Tuesday, July 15, 2008

A solidão humana

A minha querida amiga E. mandou-me há poucos dias um e-mail que trazia em anexo um trabalho que resumia em 100 slides a pessoa, a vida e a obra de Miguel Torga.
Soube-me muito bem ver o trabalho.
No e-mail propriamente dito, a minha amiga simplesmente digitou a seguinte frase, destacada por ela num dos slides, da autoria do próprio Torga:

O homem é, por desgraça, uma solidão…

Respondi-lhe assim ao e-mail:

Querida E.,
 
Lembro-me que um dia peguei num livro de Torga e comecei a lê-lo. Foi o meu primo Aníbal Pinto de Castro que mo deu, autografado. Ainda te direi um dia destes quando foi isso. O livro está em casa dos meus pais.
Hoje o meu primo Aníbal é, provavelmente, o maior dos monstros sagrados dos estudiosos da Literatura Barroca em língua portuguesa; e também do Padre António Vieira, de quem comemoramos, precisamente neste ano, o 4.º centenário do nascimento.
Agradeço-lhe repetidamente, renovadamente, aquele presente, pois logo a seguir devorei tudo o que havia para devorar de Miguel Torga.
O poema que escolhi para cobrir a campa do meu pai, que está lá como uma palavra de ternura e de confiança, que afirma a presença viva do “Velho” no pensamento e no coração de filhos e netos, é dele.
 
Concordo com a afirmação que destacas, mas prefiro-a numa formulação mais suave, ou melhor, mais “integrada”, sem expor cruamente, na sua radicalidade, o conteúdo que Torga quer afirmar.
Ouvi esta formulação há muitos anos, na televisão, dita por Diogo Freitas do Amaral, citando alguém que, desconsoladamente, eu ainda não consegui identificar. É assim: Do ponto de vista da espécie [humana], a morte é uma necessidade; mas, do ponto de vista individual, a morte é uma tragédia. Para mim, a solidão de que Torga fala é esta solidão, a que nos confronta com esta tragédia pessoal e individual; não é a solidão de estarmos deslaçados de outros, os nossos familiares e os nossos amigos. Para a solidão dessa tragédia pessoal dentro da espécie é que não fuga possível. Reforço, é uma tragédia humana, que faz parte da nossa condição humana e animal; não é uma desgraça pessoal.
 
Obrigado por este regresso rápido, “zipado”, a Torga!
 
Beijinhos do
Fernando Pinto

Posted by Fernando at 20:59:07
Comments

One Response to “A solidão humana”

  1. Anonymous says:

    Acrescentarei, a propósito - ou melhor, quase em contraponto - a frase que, todos os anos - renovando sempre o sabor e o entusiasmo com que o faço -, eu gosto de usar a abrir o capítulo, ou o módulo, da Psicologia Social
    “O homem é um ser iminentemente social. O homem capaz de viver sozinho ou isolado é um deus, ou uma besta, mas não um ser humano.”
    É uma frase velhinha dos velhinhos livros de Psicologia do ensino secundário.
    A sua autoria é atribuída a Aristóteles. Será?…
    Verdadeiramente pouco interessa. Em boa hora alguém deu esta forma escrita a um pensamento seguramente muito ruminado, já que da frase se podem deduzir variadíssimas ilações sobre a psicologia do homem e a cultura dos grupos. Para se irem pensando e discutindo, uma e outra vez…

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