Wednesday, November 19, 2008

Carta aberta ao Professor Vital Moreira

Sr. Provedor,
A publicação, na edição do Público de ontem, dia 18 de Novembro, na secção “Espaçopúblico”, de um artigo de opinião do Professor Vital Moreira, sob o título “Uma reforma que não pode ser perdida”, na página 41, merece da minha parte, professor do ensino secundário público, um comentário que a seguir exponho e que peço seja publicado no jornal. Obrigado!

Senhor Professor Vital Moreira,

               Ainda nos anos 80, depois de ter concluído a licenciatura em Psicologia, recebi um convite irrecusável de uma universidade americana que me abria as portas de uma carreira universitária muito promissora, convite “irrecusável” que recusei.
               Levei algum tempo a decidir-me, longas conversas sobre este assunto mantive com o dr. João dos Santos, que algumas vezes me convidou a sentar-me ao seu lado, ali nos “cadeirões dos sábios”, como ele dizia, na sua casa de Sintra. Entre outras coisas, ele alertou-me: “Fernando, há oportunidades que só surgem uma vez na vida, mas cada um de nós é que tem de saber por qual optar, tentando ter claras para si todas as consequências que da escolha advirão. E são consequências pessoais, profissionais e de cidadania”. Como já disse, recusei o convite irrecusável. Educadamente, bem entendido.
               Hoje, depois de ler o seu artigo de opinião no Público, assinado (provavelmente a responsabilidade não é sua) como “Professor universitário”, rememorei o convite e as conversas com o dr. João dos Santos e senti-me a renovar a satisfação pela opção de abraçar o ensino secundário.
               Sabe, Professor, o senhor tem sido, de há muitos anos a esta parte, uma das minhas mais importantes referências políticas e de participação cívica; e não deixará certamente de o ser depois desta carta.
               Errar é humano. Vale para si e vale para mim.
               O que eu disse sobre o convite americano não me confere competência especial, nem sequer legitimidade para opinar e comentar as suas opiniões acerca do tema central do seu artigo e deste meu contraponto: o processo actual de avaliação dos professores portugueses no ensino secundário.
               Conhece certamente a já clássica afirmação de Ortega e Gasset, “Eu sou eu e a minha circunstância”. O “episódio” que comecei por apresentar pretende apenas alguma coisa dizer sobre a circunstância histórica e de desenvolvimento pessoal que me leva a escrever o que a seguir vai encontrar.
               Os tempos que correm não são de feição para os textos longos, doutrinários ou outra coisa que sejam. Querem-se (diz-se – alguém diz – que é assim que a opinião pública os quer) “concisos”, “directos”, que vão logo ao fundo das questões.
               Vou tentar fazer assim.
               E parto destas premissas: há bons e maus professores. A grande maioria, são professores bons, com vontade de fazerem cada vez melhor. E, desta maneira, não somos melhores, nem piores que qualquer outro grupo profissional.
               A primeira ideia com que fiquei do seu texto foi que se espraiava fundamentalmente em considerações ou aspectos ideológicos; mas agora já hesito se não predominarão as considerações e os aspectos puramente afectivos.
               No meu pensamento – humano, por isso, repito, sujeito ao erro -, sintetizo a sua argumentação numa simples afirmação, que imagino mentalmente quase gritada por quem histrionicamente cerra com força nas mãos uma bandeira bem levantada “- A reforma! Avante a reforma!…! Eu até direi: “- Pois… a reforma, seja… Mas… qual reforma?…” Neste aspecto penso que o seu texto é completamente omisso, ao contrário de outros artigos de opinião publicados na mesma edição do Público, como sejam os do “jornalista” (assim apresentado) José Vítor Malheiros, de Helena Matos, e de Miguel Gaspar. Daí a minha hipótese da ideologia e da afectividade. E pergunto-lhe: de que nos serve a ideologia sem substância?… Ou a afectividade?… Sinceramente custa-me imaginá-lo quase preso da irracionalidade que vocifera “É preciso não deixar que essa classe consiga ganhar!…”
               Lamento vê-lo estatelar-se nas águas lamacentas das afirmações preconceituosas que garantem (com base em que critérios que são puramente subjectivos, neste caso, os seus) que os professores não querem ser avaliados. A este propósito, permito-me enviar-lhe, em anexo, um pequeno texto de circunstância, que escrevi à pressa num dos meus blogues, seguramente incompleto, mas que seguramente também expressa o essencial da minha ideia sobre o assunto. E sobre isto não digo mais nada.
               Percorre outro caminho de consistência muito duvidosa e traiçoeira quando diz que “é mais do que compreensível que uma reforma destas não seja aceite de bom grado por uma classe profissional mal habituada a uma “carreira plana”, sem diferenciação de níveis profissionais e com progressão profissional garantida por simples antiguidade.” Professor Vital Moreira, estas palavras não podem ser suas, não acredito. Não o tenho em conta de nenhumas das seguintes alternativas: da ignorância e da irresponsabilidade que põe alguém a falar com gravidade do que não sabe; ou da má fé, por parte de quem sabe que está a dizer coisas que não correspondem à verdade.
Por palavras semelhantes, colegas meus de uma escola secundária de Viseu apresentaram já queixa em tribunal contra o sr. Primeiro ministro José Sócrates. O menos que importará agora será a condenação ou a absolvição do potencial réu. O Senhor Professor sabe bem os caminhos complexos que as verdades e as mentiras tomam nos corredores e salas de audiência dos tribunais. O que não se apagará já, nunca mais, do comportamento dos homens é a defesa da dignidade e da honra assumida por quem tem responsabilidades educativas sobre “os homens de amanhã”, que devem fazer a experiência humana e social de valores e éticas na vida dos grupos humanos em que participam.
               Não quero tomar-lhe muito mais tempo. Por isso, antes de algumas considerações finais, ó Professor Vital Moreira, quando diz que “não existe razão, salvo uma ilegítima prerrogativa ‘histórica’, para que os professores não sejam avaliados”, sabe que isso duvidosamente vai além do simples jogo de palavras. Sabe isso, não sabe?… Pergunto-lhe outra vez, se me dá licença: que substância tem essa afirmação? Escreveu assim porque estava a ironizar, não estava?
               Na minha opinião, na minha representação mental das coisas, à moda do mítico Sancho Pança, quase pragmaticamente, as reformas devem ser avaliadas como as árvores, pelos seus frutos. E que frutos produziu já esta árvore? Vejamos: abandono das escolas por parte dos professores mais velhos, com mais tempo de serviço, mais experientes. Desencantados e ofendidos. Tratados sem dignidade.
Como outros grupos profissionais, temos muitas características corporativas; e uma delas, das mais importantes, é a transmissão do saber e da experiência, pessoa a pessoa. Concorda comigo, ou não? Se concordar, será também levado a concordar que muitas escolas estão a ficar decapitadas e descapitalizadas (falamos de capital humano, naturalmente), o que empobrece o ensino. E, por favor, não caia no outro preconceito de dizer que os professores que foram embora são provavelmente os que não queriam trabalhar mais! Isso já foi dito perante as câmaras das televisões por quem verdadeiramente tem responsabilidades políticas pelo governo da Educação em Portugal! E já foi respondido bastamente. O caso da Escola Infanta D. Maria, paradigma das escolas do ensino público nos tão discutíveis rankings das escolas será exemplo suficiente. Dou aulas em Lisboa, conheço esta escola de Coimbra e já lá estive, e comigo levei alunos, para com professores e alunos de lá aproveitarmos dos seus saberes. Antes do aparecimento dos rankings.
               A sociedade portuguesa, não obstante todos os “simplexes” produzidos, continua a justificar as tiradas humoristas dos “Gato Fedorento” sobre “o papel, qual papel?…”
               Um dia, Sebastião da Gama respondeu a alguém que lhe perguntava se tinha muito que ensinar: “Não, tenho muito que amar”. Hoje muito dificilmente os professores têm tempo para ensinar, mais dificilmente para amar; porque a exigência é de que se escrevam ou preencham formalidades. E o Professor sabe que uma “ficha” (no governo da Educação deste País é a palavra que se ouve mais; a outra a seguir é “aligeirar”. E de tanto se aligeirar torna-se quase humilhante o nível de exigência a que se chega, acredite!, é um professor do Secundário que lho diz agora! O que torna indigna a avaliação… o modelo… a reforma. E contra essa reforma inconsistente os professores também se opõem) que se escreve sobre um aluno, sobre muitos alunos, por mais pequena que seja, não se escreve assim num repente com dois rabiscos, se se quer agir com sentido de responsabilidade e com objectivo de eficácia útil para o(s) aluno(s) em questão.
               Argumentará que padeço do mesmo mal que o acuso: a ideologia ou a afectividade. Será?… O senhor ajuizará de mim como eu tive a liberdade de o fazer em relação a si.
               Miguel Torga dizia que para educar é preciso ter as mãos purificadas. Será que vivemos tempos em que se torna ridículo assim falar, tal como no admirável mundo novo de Aldous Huxley se tornou ridículo dizer-se que se tinha nascido por parto natural?
               Acredite que tenho necessidade de ouvi-lo com a objectividade, a imparcialidade (não obstante os escolhos inerentes a este conceito; bom como em relação aos outros, afinal) e a “meta”-reflexão a que aos poucos me habituou. É verdade, pôs-me esse “vício” no corpo. Precisamos de pessoas assim, que nos esclareçam. Faça-me acreditar que este seu texto é um pesadelo que a noite trouxe, mas que a manhã, quando chegar, vai dissipar.
       Voltando a Sebastião da Gama – cujo Diário considero um fabuloso manual de verdadeira pedagogia, sempre actual, porque prodigaliza o húmus da fundamental relação pedagógica entre o professor e a turma; e infelizmente completamente esquecido (se calhar nunca o leram!…) por muitos dos nossos responsáveis educativos -, ele escreve a certa altura: “Ser PROFESSOR É DAR-SE… e lembrei-me então do Amaro e de que era tão bom que não fosse apenas o professor a dar-se…”
       E acabo com palavras do Padre António Vieira, de quem ainda estamos a comemorar os 400 anos do seu nascimento: “Para ensinar sempre é necessário amar e saber; porque quem não ama não quer; e quem não sabe não pode; mas esta necessidade de sabedoria e amor não é sempre com a mesma igualdade. Para ensinar nações fiéis e políticas é necessário maior sabedoria que amor; para ensinar nações bárbaras e incultas é necessário maior amor que sabedoria.”

Fernando Pinto, professor do ensino secundário, na Escola Secundária Eça de Queirós, em Lisboa

ANEXO:
A avaliação e os professores - 1: Porque é que se desconfia dos professores sempre que eles falam em avaliação?
Indo direito ao assunto: desconfia-se dos professores porque ninguém gosta de ser avaliado. O que quer dizer que quando alguém, da “opinião pública”, ouve os professores a dizerem que não contestam a avaliação, o que contestam é este modelo de avaliação, pois esse “alguém” pensa logo que os professores estão a mentir, porque, na verdade, o que eles querem é não serem avaliados! E isto é verdade!… Só que, como diria Marcelo Rebelo de Sousa parodiado pelo Ricardo Araújo Pereira, “É verdade, mas isto não é bem verdade…”
Vou tentar explicar.
Ninguém gosta de ser avaliado. Ponto. Só gosta de ser avaliado quem gosta e precisa de receber um elogio e acredita que merece e vai recebê-lo.
O ser humano, enquanto tal, e qualquer ser - humano e não humano - não existe para ser avaliado. Qualquer ser existe para agir, para fazer coisas, uma após a outra e, em função dos resultados que obtém, volta a fazer igual, ou faz diferente. Ora, isto, se tem alguma coisa de avaliação, é de “auto”-avaliação, não é de “hetero”-avaliação.
O ser (humano ou não) quando avalia não é para penalizar, é para melhorar, é para “afinar a pontaria”.
O problema da avaliação, hoje em dia, em geral - e, se calhar, nas sociedades humanas cheias de superegos - é que é sempre penalizadora.
A natureza quando põe a leoa a falhar a vitória sobre a presa - essencial para alimentar os seus filhotes - não castiga a leoa (já é “castigo” suficiente ela ficar sem o alimento), mas obriga-a, só pela simples falha do seu labor, a ser melhor da vez seguinte.
Sejamos claros, a natureza hedonista do ser humano não aprecia a avaliação: nem a natureza humana dos professores, nem a natureza humana dos que dizem que os professores (quando dizem que não recusam a avaliação, mas apenas este modelo de avaliação) o que na verdade querem é não serem avaliados.
E porquê? Porque nas nossas cabeças, na nossa tradição judaico-cristã (pelo menos nesta), a avaliação é sempre penalizadora. A avaliação tem sempre a ver com o castigo do pecado.
O reconhecimento da necessidade da avaliação é, sem rodeios e para simplificar o assunto, do domínio da ética. Por isso todos dizemos que a avaliação é uma necessidade… mas todos detestamos a avaliação… Esclareça-se: a nossa avaliação… feita pelos outros.
Fundamentalmente, o que é a avaliação? A avaliação é isto: é alguém que chega ao pé de nós e nos diz: “Ora muito bem, aqui estou eu, que tenho mais poder do que tu (note-se, poder; não competência), e venho ver se tu estás a fazer bem o que devias fazer bem; e, eu, que tenho o poder que tu não tens,  se achar que tu não estás a fazer bem, pois vou ter de dizer a quem tem mais poder do que eu, que tu não estás a fazer exactamente como deverias.”
Eu poderia discorrer sobre outras implicações desta perspectiva, de segunda e terceira ordem, até sobre a avaliação que recai sobre quem avalia, mas não me quero desviar do essencial e por isso não o vou fazer… agora! Talvez noutro apontamento, noutro dia.
Quem é que gosta de ter na sua frente alguém com poder para dizer que não está a fazer bem o que devia estar a fazer bem e assim ficar sujeito a uma qualquer forma de castigo?… Ninguém!
As pessoas da “opinião pública” não gostam da avaliação e sabem que os professores também não gostam, porque têm a mesma natureza hedonista que os da “opinião pública”! E todos “suportam” a mesma ética.

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Sunday, November 2, 2008

Direito a ter opinião, mesmo que uns mais do que outros

A edição do dia 31 de Outubro do Correio da Manhã, na sexta-feira passada, trazia, na última página uma pequena notícia, que dizia assim:

“Sousa Tavares - Direito a ter opinião: Miguel Sousa Tavares repudiou ontem as ameaças de agressão dos estivadores do porto de Lisboa e defendeu “o direito a ter opinião” e a poder “passear livremente no espaço público”.
Concordo inteiramente com Miguel Sousa Tavares.
E mais! Gostaria de ter as mesmas oportunidades que ele tem de poder expressar as suas opiniões pessoais nas televisões, nos jornais e nas rádios.
E mais! Gostaria que o cidadão português, em geral, tivesse as mesmas oportunidades que ele tem de expressar as suas opiniões pesoais nas televisões, nos jornais e nas rádios.
A ele - tanto quanto sei - até pagam (condição pessoal e profissional perfeitamente legítima… o que vem depois é a ética, essa coisa que deveria valer alguma… coisa) para que ele expresse opiniões pessoais em alguns meios de comunicação social, como, por exemplo, quando ele foi ao telejornal principal da noite da TVI dar a sua opinião sobre a formação dos professores que envolve o já célebre computador “Magalhães” e os professores filmados a cantá-lo. Até me pareceu ouvi-lo dizer que nunca, a não ser talvez uma vez, excepcionalmente, tinha feito formação!… Mas ele ali estava, a emitir a sua opinião pessoal.
É verdade, todos temos direito a ter opinião pessoal sobre tudo. Absolutamente de acordo, dr. Miguel Sousa Tavares. Só que, na hora de influenciar consciências, parece que é como naquele caso dos iguais de George Orwell, uns têm mais direito do que outros.
Já agora, no caso dos terminais de contentores de Alcântara, quem é que teve a mesma oportunidade do dr. Miguel Sousa Tavares para expressar opiniões pessoais e mobilizar meios de comunicação social para expressá-las? Por exemplo, os estivadores, que legitimamente defendem os seus interesses, tiveram?…
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Saturday, September 27, 2008

O Paul Newman de Raúl Iturra morreu no mesmo dia em que eu reencontrei velhos amigos da EICA

Saí hoje para Abrantes, para um almoço de antigos alunos e professores da escola onde fiz o ensino preparatório e também o secundário.

Dos meus colegas de turma, apenas encontrei o Rui Coutinho, primeiro, e depois o António Neto. Claro que nos sentámos à mesma mesa e desfiámos lembranças de episódios que tivemos juntos na escola, perguntámos por colegas e professores. Pouco ou nada falámos de nós, agora, carecas ou de bigodes brancos. Dos tempos de agora, praticamente só falámos da caça do Rui e do Neto, entretenimento que descobrimos terem em comum, o Neto apresentando-se como caçador mais maduro (ou mais mentiroso, como se deve pensar sempre dos caçadores).

De volta a Lisboa, na viagem, revisitei o nosso encontro no extenso almoço, puxei ao pensamento as imagens que trouxemos uns aos outros. Afinal, imagens de gentes e acontecimentos que moldaram fortemente a pessoa que hoje sou.

Senti saudades dos cabelos loiros e encaracolados do Neto! O seu desaparecimento simbolizava, no instante em que o consciencializei, o irremediável da juventude que se perdeu para sempre. Mas senti que se poderia recuperar quase integralmente o “velho” Rui, assim a gente consiga fazer qualquer coisa com a grande barriga sedentária que ele deixou que o envolvesse. Quer dizer, simbolicamente também, afinal, de tudo o que se perdeu, coisas há que ainda se podem recuperar. E que terão eles pensado de mim?…

Cheguei a casa e, quando pude, fui ver o que tinha na minha caixa de correio electrónico. Lá estava um pequeno texto de Raúl Iturra, de homenagem a Paul Newman, que morreu hoje. Só por este texto o soube. Porque o Raúl o quis partilhar comigo.

Raúl Iturra fala dos personagens a que Newman deu corpo. Que marcaram… que o marcaram… que moldaram… que o moldaram… que simbolizaram e fixaram, pela própria ficção, comportamentos, gestos e pensamentos humanos.

Comparei os personagens de Iturra com os personagens (os meus antigos colegas de escola, e os professores) que desfilaram nos “filmes” que vi em retrospectiva quando voltava para Lisboa. O pequeno texto, escrito em inglês, se calhar, para que o próprio Paul Newman mais facilmente os possa ler e entender, fez-me tomar consciência da força que os personagens têm na formação das pessoas em que nos tornamos: se são reais (como os meus colegas de hoje), com eles construímos ficção que nos guia ou nos apazigua – ou que interrogamos; se são de ficção (como os homens virtuais de Newman), facilmente os deslocamos para as nossas realidades e os tornamos partes vitais das acções e dos comportamentos em que nos envolvemos.

Soube-me muito bem estar com os meus colegas de há mais de trinta anos atrás, trinta e muitos. Também por esse reencontro de hoje li as palavras de Raúl Iturra com um outro espírito e provavelmente com um entendimento mais autêntico do que ele escreveu sobre Paul Newman, o homem, o actor, os personagens.

É com a autorização e a gentileza do cidadão do Mundo, Raúl de seu nome, que aqui transcrevo integralmente o seu texto de homenagem a Paul Newman, com a sinceridade única do que é dito a quente, de coração aberto.

Paul Newman has passed away. Sad. However, no one can bring eternity into this earthly world. To my relief, he is not suffering anymore, either himself, extremely nice and faithful wife Joanne Woodward, as good as an actress as Newman was, descendents and friends. And the large mob of admirers he had all over the world. Friendly, serene, happy, friend of the poor. He is Exodus, he is Butch Cassidy, he is the writer, he is all the plays he performed, above all, he is Brick, he is Professor Michael Armstrong, he is Chance Wayne, as he is the sweet birth of youth. Paul Newman is force by his brilliant career, to live eternally as Hud Bannon and, above all, the father who knows how to teach as Eddie Felson. No need to cry, he lives in his pure soul and in the soul and feelings of Joanne Woodward. We, Portuguese, revere, respect, mirror on him.

Prof. Dr. Raúl Iturra

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Tuesday, July 15, 2008

A condição humana, outra vez

Ainda a propósito da condição humana, lembrei-me de um diálogo do filme Tróia.
A certa altura, Aquiles resgata Briseia das mãos animalescas, obscenas e famintas, dos soldados que a tinham à sua guarda, entregue por Agamémnon.
No diálogo que acabam por travar dentro da tenda, Aquiles fá-la ouvinte de um pensamento que, mais uma vez, vale por si próprio, independentemente da sua ligação a qualquer verdade histórica. Seguramente, é um pensamento que foi elaborado na mente de um homem (no sentido mais geral do termo), posto em palavras e algures passado a escrito:

Disse, então, Aquiles para Briseia:
- I’ll tell you a secret. Something they don’t teach you in your temple. The Gods envy us. They envy us because we’re mortal, because any moment might be our last. Everything is more beautiful because we’re doomed. You will never be lovelier than you are now. We will never be here again.

[Vou dizer-te um segredo. Uma coisa que de certeza não te ensinaram no templo. Os Deuses têm inveja de nós. Os Deuses invejam-nos porque somos mortais, porque cada momento pode ser o nosso último momento. Tudo se torna mais fascinante e precioso porque estamos condenados. Nunca mais serás bela e atraente do que és agora. Não voltaremos nunca mais a encontrar-nos juntos como estamos agora aqui.]

Não foi a única vez que Aquiles falou da inveja dos Deuses em relação aos homens…

Esta essência afectiva vital, nenhum deus alguma vez será capaz de a experimentar. Por isso, o sabor da experiência humana é elevada a um patamar acima do de quem imortalmente nos governa. Pagamos com a morte a intensidade dessa experiência única.

Por isso, eu direi: mais que temer a solidão da condição humana, saibamos fruí-la. Acredito que Miguel Torga sabia desta essência da condição humana. Ele era poeta, visitador frequente dos personagens do Olimpo.

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A solidão humana

A minha querida amiga E. mandou-me há poucos dias um e-mail que trazia em anexo um trabalho que resumia em 100 slides a pessoa, a vida e a obra de Miguel Torga.
Soube-me muito bem ver o trabalho.
No e-mail propriamente dito, a minha amiga simplesmente digitou a seguinte frase, destacada por ela num dos slides, da autoria do próprio Torga:

O homem é, por desgraça, uma solidão…

Respondi-lhe assim ao e-mail:

Querida E.,
 
Lembro-me que um dia peguei num livro de Torga e comecei a lê-lo. Foi o meu primo Aníbal Pinto de Castro que mo deu, autografado. Ainda te direi um dia destes quando foi isso. O livro está em casa dos meus pais.
Hoje o meu primo Aníbal é, provavelmente, o maior dos monstros sagrados dos estudiosos da Literatura Barroca em língua portuguesa; e também do Padre António Vieira, de quem comemoramos, precisamente neste ano, o 4.º centenário do nascimento.
Agradeço-lhe repetidamente, renovadamente, aquele presente, pois logo a seguir devorei tudo o que havia para devorar de Miguel Torga.
O poema que escolhi para cobrir a campa do meu pai, que está lá como uma palavra de ternura e de confiança, que afirma a presença viva do “Velho” no pensamento e no coração de filhos e netos, é dele.
 
Concordo com a afirmação que destacas, mas prefiro-a numa formulação mais suave, ou melhor, mais “integrada”, sem expor cruamente, na sua radicalidade, o conteúdo que Torga quer afirmar.
Ouvi esta formulação há muitos anos, na televisão, dita por Diogo Freitas do Amaral, citando alguém que, desconsoladamente, eu ainda não consegui identificar. É assim: Do ponto de vista da espécie [humana], a morte é uma necessidade; mas, do ponto de vista individual, a morte é uma tragédia. Para mim, a solidão de que Torga fala é esta solidão, a que nos confronta com esta tragédia pessoal e individual; não é a solidão de estarmos deslaçados de outros, os nossos familiares e os nossos amigos. Para a solidão dessa tragédia pessoal dentro da espécie é que não fuga possível. Reforço, é uma tragédia humana, que faz parte da nossa condição humana e animal; não é uma desgraça pessoal.
 
Obrigado por este regresso rápido, “zipado”, a Torga!
 
Beijinhos do
Fernando Pinto

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Thursday, July 10, 2008

Até Setembro!…

Vou aproveitar o abrandamento no ritmo e na intensidade de trabalho na escola (Cheira a férias!…) para me dedicar, praticamente em exclusividade, à minha valorização profissional e académica.
Assim, tirando uma ou outra vez, muito excepcional, se ocasiões para isso houver - e que não comprometam muito tempo, vosso e meu -, só aqui voltarei no início de Setembro, e desse regresso darei conta através de e-mail.
Se até lá, até Setembro, aqui escrever alguma coisa, também por e-mail anunciarei a publicação.
Entretanto, em qualquer altura poderei ser contactado pelo e-mail habitual.
Inté!…
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Monday, June 16, 2008

O jovem e a espingarda - 2.º capítulo

Desde ontem à noite que as televisãoes portuguesas e as edições on line dos jornais publicam notícias sobre um “incidente/acidente”, algures, no norte do País.
Nem de propósito, depois do que aqui escrevi no passado dia 13.
Deixo aqui uma das notícias publicadas:

16 Junho 2008 - 08h12

Porto

Rapaz baleado em estado crítico

O jovem de 15 anos baleado ontem no bairro social do Bom Pastor, no Porto, que deu entrada no Hospital São João com uma bala alojada na cabeça, continua em estado crítico e “não está livre de perigo”, indicou uma fonte hospitalar esta segunda-feira.

O rapaz, que deu entrada na unidade de saúde por volta das 17h00 de domingo, “não está livre de perigo, continua ventilado e não prevêem alterações nas próximas horas”, precisou a mesma fonte.

Baleado quando um amigo manuseava uma pistola, a vítima deu entrada no Hospital São João sozinha e sem qualquer identificação, pelo que na sua ficha médica não consta o seu nome ou idade, explicou uma fonte hospitalar, acrescentando que a unidade de saúde não sabe quem contactar.

O incidente ocorreu ontem, pelas 16h00, no bloco 4 do Bairro do Bom Pastor, quando o rapaz, morador noutra zona, foi atingido, alegadamente por um disparo acidental, por um amigo da mesma idade que manuseava uma arma de fogo. Contudo, a Polícia Judiciária (PJ) do Porto não descarta a possibilidade de o disparo ter sido intencional, devido aos conflitos que têm sido registados no bairro com jovens de outra zona.


(Esta notícia vem na edição on line do Correio da Manhã, do dia de hoje)

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Friday, June 13, 2008

O jovem e a espingarda

Em dia de sol bem intenso, de que incómodos de má memória me obrigam agora a sempre evitar, aproveitei a folga da tarde de Santo António, logo a seguir ao almoço, vesti a pele de toupeira e lá fui, caminhando por debaixo do chão, às livrarias da Baixa lisboeta, na cíclica revisão de novidades ou reedições. Seria uma horita ou duas antes do trabalho que me esperava à secretária.

Por volta das 4 da tarde, meti-me outra vez debaixo do chão e tomei o caminho de volta para casa. Como de costume, encostei-me a um canto da carruagem do Metro, protegido de fazer incómodos e de ser incomodado e puxei dum livro.

Aquela visão periférica, habitualmente recebendo a ajuda da audição do mesmo tipo, e que, em conjunto, se apercebem e lidam com as coisas e os vultos que giram à nossa volta, enquanto a atenção principal se ocupa com outra coisa (no meu caso, a leitura), deu-se conta da aproximação de um corpo, que ficou ali bem próximo do meu, e provocou um pequeno reajustamento da posição em que eu me encontrava. Coisa praticamente automática, de maneira a conservar-me na leitura, e que só a rememoração esforçada posterior permitiu refazer, com nítida ênfase, em toda a sequência da aproximação do vulto.

Ele - o vulto - tem um telemóvel na mão e parece estar a enviar uma mensagem, pela forma como o telemóvel está  segurado na mão direita e o polegar percorre os botões. A escrita da mensagem é interrompida pelo som de um “toque polifónico”, que instantaneamente me prende a atenção. O toque trouxe-me novidade. Já voltava eu a fixara minha atenção na página que lia naquele momento, quando o volume de voz do meu vizinho se tornou bastante audível. Quer dizer, demasiadamente audível, tendo em conta o volume de voz que uma conversa privada deve ter, seja em respeito pelos próprios participantes na conversa, seja em consideração a quem está por perto e não tem nada a ver com ela.

Percebi, então, muito claramente o meu vizinho mais próximo naquela carruagem do Metro (que tem sempre tanto para contar!…)  dizer para o ouvinte do outra ponta daquela comunicação que guardasse bem a espingarda, que a levassem de onde ele a tinha deixado, que a levassem para um dos quartos, por causa das crianças, que elas poderiam fazer “judiarias” com a espingarda. E juntou alguns pormenores. Pasmei!…

Eu ainda não tinha olhado o meu vizinho, mas o timbre da sua voz fazia-me pensar num jovem de grande verdura de idade. Comecei por fixar, com muito cuidado, lateralmente, olhando pelo canto do olho, as mãos que seguravam o telemóvel depois da breve conversa, e que tinham retomado a escrita da mensagem interrompida. Depois, com o cuidado necessário para que o jovem, que assim tão perto de mim estava, não se desse conta de que eu o olhava, fui subindo pela t-shirt de vermelho benfiquista e encontrei um rosto de rapaz totalmente concentrado agora na sua mensagem e no seu telemóvel.

Era um rosto a que poderíamos legitimamente atribuir já 14 anos de vivências humanas e, seguramente também, pensar que as vivências dos 16 ainda não poderiam ser nele espelhadas.

Um jovem… uma espingarda… as judiarias das crianças… um jovem que aparentemente largou em casa uma espingarda como uma criança larga um brinquedo, ali em qualquer lado!… Um “puto” de meio pêlo de rosto, imberbe - ainda sem acne, sequer - a ligar para casa, com aquela naturalidade toda, a dar o recado de que guardassem a espingarda que ele por ali deixara espalhada, não fossem as (outras) crianças pegarem nela e fazerem judiarias!…

A comunicação telefónica não foi lançada por iniciativa do rapaz que estava ali junto de mim, ele apenas reagiu ao toque polifónico que me chamou a atenção e, depois de olhar o visor (provavelmente para identificar quem o solicitava), aceitou a chamada. Mas foi ele que praticamente manteve a iniciativa durante toda a comunicação. Era ele que dava instruções e descrevia pormenores que certamente serviriam para que as instruções fossem mais facilmente cumpridas. Como se a primeira fala de que com ele entrou em contacto lhe tivesse dito qualquer coisa do género: “Ouve lá, sabes como é que deixaste as coisas cá em casa?…”, ou “Ó rapazinho, não te esqueceste de fazer nada antes de sair?…”

A espingarda era a sério, a conversa que toda a carruagem pode ouvir não deixava margem para dúvidas.

Ou, afinal, seria teatralização de “puto reguila” para impressionar a plateia ali em trânsito? Teatralização de puto que gosta de se entreter com estas coisas assim… Antes fosse, que bem mais coadunaria com a idade… Eu é que ainda quero acreditar em contos de fadas!…

Há qualquer coisa de absurdo nesta situação, não é?… Um “puto” que brinca com uma espingarda, que a larga como as crianças largam os brinquedos; e depois avisa que se tenha atenção às “judiarias” das crianças que podem querer brincar com a espingarda. E ainda alguém, que a gente não vê, não sabe quem é, presume que seja um “crescido” e que parece,  não obstante o que diga ao puto do lado de cá da comunicação telefónica, aceitante da realidade de que não é uma judiaria um rapaz de 14 anos ter à sua disposição uma espingarda verdadeira!… Supostamente, para brincar…

Bem… eu – pelo menos, eu – pasmei.

Curiosamente, o assunto que estava a ler precisamente naquele momento prendia-se com o “choque das civilizações”, as armas e os assassinatos reais e virtuais, a dificuldade cada vez maior de manter os pés bem assentes em realidades consolidadamente concretas e o peso avassalador da emergência dos factos e das realidades virtuais na realidade concretas das coisas.

Pronto. Pasmei… é verdade, pasmei…

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Friday, April 25, 2008

Uma pergunta ao Senhor Presidente da República

Senhor Presidente da República,
Apreciei verdadeiramente a força e a clareza do seu discurso na Assembleia da República, hoje, comemorativo do 25 de Abril.
Como sabe, sou professor. Tenho responsabilidades especiais na formação cívica e política dos jovens alunos das nossas escolas, que agora são portugueses e cada vez mais não portugueses.

Pergunto-lhe, também claramente:
- Como quer que eu mostre aos jovens que a reflexão, a pedagogia, a formação que disse serem de importância fundamental, em que estão em causa valores de respeito pelas instituições que executam e simbolizam a vivência democrática fundamental, recolhe um bom exemplo no recente episódio do “bando de loucos” na Madeira e no comportamento consequente que o Senhor Presidente a todos nos mostrou? Crê sinceramente que recebemos de si um bom exemplo?
- Se um dos jovens com quem pretende vir a reunir lhe pedir para explicar o seu comportamento na Madeira, depois das declarações de Alberto João Jardim, o que lhe dirá?

Posted by Fernando at 12:36:13 | Permalink | No Comments »

25 de Abril sempre!

Quando finalmente eu quis saber
Se inda vale a pena tanto q’rer
Eu olhei p’ra ti
E então eu entendi
É um lindo sonho p’ra viver
Quando toda a gente assim quiser

Lamento que os anos a passarem uns sobre os outros nos tenham afastado, a todos nós portugueses, do 25 de Abril festivo, cada novo ano confirmando que valeu a pena.
Pela minha parte, continuo convictamente - com muita força, mesmo – a responder a responder a Fernando Pessoa que sim senhor, valeu a pena; que sempre que Abril aqui passar aqui estarei para o ajudar.
Os versos que comecei por escrever são de José Mário Branco. Escritos há pelo menos 25 anos.
Hoje, enquanto aquecia o café da manhã, fui à estante, peguei no cêdê e ouvi todo o tema, “Eu vim de longe, eu vou p’ra longe (“chulinha”). Do álbum “Ser solidário”. É a minha sugestão de hoje.

Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de Maio começou
Eu olhei p’ra ti
E então eu entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe, de muito longe
O que eu andei p’ra aqui chegar
Eu vou p’ra longe, p’ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p’ra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos que cantei
Foram frutos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

(refrão)

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei p’ra ti
E então eu entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi p’ra esta força que apontou

(refrão)

E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções

(refrão)

Quando eu finalmente eu quis saber
Se inda vale a pena tanto crer
Eu olhei p’ra ti
E então eu entendi
É um lindo sonho p’ra viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

(refrão)

E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
E os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

(refrão, final)

E se as palavras que mais soarem nos nossos ouvidos forem dor, medo e raiva, peguemos nos buracos que o tempo foi roendo no grande manto da alegria e da paixão de que o poema também fala e façamos o seu remendo outra vez com as sementes das grandes utopias sociais.
No mesmo álbum, José Mário Branco repete a “Queixa das almas jovens censuradas”, de Natália Correia. Vale a pena voltar a ouvir também este tema. Não resultou de um simples exercício literário, mas de uma realidade política e social que é preciso não deixar voltar, mesmo que disfarçada por todas as habilidades que as realidades virtuais de hoje em dia são capazes. A capacidade de manipulação dos grupos e das gentes é hoje mais forte do que nunca!

 Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
conosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombros
omos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Posted by Fernando at 08:01:14 | Permalink | No Comments »