Tuesday, May 9, 2006

A menina com mãos de fada

Entreguei hoje na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Lisboa um texto que é o esboço de uma coisa que, se tudo correr bem, daqui a algum tempo assumirá o aspecto de uma tese de mestrado em Ciências da Educação. No documento que entreguei à Professora Ana Margarida Veiga Simão, a dedicatória que abrirá a futura tese é apresentada numa forma que já não deverá sofrer alterações até ao final.

Diz assim:

Um dia, há muitos anos,
uma menina estava na sala de aula a trabalhar e teve sede.
Pediu à professora que a deixasse ir beber água,
mas a professora, que constantemente censurava a menina
pelo seu fraco trabalho escolar, não deixou.
Outra menina, sua colega, concentrada no seu trabalho, levantou a cabeça
e deu atenção ao que se estava a passar.
Era uma aluna com muito melhor aproveitamento que a outra aluna.
Pouco depois, disse à professora que estava aflita
e pediu à professora que a deixasse ir lá fora fazer xixi.
Quando a menina voltou,
aflitivamente, tropegamente,
tentava conservar na concha das suas mãozitas,
umas gotas de água
que queria dar a beber à colega que tinha sede.
Essa menina, de mãos de fada,
que, naquele gesto, mostrou saber intuir
o mais profundo valor que a escola deve fazer existir,
é minha irmã.
A ela dedico este trabalho.

Posted by Fernando at 22:58:34 | Permalink | Comments (3)

Monday, May 1, 2006

Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Quem lê um conto acrescenta-lhe outro conto - parte II

Tenho recebido alguns comentários elogiosos e votos de felicitações pela criação deste blogue e o pouco que ele contém. Alguns telefonemas, umas mensagens de telemóvel, 3 ou 4 e-mails e algumas palmadas nas costas. Honra seja feita ao comentário do amigo Rodrigo. Todos eu agradeço, a todos eu agradeço. Todos me dão muita satisfação e prazer.

Mas o fito é outro: é, como denuncio na titulação deste apontamento, que cada conto traga novo conto.

A história que contei do Pedro (que se trata, evidentemente, de um nome fictício; trata-se de uma condição humana e clínica bem diferente da protagonizada pelo Fernando da história anterior), fi-lo com a ideia de mostrar que, de facto, esta coisa da escrita não é tão simples quanto isso. Mas vale a pena!

Como mostra a história do Pedro, a palavra especialmente ligada à emoção exige esforço pessoal para ser exposta, tanto mais, publicamente exposta.

Exprimir emoções não é fácil, as emoções fortes tendem a ser avassaladoras. São trágicas as emoções desbragadas, o seu conforto é difícil, consomem energias e recursos que poderiam, em alternativa, estar ao serviço de funções ou actividades reparadoras e reconstrutoras.

Entretanto, por seu lado, a palavra escrita, o texto, reclama rigor e boa forma, sendo, por isso, exigente. Além disso, a palavra escrita compromente quem a escreve. Mas pode ser tão bonita!

Vejam como o Pedro pegou nas emoções e nas palavras e foi capaz de partilhar coisas tão intensas e delicadas, sem perder o norte, sem perder a compostura. Vejam como, desde o pequeno nada da colega do Estaline atá ao trauma longínquo do Pedro, a gama de coisas e de histórias que podem ser contadas é tanta e variada.

Gosto muito que me digam que o que escrevi está bonito, mas o verdadeiro convite, o verdadeiro desafio, é que façam de um comentário um conto.

Há alguns anos atrás, nos Açores, vi os meus três sobrinhos açorianos, em casa deles, de olhos vidrados na televisão. Todos os três crianças pequenas. A minha mãe estava sentada no sofá, por detrás deles, e atirou assim para o ar: “Vou contar uma história!… Quem quer ouvir?…” Quase de um pulo só, os netos largaram a televisão e anicharam-se junto da avó. “Ora bem, era uma vez…”

Posted by Fernando at 15:30:57 | Permalink | Comments (1) »