Há alguns anos atrás trabalhei como psicólogo “residente” numa escola de ensino especial, da região de Lisboa, e que funcionava em regime de semi-internato. Entre outras tarefas que desempenhava, fazia psicoterapia de orientação dinâmica a algumas das crianças e jovens da instituição, em condições que, independentemente da boa vontade de quem dirigia a instituição, eram de autêntico trabalho num trapézio sem rede.
Um dos jovens era um rapazinho órfão de pai, que se tinha atrasado muito na escola, mas que tinha bons recursos intelectuais para ser bem sucedido na escola. Só que a vida foi-o enchendo de nós terríveis de deslassar e tornara-lhe hercúlea a tarefa de meter a vida e o seu desenvolvimento pessoal nos eixos.
Lembro-me que eu ia buscá-lo à sala de aula, no dia da semana e na hora sempre marcada, ele depois caminhava pressuroso à minha frente, parava à porta do meu gabinete e esperava que eu o abrisse. Sentava-se na cadeira habitual e eu imediatamente constatava que a pressa tinha ficado do lado de fora da porta. Pouco falava, mas, aos poucos, compreendi que o silêncio o protegia do avassalamento de coisas e energias internas.
Naquele dia, entretanto, os movimentos eram ainda mais lentos, mais contidos. A expressão do rosto estava carregada de sério. Estava sentado, debruçado sobre a mesa e parecia olhá-la hipnotizado. Tinha as pernas afastadas e pousava cada mão em cada joelho. Despegou as mãos dos joelhos e passou-as por cima da mesa, à sua frente, descrevendo, por 2 ou 3 vezes, movimentos em arco, do centro para os bordos da mesa, afagando com as palmas das mãos a madeira macia e baça, os braços esticados em toda a sua extensão e o corpo a acompanhar em movimentos quase embalatórios, mesmo que discretos. Fazia como quem prepara um dorso que vai ser massajado, ou prepara um tampo de padaria em que se vai amassar o pão.
O espaço mágico da expressão transaccional, como diria D. Winnicott. A expressão da antecipação e da preparação de um comportamento auto-regulado de grande intensidade afectiva e emocional, diriam os meus Mestres de hoje.
Não olhava para mim, não trocámos quaisquer palavras, tudo era pura expressão dele. Levantou-se e foi buscar a caixinha das letras de feltro. Abriu-a na tal zona mágica da mesa, tirou o tabuleiro onde os feltros colavam, e, segurando-o na mão direita, empurrou suavemente a caixa com as letras para o seu lado esquerdo. Com ambas as mãos tocou as letras dento da caixinha, com a delicadeza e o respeito de quem toca pedaços do sagrado. Cuidadosamente procurou e tirou três letras da caixa, que pôs do lado direito do pequeno tabuleiro verde dos feltros. Lentamente, formou a palavra “pai”. Nessa altura consciencializei que esse dia era precisamente o Dia do Pai. Redobrei a minha atenção e fui sensível ao aumento de tensão daquele momento. Sempre silenciosamente, e com gestos respeitosos de oração, o Pedro prosseguiu e concluiu a sua obra. O brilho da humidade nas palmas das mãos, que por vezes eu conseguia vislumbrar, denunciava a intensidade das emoções com que o pequeno Pedro lidava. Quando acabou, calcou suavemente com as pontas dos dedos as letras alinhadas na “forma” verde, e voltou o tabuleiro para mim. Só nesta altura me olhou. “Já está…”, disse ele. Olhou o tabuleiro, pareceu que leu outra vez o que tinha escrito, mesmo que em posição invertida. Chegou-se para trás, deixou as suas costas descansarem no encosto da cadeira e respirou fundo, como quem se desprende de qualquer coisa intensa que chegou ao fim. Olhou outra vez para mim e esperou.
Olhei para o tabuleiro e li em voz alta o que estava lá escrito: “Pai, hoje é o teu dia. Parabéns.” Olhei para ele e ele olhava para mim, sério. “Estou a imaginar que o pai quando lesse esta mensagem do filho ia dizer, Obrigado, meu filho! Fico muito contente por te teres lembrado de mim hoje… E então, tu?… Estás bem?…” Ele pegou imediatamente na deixa de fracção de segundo que lhe concedi, parecia mesmo que a aguardava, e respondeu: “Sim, pai, estou…” E, ao meu olhar, ele retribuiu finalmente com um sorriso.
Com a precisão famosa dos relógios suíços ele viu chegado o fim da hora mágica de 50 minutos. Pegou nos feltros e arrumou tudo na prateleira. Notei nele cansaço, mas a tensão desaparecera e o olhar mostrava serenidade. Precisamente um ano depois, no mesmo Dia do Pai, iremos os dois ao cemitério colocar na campa do pai um poema que ele fará 2 ou 3 dias antes e que é, ainda hoje, um dos mais belos poemas que eu alguma vez já li. Mas esta será história de outro conto, noutro dia.
A razão desta história é, por agora, o apontamento seguinte.