(escrito no Facebook, a propósito de uma fotografia da estação ferroviária dos Olivais, guardada no Arquivo Fotográfico de Lisboa. A fotografia é de 1962 e o autor é Artur Goulart.)
O prometido é devido, com a prontidão possível. A propósito da apresentação que associei à fotografia da estação ferroviária dos Olivais, no álbum de fotografias sobre a história dos Olivais. É natural que venha a fazer uma ou outra pequena revisão ao texto, como é meu costume.
Eu tenho a certeza de que vou escrever esta história pela segunda vez. Não encontro o texto da primeira vez que o fiz. Não o tenho guardado nos meus arquivos digitais, nem o encontro na Net. Quase seguramente foi um dos textos que perdi quando a autocaravana dos Traquinas foi assaltada, durante a noite, na fronteira entre a Itália e a França. Essa também é uma história, ou melhor, um livro inteiro de histórias. Era a primeira vez que eu levava o meu computador portátil para o estrangeiro. Roubaram-mo. Tinha lá um tesouro de cerca de 250 páginas, de apontamentos diários de vidas de jovens que comigo partilharam tantas aventuras e trabalhos dos Traquinas da Boa Vida. Era o tempo do “Vencer o Medo com o Prazer da Cultura”. E outro quase igual, com mais de 140 páginas. Como eu reagi na altura, “foram-se os anéis, mas ficaram os dedos.” Afinal, eu celebrava, sob a iniciativa dos jovens que comigo foram na viagem a Veneza, a remissão de um melanoma maligno que muito me assutara e que muitoas peripécias clínicas me fez passar. Com outros vagares, contarei também esta(s) história(s) toda(s).
Todas as coisas que escrevemos com muitos anos de distância são sempre coisas reconstruídas na memória, por isso será engraçado algum dia vir a encontrara a primeira versão e compará-la com a que agora vou escrever, a segunda.
Vamos à história:
Não sei de onde vinha àquela hora, não me lembro do dia do mês, do dia de semana, do mês e do ano. Era mais verão que inverno, o tempo estava bom, não me lembro de haver interferência de frio.
Era muito tarde, talvez ente a uma e as duas da manhã. Desci de um autocarro que me deixou na paragem à saída da Avenida Gago Coutinho para a Rotunda do Relógio. Eu não tinha ainda carta de condução. Seria um dos meus últimos romantismos adolescentes, tardava quanto podia a necessidade de ter carro. Já estava na casa dos 30, resistia como podia. Ora precisamente naquela noite ter-me-ia dado muito jeito ter um.
Enquanto esperava o autocarro que me levasse até casa (a carreira 19, ou 34, já não me lembro…) apercebi-me que ali bem perto, do outro lado da avenida, uma criança pequena brincava rodando num poste (sinal de trânsito, ou poste de iluminação, sei lá…). Aos poucos estranhei que a criança ali continuasse. Olhei à volta, ainda sem saber porquê, e acabei por tomar consciência de que a incoerência de que me tinha vagamente apercebido era a de a criança estar ali sozinha. É verdade, não havia mesmo mais ninguém por ali.
A criança não dizia nada, não parecia aflita. Pôs-se a andar um pouco para cima, um pouco para baixo, não dava para perceber o que queria, ou melhor dava para perceber que não sabia o que queria.
O meu autocarro veio, deixei-o ir, não fiz sinal para que parasse. Atravessei a rua e cheguei-me ao pé da criança. Era um rapazinho, não teria mais do que 4 ou 5 anos. Perguntei-lhe o que estava a fazer ali àquela hora, sozinho. Disse-me que queria ir para casa. Perguntei-lhe onde morava, respondeu-me que não sabia. Perguntei-lhe com quem estava, respondeu-me que com ninguém.
Eu ia olhando à volta, não havia mesmo mais ninguém por perto. Fiz mais algumas perguntas ao miúdo e comecei a perceber que as coisas que a criança dizia não davam umas com as outras. Mais ainda, o miúdo não dava sinais de aflição nenhuns!… Que estranho… Parecia um passarinho desorientado, tão desorientado que nem sequer percebia que tinha razões mais que suficientes para se afligir. Falava comigo e mal me olhava. Perguntei-lhe se queria ir comigo, ia para minha casa, dormia lá e depois, de manhã íamos procurar a casa dele. Disse-me que sim, desafetadamente, nem sei se ele percebeu o que estava eu exatamente a propor-lhe.
Senti algum desconforto porque temi que pudesse, sem querer, estar a enganá-lo. Eu já tinha decidido passar pela esquadra dos Olivais e pus a hipótese de que, ao contrário do que dissera os rapazinho, não me deixassem levá-lo para casa- Era a primeira vez que me via numa situação daquelas. “Táxi!…”
Na esquadra, identifiquei-me e perguntei se tinham alguma notificação ou queixa de um miúdo, da idade dele, perdido. Nada, absolutamente nada. Disse aos polícias quem eu era, onde trabalhava, onde morava e o que pensava fazer. Deixava os meus dados todos, especialmente o número de telefone de casa (ainda não tínhamos entrado na era dos telemóveis).
A alternativa era o miúdo ficar a dormir ali na esquadra, àquela hora da noite não podiam fazer mais nada. Não foi difícil convencer os polícias a deixarem-me levar o miúdo para casa.
Quando chegámos a casa, perguntei ao miúdo se tinha fome. Disse-me que sim, levei-o à cozinha, mostrei-lhe a comida à vista (fruta, pão…) e abri o frigorífico para que ele olhasse lá para dentro. Pediu-me pão. Perguntei-lhe se queria manteiga, acenou que sim. Mais alguma coisa?… Leite?… Não?… Não, mais nada. Na conversa bem parca – e cada vez menos fiável, diga-se de passagem –, que fui mantendo com o miúdo (eu nem sequer conseguia saber como ele se chamava!…), a única coisa que foi sendo repetida foi a referência a um comboio, o que me levou a pensar que talvez ele se tivesse metido num comboio, depois saiu numa estação qualquer, perdeu-se, antes ou depois de sair do comboio, da(s) pessoa(s) com quem estava e depois não soube encontrar o caminho de volta para casa.
Mas… ali?… na Rotunda do Relógio, tão longe de qualquer estação ou apeadeiro de comboio?… Mais perto dali, estavam a estação do Areeiro e a estação de Cabo Ruivo…
O miúdo não quis comer mais nada, perguntei-lhe se queria tomar um banho – estava tão sujinho!… -, acenou que sim, ainda bem que não acenou que não!… Meti-o na banheira, dei-lhe um banho e depois levei-o para o meu quarto. Mantive-o enrolado ao lençol de banho enquanto lhe preparei uma cama ali no chão. Arranjei-lhe uma t-shirt, ficou com ar de quem tinha vestido uma camisa de dormir. Ele deitou-se, estava com muita vontade de dormir.
O miúdo fez tudo sempre mansamente, sem qualquer queixume, desde o momento em que o abordei na rotunda. Uma mansidão quase arrepiante!…
Fui lavar-lhe a roupa e meti-a a secar, na esperança que de manhã ele a pudesse vestir outra vez. Deitei-me depois, a pensar o que iria fazer no dia seguinte. O miúdo dormia a bom dormir.
No outro dia de manhã (devia ser sábado ou domingo, eu tinha o dia disponível), quando ele acordou, levantei-o, arranjei-o, vesti-o (a roupa dele estava seca!) e dei-lhe de comer. Telefonei para a esquadra, não senhor, não havia novidades, ninguém tinha reclamado por uma criança com as caraterísticas dele. Combinei com a polícia que o miúdo ficaria comigo durante o dia, ia levá-lo, talvez à estação do Areeiro, talvez à dos Olivais, o miúdo continuava a dizer que queria ir para o comboio.
Acabei por perceber que o miúdo morava num casebre, ou numa barraca. Levei-o à estação do Areeiro, não deu sinais de que reconhecesse fosse o que fosse. O miúdo mal falava, mal se percebia o que dizia. Era cada vez mais evidente que tinha algum atraso no desenvolvimento. E, é verdade – bolas! –, era tão pequenino!… Que poderia eu querer dele?…
Levei-o à estação dos Olivais – que eu não conhecia! -, foi a primeira vez que lá fui e gostei da estação… Sei, agora, que gostei porque foi a estação em que o miúdo pareceu mais esclarecido, mais entusiasmado. Fomos a Santa Apolónia, fomos a Cabo Ruivo; voltámos à estação dos Olivais, mas ele não me dava pistas do que fazer a seguir. Ele não dava mostras de saber qual comboio apanhar, qual o lado da linha… Passámos o dia nisto, desisti, e fui com o rapaz à esquadra dos Olivais. Recomendaram-me que deixasse o miúdo com eles, ainda não havia quem o tivesse reclamado. Resignei-me, concordei que seria o melhor a fazer; talvez não demorasse a ser identificado e a voltar para ao pé dos pais. Despedi-me do miúdo, dei-lhe um beijo e pedi aos polícias que me dessem notícia do que se passaria a seguir com ele.
Praticamente 24 horas depois voltei à esquadra. Continuava a situação de ninguém reclamar a criança. A polícia tinha-o encaminhado para a Mitra, ali na zona do Beato, lá ficaria até que alguém o fose reclamar.
Os dias foram passando sem novidades, até que cerca de uma semana depois a polícia me disse que a criança tinha acabado de ser entregue à mãe. Só que havia um “pequeno” (o tom era irónico…) pormenor: verdadeiramente, ninguém tinha reclamado a criança. O que aconteceu foi o seguinte: a mãe tinha participado à polícia o desaparecimento de um irmão um pouco mais velho, que lhe fazia falta para a ajudar e o irmão também tinha sido recolhido na Mitra mais ou menos na mesma altura. Quando a mãe foi à Mitra buscar o irmão, para grande surpresa dela, deu de caras com o filho que eu recolhi em minha casa!… Aproveitou, qual dois em um, e levou ambos os filhos de volta para casa!… Nunca ninguém percebeu porque é que ela não tinha reclamado o filho mais pequeno…
Perguntei ao polícia se me podia dizer quem era a mãe e onde moravam. Deram-me a morada e até me disseram a data de nascimento do “meu” rapazinho: faria anos dali a dois ou três dias.
Uma amiga minha tinha acabado por se interessar muito pelo caso deste miúdo, é claro, já uma onde de solidariedade se assumia à volta do “meu” rapazinho. Falei com ela e combinámos fazer uma visita à família do miúdo no dia do seu aniversário. Arranjámos um bolo de anos, juntámos algumas prendas para ele e para os irmãos (não sabíamos quantos eram, levaríamos algumas prendas “de reserva”) e lá aparecemos.
Eles viviam numa barraca para os lados da Brandoa. Ficaram todos muito contentes quando nos viram lá chegar. Cantámos os parabéns ao rapaz e distribuímos os presentes.
E afinal, o que é que se tinha passado no dia em que os miúdos se perderam de casa? O que aconteceu foi que os dois irmãos se tinham juntado com outros miúdos lá do bairro, vaguearam por aqui e ali, indo parar à estação de comboios ali mais perto. Meteram-se num que passou, numa carruagem qualquer, e foram até à estação do Rossio. Os mais novos acabaram por se perder dos mais velhos. O “meu” miúdo não conseguia – o que é bastante compreensível – explicar como é que tinha ido parar à Rotunda do Relógio. Enfim, agora também já não interessava. Ambiente de miséria à parte, sempre poderíamos dizer “Tudo está bem quando acaba bem”. Pelo menos o momento de cantar os parabéns e de abrir as prendas foi alegre.
Nesta ocorrência, a novidade, para mim, não foi as barracas, as relações familiares difusas, os cuidados abandónicos da prole, a miséria dos pais e das comunidades. A novidade, para mim, foi a estação de comboios dos Olivais.
Não deixei passar muitos dias sem lá voltar. Fiquei, sozinho, chegado à ponta de uma das plataformas, tentando perceber o que pode o miúdo perdido ter encontrado ali que tivesse gostado. Não cheguei a conclusão nenhuma, mas agradou-me estar ali.
Sem querer, portanto, fiquei a conhecer a estação de comboios dos Olivais; e fiquei a gostar dela. Por isso gostei também muito de ter encontrado a fotografia de Artur Goulart, de 1962.
Joana Alves 10:47 pm em Dezembro 21, 2010 Link
Primeiro de Tudo:. Um Feliz Natal e umas Boas Entradas….
A sua Mensagem só revela a importância da Amizade, da União… é bonito encontrar pessoas como Você que dá tamanha importância em Nunca esquecer mas sim Fortalecer todos os laços que possam existir com aquelas pessoas que um dia se cruzaram no seu caminho… Infelizmente nós ‘Homens’ temos esquecido de tal ‘tarefa’, simplesmente estamos ocupados em tentar passar sempre á frente de alguém…em tentar prejudicar sempre o próximo. Era excelente que todos pensassem assim: Ter um amigo – Cultivar essa amizade! Afinal de contas, nós também somo um pouco de todos aqueles que um dia – nem que seja só por algum momento- fizeram parte da nossa vida!
Boas Festas **