Tinha acabado de acelerar o passo, logo após deixar o Rodrigo à espera de um táxi, quando olhei em frente e vejo o rapaz largar a mão da namorada, abrir bem os braços e alterar ligeiramente o rumo, de maneira a vir bem ao encontro de mim.
Eu estava de mochila às costas e com o livro sobre Veneza na mão esquerda. À pressa tentei desembaraçar-me dele, para corresponder àquele gesto franco e amistoso, mas sem sucesso. Sem outro remédio, abri os braços em espelho, com o livro pendurado lá na ponta dos dedos…
Não me surpreendi de o ver ali, afinal, estávamos perto de casa dele. Calhou eu ter ido almoçar à Tasca do Zé Russo com o Rodrigo, o Zeca Barroso e uma família romena acabadinha de chegar do seu país. Saíramos do restaurante momentos antes e, como já disse, eu acabara de estugar o passo para fugir, tão depressa quanto possível, do sol escaldante da hora do almoço. E, demais a mais, eu estava sem cremes protectores nenhuns sobre a pele…
Depois do abraço, forcei que nos desviássemos um bocadinho para a esquerda, de maneira a cair numa zona de sombra.
Fiquei naquela expectativa habitual dos momentos em que se dá a iniciativa ao outro para que nos apresente a terceira pessoa. Rapidamente percebi que o Pedro não me iria apresentar a sua dama. Ele descuidara isso, afinal, ele queria falar logo de outras coisas. Mas eu antecipei-me a ele, apresentei-me à rapariga e cumprimentei-a com dois beijinhos. Ela simpaticamente correspondeu ao cumprimento e só quando ela olhou para ele à procura de qualquer coisa, à procura de qualquer dica, é que ele se deu conta que era ele que teria de tomar conta das apresentações. “Fernando, é a Xxxxxx, a minha namorada..” A seguir voltou-se para ela e deixou-me estupefacto com a maneira como me apresentou à namorada: “Tu sabes quem é…” Parecia quase uma justificação para não nos ter apresentado um ao outro. Perante o olhar “apardalado” da rapariga, que ouvia o Pedro insistir “Sabes, sabes, tu sabes quem é, tu conheces…” resolvi intervir para aliviar um pouco a rapariga daquela pressão do namorado: “Tens a certeza, ó Pedro?… Eu também não me lembro dela, se calhar não nos conhecemos mesmo…”
O Pedro olhou para mim, olhou outra vez para ela, enquanto fazia um aceno afirmativo com a cabeça. Parecia seguro de si. Continuava a acenar afirmativamente, ao mesmo tempo que cerrava lentamente os olhos. Reconheci-lhe a expressão, que não via há algum tempo. Levantou a mão direita, a palma bem virada para nós, a exibir firmeza, e disse com o rosto a sorrir: “Calma, Fernando, ela conhece-te, ela sabe… Xxxxxx, olha p’ra mim… Lembraste das coisas que eu te tenho contado da pessoa que nos tem ajudado muito, a mim e ao meu irmão, que tem sido muito bom para nós, que tem sido muito importante, o Fernando?… É este senhor…”
A rapariga olhou para mim outra vez, claramente denunciando no rosto que acabara de se fazer luz no espírito dela e confirmou: “É verdade, eu conheço-o!…”
A referência ao irmão foi a deixa para eu perguntar ao Pedro pelo Cláudio, que está em Timor. Respondeu-me vagamente que o irmão estava bem, que telefona muito, telefona todos os dias e que lá em Timor até já vão à praia.
Mas o Pedro o que queria era falar dele. Sem que eu lhe perguntasse nada, desafiou-me para que eu adivinhasse as novidades. “Se me falas assim, deve mesmo haver novidades… Quero saber!” defendi-me eu.
“Vou para Veneza, se tudo correr bem vou jogar para Itália… Já lá estive, gostaram de mim e tenho duas hipóteses, se calhar vou jogar no Treviso…Conheces Veneza?…” Pensei no livro que, entretanto, já metera dentro da mochila, mas acabei por concluir que não valeria a pena puxar dele, o Pedro só queria era que eu o ouvisse.
“Adoro Veneza, já lá fui várias vezes, estive lá há pouco tempo e quantas mais vezes vou lá, mais apaixonado por aquela cidade eu fico…”
“Também gosto muito, disse ele, e eu devo ir mesmo para lá… Achas bem, Fernando?…”
“Há oportunidades que nos aparecem só uma vez na vida… És novo, não tens compromissos… Os teus pais, se bem os conheço, não são do género de vos prender…” foi o que me surgiu para lhe responder.
“Tenho 19 anos… gostava mesmo de aproveitar esta oportunidade.”
Lembrei-me da “novela” que corre nos jornais e nas televisões sobre a corrupção no futebol italiano, o processo judicial, a quase certa descida da Juventus à segunda divisão. A leitura do livro d’ A Cidade dos Anjos Caídos, em que, ainda ontem, li uma passagem que falava da Juventus e da cidade de Turim, praticamente banaliza ocorrências como esta. Temi, por instantes, pelo Pedro, mas não lhe disse nada. É que logo a seguir me lembrei que a Itália vai estar, daqui a dois dias, na final do campeonato mundial de futebol.
“Vai em frente, Pedro, com essa motivação e com esse entusiasmo. Seguramente, vais aprender muito… Se fores para Veneza, sempre tenho mais um motivo para lá voltar…”
A conversa tinha-me dado tempo para observar melhor a namorada do Pedro que, na verdade, era muito bonita. E que era, de nós os três, a menos entusiasmada com Veneza e com a ida do Pedro para Itália.
O meu telemóvel começou a tocar, o que teve como efeito apontar ao rapaz, que quase me agarrava a cada palavra que dizia, o fim da conversa. Olhei bem para ele, parece que continua a crescer. Está mais alto, mais musculado. Bem proporcionado. Despedimo-nos, como que irmanados numa nova comunhão, o fascínio por Veneza.
Peguei no telemóvel, que deixara de tocar, olhei o visor e percebi que o Rodrigo teria acabado de apanhar o táxi. Mesmo assim, liguei-lhe para confirmar. Se não tivesse apanhado o táxi até eu chegar a minha casa, eu pegaria no meu carro e levá-lo-ia eu a casa dele.
Pus-me a pensar no encontro e na conversa que acabara de ter com o Pedro e dei-me conta que estava contente. Havia um pormenor que me era especialmente saboroso: O Pedro não insistira com a namorada que já lhe tinha falado de mim, nem a namorada tinha confirmado que o Pedro já lhe tinha falado de mim. O Pedro disse, e ela confirmou, que ela já me conhecia.
É uma coisa nova para mim, em que nunca tinha pensado, esta de me ver como tema de conversa de namorados, que seguramente terão coisas muito mais interessantes e deliciosas sobre que conversar. Sobretudo por me tornar conhecido, não apenas falado. Aparecer como pessoa afectivamente investida e significativa no espaço relacional ilusório tecido nas trocas apaixonadas de um naturalmente ingénuo par de namorados…
Muitas coisas fiz eu com o Pedro, com o Cláudio e com outros, não por certeza e segurança quanto aos resultados ou efeitos posteriores, muitas vezes com prazos de anos ainda pela frente. Mas, isso sim, foram feitas por convicção em crenças e em saberes pouco a pouco acumulados. Por vezes com algum risco perante o desconhecido, confiando nas capacidades pessoais de cada um deles.
Ocorrências inesperadas como esta de hoje são certificados que fazem muito bem à alma. Olhei em frente. Tinha ainda muita rua para subir, felizmente, também com muita sombra. Naquela altura, depois daquele encontro, com a barriga cheia e a alma ainda mais cheia, já me apetecia ir devagar. Assim me deixei ir.