“25 de Abril, sempre!” edição de 2009
Ontem participei, na Escola, na palestra que algumas colegas do Grupo de História (a Eulália Andrade, a Paula Faia e a Cristina Kirkby) organizaram para lembrar e celebrar o 25 de Abril. Essencialmente, alguns professores da Escola, desfiaram lembranças pessoais desse dia e dessa época.
No meu caso, não quis deixar de destacar a grande alegria, a paz, a tranquilidade que o dia me trouxe:
O meu pai, sargento do Exército Português, fez praticamente a guerra toda. De 1961 a 1974, os anos todos da guerra no Ultramar, raramente ele esteve estavelmente na companhia da esposa e dos filhos. Foi muito mais o tempo de estar em Angola e Moçambique em comissões militares do que na Metrópole, junto da família.
Como muitas famílias portuguesas, nós - a minha mãe, os meus irmãos e eu próprio - tivemos que nos habituar a viver permanentemente com a tensão do que se passava em África, especialmente na província ultramarina em que o 1.º-sargento Pinto se encontrava.
Lembro-me de, por volta dos 14 anos, fazer repetidamente as contas ao tempo da minha vida que tinha sido passado com pai e mãe; e irmãos. E nunca gostei do resultado dessas contas! Por mais voltas que desse, por mais pequenas ocasiões que aproveitasse, nunca consegui que fosse dominante o tempo de estarmos todos juntos!
A dedicação da minha mãe à troca de correspondência e à marcação diária das cruzinhas (uma por cada dia que passava, a reduzir o espaço branco - enorme! - dos dias que faltavam para o dia do regresso, são e salvo) era observada com discrição e alguma distância por mim e os meus irmãos. Eles - pai e mãe - sempre procuraram poupar-nos ao conhecimento de factos, de horrores vividos ou presenciados, cuja realidade os filhos deduziam apenas quando observavam a mãe sentada à escrevaninha a reagir com lágrimas - tantas vezes de aflição! - às palavras que dias antes o marido tinha decidido confidenciar-lhe ou partilhar.
Lembro-me perfeitamente que nesse dia, no 25 de Abril de 1974, a certa altura fui tomado pela certeza, indefinidamente saborosa, de que o meu pai não voltaria à guerra em África!
Os 10 de Junho, que começámos a seguir na televisão, eram, em nossa casa, dias terríveis. Quantas vezes a nossa mãe nos contagiou com a reacção que as imagens de viúvas e órfãos-crianças; de soldados estorpiados; de velhos pais, órfãos, também, dos seus próprios filhos, despertavam nela, tão forte seria a identificação que faria a esses dramas pessoais e familiares, o espectro da possibilidade de a mesma tragédia um dia poder tocar-nos na pele.
Lembro-me de um dia - creio que o único dia! - em que o meu pai foi à escola dos Quinchosos falar com o meu professor, o professor Virgílio. O orgulho e a satisfação que tive nesse dia! A causa era, outra vez e sempre, a guerra, que não deixava oportunidades para que o que aconteceu naquele dia na escola - e me deixou tão feliz - acontecesse mais vezes.
Pois é… que saborosa aquela certeza que o 25 de Abril me deu!
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