 1981. Encontrei-a em Outubro passado, em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, perfeitamente por acaso, quando lá fui com muitos dos alunos do jantar de ontem, dia 18, e logo lá combinámos fazer este reencontro em Lisboa, tendo a sua participação no jantar sido preparada, entre nós os dois, no mais absoluto dos segredos.
    Quando cheguei a casa, vinha mesmo muito contente!… E não era do vinho, que bebemos com muita moderação. Eram horas  tardias, mas eu não pude resistir ao impulso que me avassalava: eu tinha de ser capaz de encontrar o livro dos caloiros e dos finalistas da Escola Industrial e Comercial de Abrantes, que repetidamente tenho procurado, sem sucesso, de há três anos para cá. A “culpada próxima” deste impulso era a amiga reencontrada na Internet na véspera.
    Então não é que encontrei mesmo o livro!?… Que bom!… Eu estava tomado irresistivelmente pela vontade de rever os meus velhos amigos: os primeiros são do ano letivo 1967-1968; éramos 32, da turma 5 do 1.º ano do ciclo preparatório do ensino diurno. A edição das nossas fotografias, de há mais de 40 anos, é muito boa! Depois deixei-me ficar, demoradamente, a ver os outros. Há três anos eu tinha aberto um projeto, que assim tive de deixar. O projeto de nos juntarmos outra vez, os que pudermos. Os dados que nessa altura consegui recolher estão em boas condições para serem usados ainda hoje; e agora não estou sozinho, a união está aí a fazer a força.
    Depois da consoada que já se sente e cheira, chegará, absurdamente anunciada com os foguetes da Passagem de Ano que logo se seguirá ao Natal, a crise que dificultará a vida à maioria de nós.
    Na exploração introspetiva que já pude consolidar, eu olho a cara bolachuda do menino copinho de leite que eu era e não deixo de me espantar por constatar que “naquela” criança já se produzia a consciência, o afeto, e o gesto empáticos do psicólogo que ainda hoje eu tento aperfeiçoar dentro de mim! Naquela idade, eu já passara pelas histórias dos meninos de pés descalços que eu recebia em dias festivos em minha casa, do menino sem pai que me detestava, e do colega de turma, mais loirinho ainda que eu, que cada vez que se falava das famílias, chorava com saudades do pai. Se eu pudesse, perante o irremediável da situação, eu dava-lhe – era assim que eu sentia -, para que ele levasse com ele, um bocadinho do meu pai.
    Não me levem a mal queridos familiares, amigos, colegas, alunos e antigos alunos. Estou certo que darei provas, nesta época festiva, de que vos tenho a todos no coração, mas deixem que, neste Natal, o meu pensamento e o meu coração se voltem de maneira um pouco mais especialmente para estes velhos amigos que me ajudaram a ser o que hoje eu sou, que me preencheram a infância e a adolescência com partilhadas brincadeiras, comungados sonhos, divididas aflições e solidárias cumplicidades. Tudo isto, bem amalgamado entre si, moldou a têmpera do aço – espero que mais consistente do que frágil – em que me tornei.
    Um Santo Natal para todos, com o que de mais importante o fermento do Natal tem para nos dar a todos: o renovado aconchego da família, dos vizinhos e dos amigos! São estes os votos que para todos formulo, do fundo do coração.
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    • Joana Alves 10:47 pm em Dezembro 21, 2010 Link

      Primeiro de Tudo:. Um Feliz Natal e umas Boas Entradas….

      A sua Mensagem só revela a importância da Amizade, da União… é bonito encontrar pessoas como Você que dá tamanha importância em Nunca esquecer mas sim Fortalecer todos os laços que possam existir com aquelas pessoas que um dia se cruzaram no seu caminho… Infelizmente nós ‘Homens’ temos esquecido de tal ‘tarefa’, simplesmente estamos ocupados em tentar passar sempre á frente de alguém…em tentar prejudicar sempre o próximo. Era excelente que todos pensassem assim: Ter um amigo – Cultivar essa amizade! Afinal de contas, nós também somo um pouco de todos aqueles que um dia – nem que seja só por algum momento- fizeram parte da nossa vida!

      Boas Festas **

  • Fernando Pinto 11:05 pm em December 8, 2010 Link
    Tags: Albert Shweitzer, Esquecimento, GoodPlanet.org, Perdão   

    O perdão e o esquecimento 

    Hoje descobri na Internet o projeto 6 mil milhões de Outros – Vozes do Clima (http://www.youtube.com/user/GoodPlanetorg), da fundação GoodPlanet.org, fundada por Yann Arthur-Bertrand. É um projeto fantástico!
    Cheguei a ele porque, estando eu ao computador, hoje de manhã, olhei distraidamente para a televisão. Sintonizada no Canal Odisseia, naquele momento apresentava a figura de um “primitivo atual”, tão pregnante que fixei nela a minha atenção. Era um pequeno vídeo que, percebi imediatamente, estava mesmo a acabar. Olhei o que pude nas imagens para guaradar uma referência que me permitisse procurar alguma coisa na Internet. O que fiz logo de seguida. Em boa hora!… Em boa hora cheguei a um mundo fantástico!
    Que posso eu dizer, com poucas palavras, do que me pareceu encontrar?… Que ali pulsa a vitalidade de muitos homens e mulheres do mundo que, de repente, se tornaram parte da minha vida. Não há artefactos nem truques de imagens, os enquadramentos centram-se no essencial das expressões e das palavras humanas, as legendas compensam com grande eficácia a barreira das línguas.
    Numa das recolhas de testemunhos pessoais, em que facilmente nos apercebemos das diferenças étnicas e culturais, o tema abordado é o Perdão.
    Quando cheguei da viagem ao Parlamento Europeu, no dia 26 de Outubro passado, trazia na bagagem um livro sobre Albert Schweitzer, livro de um alsaciano galardoado com o Prémio Nobel da Paz nos anos 50, de quem já falei noutros lados. Realço apenas que o livro foi escrito e publicado ainda antes de o Prémio Nobel lhe ser atribuído. Quer dizer, o livro não foi escrito para falar de um laureado, mas de alguém a quem o autor do livro reconhecera já que era senhor e autor de grande obra humana, social, cultural e artística.
    Li apaixonadamente o livro, adorei-o!
    No que agora interessa, deparei-me com uma conceção de Schweitzer que ainda hoje me debato para bem entendê-la, pois tenho resistido a aceitar concordar com ele. Mas, pelo menos, quero entendê-lo. É precisamente sobre o perdão. Basicamente, ele diz que perdoar é esquecer, só perdoamos verdadeiramente quando esquecemos.
    Ora, quando hoje comecei a ver o vídeo da fundação GoodPlanet, logo no primeiro testemunho, da senhora americana, consegui perceber um pouco melhor o que Schweitzer quer dizer. Ela, a senhora americana, diz que perdoar, consegue perdoar, o que não consegue é esquecer (http://www.youtube.com/watch?v=_cvIHdSnQyY&feature=related). Como penso que ela se terá expressado assim sem saber o que, um dia, Albert Schweitzer disse sobre o perdão e o esquecimento, o seu pensamento deve ser muito genuíno, quer dizer, a associação entre perdão e esquecimento poderá ser basicamente humana.
    Numa coincidência feliz, já hoje, também, um jovem muito rebelde, aluno da minha escola, quase oficialmente catalogado como indisciplinado e mal-sucedido, o D., entrou em contacto comigo, através do Messenger, que mantenho ligado “por defeito”, sempre que acedo à Net a partir de casa, e reparei que a citação que ele usa na sua apresentação afirma o seguinte. “Não há maior vingança do que o esquecimento.”
    Ora aqui está a fragilidade da conceção de Schweitzer sobre o perdão!
    O que claramente Schweitzer precisava de esclarecer sobre o perdão tem a ver com o seguinte:
    a) o perdão é um ato consciente, deliberado, a partir de uma vontade que se sobrepõe, se necessário, a afetos de dor psicológica, de deceção, de raiva, ou de qualquer outro sentimento, afeto ou emoção negativos;
    b) depois do perdão, é preciso fazer qualquer coisa mais: é preciso elaborar, “digerir” esses sentimentos negativos, até que eles “saiam do coração” (Estou aqui a fazer uso de uma outra citação que o mesmo miúdo me mandou depois de lhe ter dito que tinha gostado muito de encontrar aquela outra no Messenger dele: “Não se pode tirar da cabeça o que não sai do coração”.
    c) nesta linha de pensamentos que se cruzaram totalmente ao acaso, poderei dizer que Schweitzer queria dizer-nos que o perdão é feito com a cabeça e que depois deveremos fazer o duro e longo trabalho de fazer sair do coração os afetos, os sentimentos ou as emoções que temos associadas aos autores dos danos que nos foram causados e que perdoámos (com a cabeça).
    d) esquecer por vingança é calcar os afetos, é, afinal, não os esquecer; é manter a possibilidade de eles voltarem sempre à cabeça. Esquecer por vingança é anular o Outro, não os danos ou os seus efeitos psicológicos e afetivos em nós.
    e) no esquecimento de Schweitzer, preservamos o Outro, o que anulamos são os efeitos dos danos que nos causaram.
    O autor da citação sobre o esquecimento e a vingança é Baltasar Gracián y Morales, teólogo e filósofo castelhano do séc. XVII.
    A citação que associa o coração e a cabeça, para já, não sei se tem autor identificado. Percorrendo a Internet, aparece com bastante frequência em listas de frases sobre o amor, muito utilizadas nos blogues e nos fóruns.
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