Wednesday, December 20, 2006

E, de repente, tanto tempo depois, reencontrei o A.

Fui ao fim da manhã ao grande centro comercial que fica perto da minha casa. Fui lá procurar uma das últimas prendas de Natal. Debalde! Bati com ‘nariz na porta da loja em mira. Fechada. Outra vez, como já me tinha acontecido antes.

Pus-me a olhar a montra, vagamente, pensando que decisão tomaria: esperaria ou viria noutra altura. No bolso, senti a vibração do telemóvel. Era a minha irmã e eu atendi. Enquanto falava, aproximou-se da porta da loja fechada um outro sujeito. Chegou-se tanto à porta, chegou-se tanto a mim, que obrigatoriamente o olhei. Mesmo que num relance, foi o tempo suficiente para me aperceber que ele também me olhava naquele instante.

Foi mesmo assim: praticamente no mesmo momento em que olhei o sujeito, dele desviei o olhar e concentrei-me outra vez na conversa ao telefone. Mas quando ele fez menção de se afastar, num gesto quase reflexo, que a mim próprio surpreendeu, dei-lhe um pequeno murro no peito para lhe captar a atenção e, ainda sem o olhar, fiz um gesto firme com a mão, dizendo-lhe que esperasse. O sujeito, dócil, talvez “apardalado” com ambos os gestos, ficou à espera.

Continuei sem o olhar, e apressei o fim da chamada. É que, de repente, subitamente, dera-me conta que conhecia aqueles olhos - aquela fracção de olhos!, foi esse o tempo do meu olhar quase automático de momentos antes. Conhecia-os de 30 anos atrás! E quando dei o murro no peito ao dono dos olhos, já os tinha identificado num nome: era o A. Trinta anos! E os olhos não teriam mais de 12 anos naquela altura!


 “Estás bem, A.?…” perguntei eu ao sujeito, finalmente me consolando a olhá-lo nos olhos, que mantinham a intensidade azul e o sufoco depressivo de tantos anos atrás… na verdade, mais do que triplicara a sua idade!

Na boca, o dente partido de há 30 anos atrás estava arranjado e toda a dentadura mostrava uma condição e um cuidado completamente ao invés da degradação que me habituei a ver em todos os A. que se foram cruzando ao longo do meu percurso de educador. Que satisfação isso me deu!

Conversámos. Abraçámo-nos. Conversámos outra vez. E abraçámo-nos outra vez, antes de nos afastarmos.

Já a caminho de casa -  Que maçada!… – dei-me conta que não ficara com o contacto dele. Consciencializei que me afastara do A. com o mesmo espírito que tinha existido entre nós tantos anos antes: a certeza e a vontade de nos encontrarmos na escola no dia seguinte. Mas, mesmo assim, nesse tempo lá atrás, houve um dia que foi diferente. Será que agora poderia ser outra vez assim?

Quando pensei nisto, apercebi-me logo que iria tentar que a história se repetisse. Vou contá-la um dia destes. E depois irei contar outra, outra história do A., que se juntou já à que contarei já a seguir, qual cereja ligada à outra cereja. Vai certamente surgir o momento oportuno de contar essa segunda história.

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Sunday, October 15, 2006

A amizade trazida de Kalamata, na Grécia.

Regressei ontem à noite da Grécia. Estive em Kalamata, a participar num encontro internacional de professores que trabalham na educação intercultural.

 

Tive oportunidade de tomar contacto com um pequeno grupo de jovens estudantes do ensino secundário.

Fiquei muito sensibilizado com este grupo de jovens, em quem descortinei, nos poucos momentos que tivemos juntos, aquilo que penso ser o desejo secreto de qualquer professor: encontrar nos seus alunos a simpatia, o prazer pelo conhecimento, a confiança no mestre e a alegria de estar junto dos outros.

 

A ambiência afectiva que eles ajudaram a criar alimentou a inspiração para um pequeno texto poético que escrevi no final de um fantástico passeio, e de que me muito orgulho de que tenha sido lido em grego e efusivamente saudado pelos jovens a quem o dediquei.

 

Aqui deixo o poema, na língua maravilhosa do sempre disponível Iannis, do bem animado Menelaus, das graciosas Stravula e Athina, do jovem das mãos que guardam o poder de encantar os sentidos com os acordes da viola clássica, bem assim como todos os outros que nos cativaram com o seu sorriso e o seu olhar curioso.

Felizes são os professores que os têm como alunos!

Αν βασίλεψε κιόλας ο ήλιος

Και δεν μπορώ πια να δω τη θάλασσα

Μπορώ ακόμα να την ακούσω

Αν δεν μπορώ να την κοιτάζω

Μπορώ ακόμα να την μυρίζω

Αν δεν μπορώ να την αγναντεύω

Μπορώ ακόμα να την αγγίζω

Έτσι αν κάποιος θέλει να με βρει

Δεν έχει παρά να με αναζητήσει

Στην ακρογιαλιά


 

Ευχαριστώ όλους τους νέους

Που ήταν μαζί μας

Για την φιλία τους

Τη χαρά τους

Και τον ενθουσιασμό τους για τη ζωή!

 

E também na língua que eu amo e em que posso exprimir melhor os matizes de tudo o que penso e sinto.

 

Se o sol já se foi deitar
e eu não consigo ver o mar,
posso ainda ouvir o seu marulhar.
Se já não consigo olhar o mar,
posso ainda cheirar o seu pulsar.
Se já não posso contemplar o mar,
posso ainda nele tocar.
Então, se alguém me quiser encontrar,
é aí, bem junto ao mar,
que terá de me procurar.

Obrigado, a todos os jovens,
pela vossa companhia,
pela vossa alegria,
pelo vosso entusiasmo de viver!

 

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Tuesday, July 18, 2006

A vaidade de uma profecia. Em Idanha-a-Nova.

O M. deixou de trabalhar comigo há cerca de 4 anos. Desde então, não há passo importante na vida dele que não me informe ou não deixe de falar comigo. Ainda no dia 7 deste mês me mandou uma mensagem que dizia: “Fernando dia11 deste mes vou prestar provas para o serviço militar. Recebi ontem a carta.” Desejei-lhe boa sorte, na resposta.


 

Fez provas durante três dias e no fim de todos eles me comunicou a forma como tinham corrido. Na última dizia que tinha corrido tudo bem e que sempre entraria nas tropas especiais que escolhera no final do mês de Agosto. Felicitei-o. Sei quanto este projecto é importante para ele, forjado num percurso de desenvolvimento pessoal bem delineado há alguns anos atrás e marcado por sucessos e reveses. Tem agora 20 de idade.

 

Hoje, a seguir ao almoço, enquanto esperava que se vencesse o atraso de uma reunião de trabalho na Escola Secundária D. Dinis, ali bem perto de minha casa, recebi outra mensagem dele. Desafiava-me para que adivinhasse onde é que ele estava nesse momento. Errei… Ele estava no Parque de Campismo de Idanha-a-Nova, a passar férias.

 

O Parque de Campismo de Idanha-a-Nova foi, há alguns anos atrás, o palco de diversos projectos de férias e actividades de canoagem, de aventuras esforçadas de dia e de mistérios de cortar a respiração de noite!… Outros Traquinas houve já que lá voltaram também e não deixaram de mo dizer. Houve um que até já lá foi na sua lua-de-mel! Fico tão contente quando a rapaziada faz questão de mostrar aos amigos, às namoradas e aos namorados os sítios por onde andámos… à Boa Vida!

 

Um dia, era eu já psicólogo feito dirigente juvenil, a Professora Rita Mendes Leal, sempre vigilante dos meus entusiasmos, alertou-me para o perigo de levar jovens a fazer coisas que depois poderiam ficar na forma de desejos que não voltassem a ter possibilidades de repetir e, desse modo, acabassem por confrontá-los com o reduzido alcance das possibilidades de vida de cada um, confirmando-lhes um auto-conceito de pouco valor. Garanti-lhe que seria capaz de lhes propor apenas realizações que não só poderiam repetir na Associação, mas também que poderiam, um dia mais tarde, fazer fora dela, com os seus amigos e familiares.

 

 Mais uma vez hoje, o M. confirmou a minha profecia. A única coisa que pude dizer hoje ao M., em resposta à sua mensagem, foi que se lembrasse de mim amanhã, quando desse um mergulho na barragem e que gozasse bem as férias. As últimas férias - não lho disse já na mensagem - antes do se apresenta como sendo o ponto final social da sua adolescência.

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Monday, July 17, 2006

Então, Fernando, está tudo bem?

O H., de tempos a tempos, liga-me. Normalmente, não tem nada de especial para me dizer, mas liga-me. A saber como estou, para conversar um pouco comigo. Ontem lembrei-me dele, penso que na sequência de uma série de associações que a história do Fernando Paixão – Que saudades, Fernando, que saudades daquelas férias! – me trouxe.

Lembrei-me ontem do H. ao ponto de ter ido procurar um texto que escrevi sobre ele já há alguns anos e que li na apresentação de uma palestra dirigida a professores e auxiliares pedagógicos que trabalhavam numa instituição que recolhia jovens rapazes, vítimas de abandono, ou em grave risco social, numa cidade de província não muito longe de Lisboa. Reli o texto e pareceu-me que tinha condições de juntar aos escritos deste blogue. Por isso o arrumei no molho dos pendentes a curto prazo.

Curiosamente, hoje, pouco depois da hora do almoço, tocou o telemóvel e fui atender. Tratava-se de um número identificado, mas que não estava ainda registado na minha lista telefónica, pois não surgia ligado a nenhum nome.
Hesitei. Pensei se atendia, ou não. Acabei por atender. O H., do outro lado da linha, percebeu imediatamente a minha hesitação. Na verdade, eu não o acolhi com a vivacidade do costume.

“Desculpa, H., a esta hora tenho sempre medo que seja alguém a querer vender-me alguma coisa, ou queira que eu responda a um inquérito. E não me lembrava que ainda não passei o teu número do outro telefone para este. De ti, o visor do telemóvel dá-me sempre o teu nome.” Desta vez havia mesmo uma novidade: o H. mudara de cidade. Vivia agora ainda mais perto de Lisboa, numa casa alugada a meias com a namorada, há cerca de 4 ou 5 meses, disse-me ele. De resto, estava tudo bem com ele. “E tu, Fernando, como estás tu?…” perguntou ele outra vez, já que eu hesitara na pergunta semelhante do início da conversa. Confirmámos que, no essencial, a vida corre bem para ambos. Comprometemo-nos a encontrarmo-nos um com o outro, o mais tardar, até ao final de Agosto. Para eu conhecer a namorada.

Depois de desligar o telefone actualizei o nome dele e o número no telemóvel. A seguir, fui ao molho dos pendentes e pus a história dele um pouco mais para cima. Que ligarei a este apontamento com um link, um destes dias.

Posted by Fernando at 18:00:41 | Permalink | Comments (1) »

Friday, July 7, 2006

Conheces Veneza, Fernando?…

Tinha acabado de acelerar o passo, logo após deixar o Rodrigo à espera de um táxi, quando olhei em frente e vejo o rapaz largar a mão da namorada, abrir bem os braços e alterar ligeiramente o rumo, de maneira a vir bem ao encontro de mim.

 

Eu estava de mochila às costas e com o livro sobre Veneza na mão esquerda. À pressa tentei desembaraçar-me dele, para corresponder àquele gesto franco e amistoso, mas sem sucesso. Sem outro remédio, abri os braços em espelho, com o livro pendurado lá na ponta dos dedos…

 

Não me surpreendi de o ver ali, afinal, estávamos perto de casa dele. Calhou eu ter ido almoçar à Tasca do Zé Russo com o Rodrigo, o Zeca Barroso e uma família romena acabadinha de chegar do seu país. Saíramos do restaurante momentos antes e, como já disse, eu acabara de estugar o passo para fugir, tão depressa quanto possível, do sol escaldante da hora do almoço. E, demais a mais, eu estava sem cremes protectores nenhuns sobre a pele…

 

Depois do abraço, forcei que nos desviássemos um bocadinho para a esquerda, de maneira a cair numa zona de sombra.

 

Fiquei naquela expectativa habitual dos momentos em que se dá a iniciativa ao outro para que nos apresente a terceira pessoa. Rapidamente percebi que o Pedro não me iria apresentar a sua dama. Ele descuidara isso, afinal, ele queria falar logo de outras coisas. Mas eu antecipei-me a ele, apresentei-me à rapariga e cumprimentei-a com dois beijinhos. Ela simpaticamente correspondeu ao cumprimento e só quando ela olhou para ele à procura de qualquer coisa, à procura de qualquer dica, é que ele se deu conta que era ele que teria de tomar conta das apresentações. “Fernando, é a Xxxxxx, a minha namorada..” A seguir voltou-se para ela e deixou-me estupefacto com a maneira como me apresentou à namorada: “Tu sabes quem é…” Parecia quase uma justificação para não nos ter apresentado um ao outro. Perante o olhar “apardalado” da rapariga, que ouvia o Pedro insistir “Sabes, sabes, tu sabes quem é, tu conheces…” resolvi intervir para aliviar um pouco a rapariga daquela pressão do namorado: “Tens a certeza, ó Pedro?… Eu também não me lembro dela, se calhar não nos conhecemos mesmo…”

O Pedro olhou para mim, olhou outra vez para ela, enquanto fazia um aceno afirmativo com a cabeça. Parecia seguro de si. Continuava a acenar afirmativamente, ao mesmo tempo que cerrava lentamente os olhos. Reconheci-lhe a expressão, que não via há algum tempo. Levantou a mão direita, a palma bem virada para nós, a exibir firmeza, e disse com o rosto a sorrir: “Calma, Fernando, ela conhece-te, ela sabe… Xxxxxx, olha p’ra mim… Lembraste das coisas que eu te tenho contado da pessoa que nos tem ajudado muito, a mim e ao meu irmão, que tem sido muito bom para nós, que tem sido muito importante, o Fernando?… É este senhor…”

A rapariga olhou para mim outra vez, claramente denunciando no rosto que acabara de se fazer luz no espírito dela e confirmou: “É verdade, eu conheço-o!…”

 

A referência ao irmão foi a deixa para eu perguntar ao Pedro pelo Cláudio, que está em Timor. Respondeu-me vagamente que o irmão estava bem, que telefona muito, telefona todos os dias e que lá em Timor até já vão à praia.

 

Mas o Pedro o que queria era falar dele. Sem que eu lhe perguntasse nada, desafiou-me para que eu adivinhasse as novidades. “Se me falas assim, deve mesmo haver novidades… Quero saber!” defendi-me eu.

 

“Vou para Veneza, se tudo correr bem vou jogar para Itália… Já lá estive, gostaram de mim e tenho duas hipóteses, se calhar vou jogar no Treviso…Conheces Veneza?…” Pensei no livro que, entretanto, já metera dentro da mochila, mas acabei por concluir que não valeria a pena puxar dele, o Pedro só queria era que eu o ouvisse.
Adoro Veneza, já lá fui várias vezes, estive lá há pouco tempo e quantas mais vezes vou lá, mais apaixonado por aquela cidade eu fico…”
“Também gosto muito,
disse ele,
e eu devo ir mesmo para lá… Achas bem, Fernando?…”
“Há oportunidades que nos aparecem só uma vez na vida… És novo, não tens compromissos… Os teus pais, se bem os conheço, não são do género de vos prender…”
foi o que me surgiu para lhe responder.
“Tenho 19 anos… gostava mesmo de aproveitar esta oportunidade.”

Lembrei-me da “novela” que corre nos jornais e nas televisões sobre a corrupção no futebol italiano, o processo judicial, a quase certa descida da Juventus à segunda divisão. A leitura do livro d’ A Cidade dos Anjos Caídos, em que, ainda ontem, li uma passagem que falava da Juventus e da cidade de Turim, praticamente banaliza ocorrências como esta. Temi, por instantes, pelo Pedro, mas não lhe disse nada. É que logo a seguir me lembrei que a Itália vai estar, daqui a dois dias, na final do campeonato mundial de futebol.

 

“Vai em frente, Pedro, com essa motivação e com esse entusiasmo. Seguramente, vais aprender muito… Se fores para Veneza, sempre tenho mais um motivo para lá voltar…”

A conversa tinha-me dado tempo para observar melhor a namorada do Pedro que, na verdade, era muito bonita. E que era, de nós os três, a menos entusiasmada com Veneza e com a ida do Pedro para Itália.

 

O meu telemóvel começou a tocar, o que teve como efeito apontar ao rapaz, que quase me agarrava a cada palavra que dizia, o fim da conversa. Olhei bem para ele, parece que continua a crescer. Está mais alto, mais musculado. Bem proporcionado. Despedimo-nos, como que irmanados numa nova comunhão, o fascínio por Veneza.

 

Peguei no telemóvel, que deixara de tocar, olhei o visor e percebi que o Rodrigo teria acabado de apanhar o táxi. Mesmo assim, liguei-lhe para confirmar. Se não tivesse apanhado o táxi até eu chegar a minha casa, eu pegaria no meu carro e levá-lo-ia eu a casa dele.

 

Pus-me a pensar no encontro e na conversa que acabara de ter com o Pedro e dei-me conta que estava contente. Havia um pormenor que me era especialmente saboroso: O Pedro não insistira com a namorada que já lhe tinha falado de mim, nem a namorada tinha confirmado que o Pedro já lhe tinha falado de mim. O Pedro disse, e ela confirmou, que ela já me conhecia.

 

É uma coisa nova para mim, em que nunca tinha pensado, esta de me ver como tema de conversa de namorados, que seguramente terão coisas muito mais interessantes e deliciosas sobre que conversar. Sobretudo por me tornar conhecido, não apenas falado. Aparecer como pessoa afectivamente investida e significativa no espaço relacional ilusório tecido nas trocas apaixonadas de um naturalmente ingénuo par de namorados…

 

Muitas coisas fiz eu com o Pedro, com o Cláudio e com outros, não por certeza e segurança quanto aos resultados ou efeitos posteriores, muitas vezes com prazos de anos ainda pela frente. Mas, isso sim, foram feitas por convicção em crenças e em saberes pouco a pouco acumulados. Por vezes com algum risco perante o desconhecido, confiando nas capacidades pessoais de cada um deles.

 

Ocorrências inesperadas como esta de hoje são certificados que fazem muito bem à alma. Olhei em frente. Tinha ainda muita rua para subir, felizmente, também com muita sombra. Naquela altura, depois daquele encontro, com a barriga cheia e a alma ainda mais cheia, já me apetecia ir devagar. Assim me deixei ir.

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Wednesday, July 5, 2006

A gata, talvez tocasse piano, era certo que falava francês…

Num daqueles momentos em que o trabalho dos olhos no monitor do computador é compatível com a escuta vigilante dos ouvidos na televisão, estes últimos deram-se conta de uma reportagem sobre França, com muito falar na língua portuguesa, por detrás da voz da repórter, que falava também em português.

É que mais logo Portugal jogará contra a França na segunda meia-final do campeonato mundial de futebol.

Tirei os olhos do monitor e os dedos do teclado e concentrei-me na televisão. Confirmei: a placa toponímica não deixava quaisquer dúvidas. Era-me familiar. Eu já havia estado ali, até tirara algumas fotografias com a malta dos Traquinas que estava comigo: FRANÇA.

 

[Desculpem, interrompi a escrita... retirei-me por uns momentos porque fui procurar as fotografias, tiradas assim ao chegar o pôr-do-sol]

 

Tomei um pouco mais de atenção às vozes à volta da repórter: sim senhor, ali só se falava português! Aos poucos, fui trazendo à memória episódio atrás de episódio, momento atrás de momento, dessa actividade gloriosa dos Traquinas. Lembrei-me, por exemplo, de um episódio caricato, com uma vaca, que aconteceu 2 ou 3 dias depois de termos estado ali e que, provavelmente, contarei aqui um dia destes, já que me lembrei agora dele. E sou agora tomado por uma sensação de “frisson” nostálgico por causa de algo gostoso que aconteceu, se apreciou muito enquanto durou, mas que não voltará a acontecer.

 

Por mais surpreendente que possa parecer neste momento aos eventuais leitores deste apontamento, na manhã desse dia estávamos bem na fronteira entre Portugal e Espanha, ainda em Portugal, numa aldeia em que tínhamos parado para descansar um pouco. Alguns de nós estavam sentados nos degraus da igreja e aperceberam-se que tinha acabado de haver missa porque quase foram abalroados por gente que saiu da igreja quase de uma só golfada. Afinal, vistas bem as coisas, era domingo.

 

Depois de quase toda a gente se ter afastado, tão depressa quanto tinha aparecido, restaram praticamente 2 senhoras, que mantiveram entre elas uma conversa, bem audível, sobre uma ninhada de gatitos que espreitavam pelos buracos da madeira apodrecida de uma porta grande de armazém ali mesmo ao lado, porta de cor verde bem deslavado. Percebi que praticamente todos os Traquinas que estavam comigo estavam, tal como eu, com atenção à conversa das senhoras porque, a certa altura, olharam repentinamente para mim, atónitos, intrigados e como que a pedirem-me uma explicação.

 

É que uma das senhoras acabara de dizer, assim que uma gata adulta apareceu de detrás da igreja: “Aquela é a mãe, chegou de França ontem, veio sozinha… Eu trouxe os gatitos quando lá estive com o meu marido, “trouxemos-os” no carro e ela conseguiu descobri-los aqui, veio cá ter sozinha, de França aqui. Que rica mãe, sim senhora!”


 

Bem, percebi o que estaria em causa. Olhei a minha malta, quase um por um, a seguir os gatitos, depois as senhoras e lembro-me que finalmente me fixei na gata mãe, como que a interrogá-la, a adivinhar-lhe o pensamento. Eu soube logo o que é que a minha malta me iria perguntar assim que as senhoras se afastassem. E desejei logo que se demorassem ainda mais algum tempo, para me dar tempo de preparar convenientemente a resposta.

 

E o que se tornou inevitável desde esse instante aconteceu. As senhoras afastaram-se, a malta chegou-se a mim e um deles perguntou-me o óbvio: “Fernando, ouviste o que a senhora disse?.. Como é que a gata veio de França até aqui?…”

 

Sinceramente, por mais que soubesse ou acreditasse nas tremendas competências dos instintos animais, pois sinceramente, não estava a ver instinto animal que fosse capaz de percorrer bem mais de mil quilómetros, durante dias e dias, por caminhos nunca antes percorridos e, necessariamente, em tanta brevidade de tempo. Mas lá balbuciei qualquer coisa, alinhavada entre meia de instinto e meia de sorte. Um dos miúdos, provavelmente inspirado por filmes da TV, pôs a “verosímil” hipótese de uma boleia na carroçaria de uma qualquer camioneta.

 

Como que para dar mais verdade dramática no quadro, a gata tinha-se acabado de sentar sobre as patas traseiras e 2 dos gatitos pulavam sobre ela, pareciam felizes com a chegada da mãe.

 

Tirámos fotografias aos gatos, não podíamos deixar de o fazer. Pusemos as mochilas às costas e acabámos por nos ir embora da aldeia. Havia que retomar o caminho. Voltámos à estrada nacional, encarreirados uns atrás dos outros, como mandam as boas regras de segurança. Eu ia a fechar o grupo, em silêncio, ainda a pensar nos gatos. E passou mais de uma hora de caminho. Antes que passasse outra, o elemento do grupo que ia à frente, depois de descrever uma curva, parou e gritou: Fernando, anda cá, anda ver onde chegámos… Chegámos a França!…” Corremos, os do fim da fila, um bocadinho já esquecidos das regras de segurança e olhámos. Sim, era verdade! Estávamos a entrar em França, aldeia ali na região de Montesinho. Percebemos que eram vários que vinham a pensar nos gatos quando um dos miúdos disparou um mmmiiiiiii… aaaaauuuuuu!!!!!! bem sonoro e malicioso. E todos nos rimos imenso logo a seguir. “Fotografia, já!…” gritou outro. E foi o que fizemos.

 

À noite, já na casa abrigo do Parque de Montesinho, e depois do jantar em que os gatos foram outra vez o tema principal da conversa durante a refeição, finalmente me senti apaziguado com os meus conhecimentos sobre comportamento animal, que, ao princípio da tarde, tinham sofrido um forte abalo!… 

Enquanto a malta tratava de si ou se entretinha como queria, o Paulo Cocco e eu fomos pegar nos mapas e nas cartas topográficas. Sim senhor, lá estava a França pequenina, bem encaixadinha num dos mapas. Não era ponto de partida, não era ponto de paragem, não era ponto  de actividade da nossa acção. Por isso tinha passado despercebida. Ainda bem… Pouco mais há  que valha o que valem os momentos de espanto ingénuos, inesperados e descomprometidos, com desenlace tão súbito e inesperado quanto o da origem.

 

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Wednesday, June 7, 2006

Pois é, as aulas estão mesmo a chegar ao fim. É sempre bom saber que os alunos gostaram das aulas.

Costumo pôr no fim dos testes que passo aos meus alunos uma pequena grelha onde eles devem indicar o grau de dificuldade que atribuem ao teste.

Hoje de manhã, quando fazia um dos tradicionais percursos lentamente erráticos que os professores costumam fazer por entre as carteiras dos alunos nos dias dos testes, reparei que o Rui tinha escrito qualquer coisa mais para além da simples cruz sobre a casinha que correspondia ao grau de dificuldade que ele atribuiu ao teste. Assim que ele se apercebeu de que eu tinha visto o escrito “extra” dele, teve uma discreta reacção de pudor e procurou tirá-lo da minha vista. É que, não obstante ele ter escrito uma coisa que a mim era destinada, na maneira como ele tinha investido emocionalmente e concebido mentalmente aquele acto de comunicação, não seria ainda o momento de eu tomar conhecimento do que ele escrevera.

Só que o Rui não foi suficientemente discreto e não me deu tempo, nem jeito para disfarçar, fingir que não tinha visto e deixar de fazer o que costumo fazer, que é debruçar-me sobre as mesas dos alunos, olhar os testes e chamar a atenção para uma ou outra coisa que possa ser melhorada ou corrigida no teste. Às vezes, pego mesmo nos testes, como foi o caso desta vez.

Provavelmente o Rui temeu que eu, depois de ler o que ele escrevera, fizesse algum comentário mais ou menos jocoso e denunciasse publicamente um dito, uma opinião, uma impressão que, mesmo que não tivesse nada de especial, mesmo que pudesse ter sido feito por qualquer aluno, tem sempre qualquer coisa de pessoal e de discreto, que todos nós gostamos que seja preservado. Pelo menos até àquele momento em que achamos que pode assumir um carácter público. As nossas emoções, quando denunciam, numa cultura tradicionalmente resistente à expressão fácil e franca dos afectos que dizem que gostamos de outras pessoas, têm um primeiro momento de recato e de pudor, de dificuldade em “sair”, o tal pudor com que o Rui reagiu quando “foi apanhado”.
Para descanso do Rui, eu li e depois olhei para ele de maneira a que ele percebesse que eu tinha lido e que poderia ficar descansado porque eu não iria dizer nada. Fiz o tal comentário com a deixa para a tal correcção ou melhoramento e, sem mais nada, voltei a deixar-lhe o teste em cima da mesa.

No final da tarde, em casa, quando tratei de corrigir os testes, li, com outro vagar, o que o Rui escreveu de manhã:
“Foi um ano porreiro! É pena ter k acabar, mas kurti das aulas do STOR! Boa sorte pó Benfica. Comprimentos”  Seguia-se a assinatura.

O Rui é um rapazinho que tem algumas facetas e idiossincrasias que o tornam um “caso”curioso, sociologicamente muito interessante. Por exemplo, hoje em dia, é cada vez mais difícil conceber a comunicação regular com os nossos alunos (Pelo menos numa cidade vasta, dispersa e desenvolvida como é Lisboa) sem que a mesma seja mediatizada pelo telemóvel ou pelo e-mail). Curiosamente, o Rui - provavelmente, sem que deliberadamente ele persiga isso - continua a propor-nos um tipo de relacionamento pessoal na escola que privilegia o contacto pessoal directo, com características que já são bem pouco habituais. Por exemplo, se eu precisar (como já aconteceu…) de tornar a ver o apontamento de uma coisa que já lhe tenha entregue, se eu o quiser contactar, não tenho número de telefone, de telemóvel ou e-mail para fazer. Tenho de o procurar pessoalmente. E ele, o que lhe surge espontaneamente para fazer não é mandar uma mensagem ou um e-mail com o que eu quero; ou mesmo deixar para quando for ocasião de ele voltar à escola. Nem que isso se resuma a uma ou duas palavras. Isso sim, é trazer-mo pessoalmente. “Quando é que precisa disso, stôr? Quando é que está cá na escola? Posso vir cá trazer, se quiser…”

É engraçado, o Rui faz-me lembrar os meus próprios companheiros de escola, quando eu tinha a idade que ele tem agora. E isso sabe-me bem.

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Monday, June 5, 2006

Um abraço de solidariedade ao Tiago!

Hoje cheguei ligeiramente atrasado à reunião do 7ºD, a turma do Diogo, de que já falei. A reunião foi à tarde, a seguir ao almoço, àquela hora que a intensidade do sol me proíbe de andar na rua.

Pouco depois de me ter sentado ao pé dos colegas, apercebi-me, na conversa que duas ou três colegas estavam a ter, que o Tiago, outro aluno desta turma, tinha ido de manhã para o hospital e tinha levado pontos na boca.

Quis saber o que se tinha passado. Foi assim: o Tiago foi brutalmente sovado e pontapeado por dois outros alunos da escola (que não eram colegas dele) porque se recusou a dar-lhes o dinheiro que eles, quais líderes de um reino impune e sem rei nem roque, tinham resolvido reclamar dele, a pretexto de quererem tomar qualquer coisa no bar…

Prontamente o Conselho Executivo determinou uma medida disciplinar suspensiva aos agressores. Elementar procedimento.

À noite, falei com o Tiago. Liguei para casa dele e conversámos ao telefone. Não sei se fui suficientemente carinhoso e solidário com ele. Ele fez humor comigo e foi cordial.
- A directora de turma disse-me que amanhã fala contigo na escola.
- Eu amanhã não vou à escola, “stôr”. Estou todo amassado… Como posso eu ir à escola assim neste estado?…

Portanto, a partir de amanhã, durante os próximos 5 dias, o Tiago e os outros não vão à escola. Durante estes dias as feridas (visíveis) do Tiago vão sarar. Mas serão as únicas. Todas as outras (nele, mas nos outros dois rapazes, também) seguramente, abrirão sulcos mais fundos, fortemente resistentes a quaisquer processos de cicatrização.

O pior que se poderá dizer nesta altura é “infelizmente há bem pior!…”

Não se pode permitir que estas coisas se banalizem. É um mau sinal das responsabilidades educativas das famílias (agora que tanto se fala em os pais avaliarem os professores); é um mau indicador da fragilidade de intervenção das escolas na verdadeira formação cívica, na formação da cidadania dos jovens.
Pai e professor são, hoje em dia, estatutos sociais de bem baixa cotação!… 
Mas, repito, não se pode ficar de braços cruzados. Isto está a pedir ainda um pouco mais de esforço aos professores. Por agora, é a eles que cabe dar os próximos passos. Nem que seja preciso cerrar os dentes.
 

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Saturday, May 13, 2006

O nosso olhar sobre a escola…

O meu colega de escola Acúrcio Domingos, professor de EMRC, pediu-me que discorresse um pouco sobre o tema que dá título a este apontamento, no âmbito das acções que tem vindo a animar com um grupo de alunos mediadores da nossa escola.

Pareceu-me que teria a-propósito registar aqui a primeira parte do que preparei hoje para ser lido aos jovens. Vou ler-lhes isto na próxima quarta-feira. Portanto, terão de se imaginar alguns dias mais à frente. Ora vejam lá:

Para que escola é que eu estou a olhar?


             A minha vida agora é praticamente assim: de manhã, vou à escola… dar aulas; à tarde, vou à escola… ter aulas. Voltei para a escola, aliás, penso que, verdade, verdadinha, eu nunca saí da escola.


            E se gosto muito de dar aulas, também não deixa de ser verdade que quando saio de casa para as aulas na Faculdade, vou com o entusiasmo – é mesmo ânsia! – igual ao que levava quando era criança, primeiro, e moço, depois. Sempre tive uma vontade enorme de aprender e, muitas vezes, as aulas de muitos professores que tive eram quase histórias de encantar, daquelas que os miúdos pequenos gostam de ouvir.


            É por isso que eu tenho muita pena de ver, hoje em dia, tantas crianças e tantos jovens que não gostam de ir – e de vir – à escola. Adiante.


            Fez ontem 15 dias que uma das minhas professoras na Faculdade nos marcou um trabalho de casa: Para a semana quero que todos tragam um projecto da tese que vão fazer. Têm que dizer o que é que vão investigar, porque é que querem estudar isso e quem é que querem para vosso orientador. Na terça-feira da semana passada, foi precisamente a mim que a professora pediu, em primeiro lugar, o trabalho de casa. Assim que entreguei o trabalho, houve logo algumas colegas minhas que comentaram: Mas era para fazer um trabalho assim tão grande?… A professora descansou-as logo: Não se preocupem, não olhem para o trabalho do Fernando, ele escreve sempre muito…


            É verdade, eu tinha apresentado um trabalho com o dobro das folhas dos trabalhos da maioria das minhas colegas (colegas rapazes só tenho 2): quase todas elas apresentaram duas folhas e eu apresentei 4. O que eu apresentei a mais foi uma folha com alguma bibliografia. Era meia página escrita e, quando acabar a tese, só a bibliografia serão umas 10 ou 15 páginas.
            A outra folha é que foi verdadeiramente original: apresentei já a dedicatória que vou escrever na tese e que vai ser publicada só daqui a um ano. Mas a dedicatória ficou já conhecida pela professora e já está publicada na Internet.


            É essa dedicatória que eu quero ler-vos também já aqui. Diz assim:
(…)


             Como disse, publiquei esta dedicatória num blogue que tenho na Internet na terça-feira da semana passada. Na quarta-feira, mandei um e-mail à minha irmã a dizer-lhe. Agora ela é médica e tem filhos da idade de muitos daqui da escola. Quando aquela situação aconteceu, ela teria uns sete ou oito anos e andaria na segunda ou na terceira classe; ou, como agora se diz, segundo ou terceiro ano. Ela só abriu a caixa de correio na quinta-feira à noite e na sexta-feira de manhã teve pontaria suficiente para me ligar na hora do intervalo entre o segundo e o terceiro bloco. Queria agradecer-me e a conversa acabou com ela a dizer-me assim, a falar dela própria quando aquilo aconteceu: Eu gostava muito daquela menina, era uma miúda gira, às vezes fazia coisas engraçadas.
            Quer dizer, a minha irmã, às vezes, quando olha para ela, no tempo da escola, tem uma lembrança agradável e gosta de sentir o que sente.


            Logo a seguir ao telefonema que tive com a minha irmã, tocou para a entrada e fui para a sala C4 dar aulas a uma das minhas turmas. Um dos rapazitos da turma chegou um pouquinho atrasado e todo suado. Mas impecavelmente penteado, sim senhor!
            O rapazito devia vir de alguma jogatana de futebol, não sei, não lhe perguntei, e estava difícil acalmar. A coisa foi-se levando numa boa. Mas, a certa altura, tive mesmo de “apertar” com ele e mandei-o pôr-se de pé, ao pé da porta de saída durante uns minutinhos a pensar o que faríamos a seguir: se abriríamos a porta para que ele fosse deixar um bocadinho do seu suor no Gabinete do Aluno [a "sala do castigo" lá da Escola], ou se acabaria por deixá-lo todo ali na sala, sentadinho na cadeira a trabalhar um bocadinho. É claro que as coisas correram bem, o Diogo é um gajo porreiro, tem noção dos limites e tenho a certeza que ele não só me respeita, como tem algum apreço por mim. A certa altura ele ainda me perguntou se podia ir buscar uma cadeira e sentar-se. Ê pá, se fores buscar uma cadeira isso parece mais um prémio de descanso do que castigo!… respondi-lhe eu. O rapaz riu-se e lá continuou de pé. Até que o mandei voltar para o computador.
            Mal se tinha sentado outra vez no lugar, o Diogo disse-me, sem tirar os olhos do monitor: “Setôr”, tenho sede, posso ir beber água?…


            Achei piada isto acontecer precisamente a seguir ao telefonema da minha irmã e a seguir a toda esta história da dedicatória. Era uma espécie de selo, uma espécie de certificado de verdade da história que contei na dedicatória. Apeteceu-me ligar logo para a minha irmã, a contar-lhe, mas consegui esperar pelo final da aula. Aliás, não foi preciso ligar-lhe. Quando a malta já estava a desligar os computadores, no final da aula, ela ligou-me. Eu tinha o telemóvel em cima da minha mesa, no modo silêncio, vi a luz do visor a piscar e como os alunos já estavam a levantar-se, atendi e contei-lhe a história. Ela perguntou-me: E tu disseste que sim, não foi?…


            Não, eu disse ao Diogo que não, que não podia ir beber água. Inclusivamente, virei-me para o meu computador, de costas para ele, para o desprezo parecer maior.
            Calma, malta, eu não fui incoerente com a história da minha irmã!
            Ora vejam lá: virei-me de costas para ele, mas, dentro de mim, a alegria era enorme. Eu sabia que tinha a situação na mão, sabia que, chegado ao mesmo ponto da outra professora de há muitos anos, eu respeitaria o tal valor que defendi na dedicatória e faria dele, não um tema de aula mais ou menos distante e frio para os alunos, mas uma experiência concreta na vivência daquele aluno, que já tinha estado encostado à parede nesse dia.
            O Diogo conhece-me, já está habituado ao meu estilo. Pausadamente, larguei o computador, fui ao pé do Diogo, cheguei-me bem ao pé dele, resignado a ter de cheirar todo aquele perfumezinho salgado que ele exalava e disse-lhe, pondo propositadamente alguma teatralidade cúmplice na voz: Podes ir lá fora beber água, podes. Tens um minuto!… Os olhos do Diogo passaram por mim com a rapidez alucinante  de um meteorito, o rapaz levantou-se num ápice, e saiu disparado. O que foi mais nítido nesta sequência quase vertiginosa foi o obrigado que ele deixou pelo caminho. E que ele repetiu quando voltou pouco depois.

Que escola é que deixo os alunos olharem?

             A vida é feita de pequenos nadas…
            A vida é feita de pequenos nadas…
            A vida é feita de pequenos nadas…
            É assim que canta um artista da minha geração, o Sérgio Godinho. Eu acho que é verdade.


            O que aconteceu com o Diogo na aula de sexta-feira na sala C4 – e estou agora a falar da questão de ir ou não ir beber água, não a de ter estado encostado à parede – demorou entre um a dois minutos, quer dizer, foi um pequeno nada. Mas, se compararmos o que aconteceu com ele e o que aconteceu com a colega da minha irmã, teremos bem claro à nossa frente, na nossa cabeça, quanto estes pequenos nadas são importantes e determinantes na nossa vida. E que ajudam a formar decisivamente o nosso olhar sobre as coisas.


            Que olhar poderemos, portanto, deixar aos alunos da nossa escola? O olhar que podemos deixar, na maioria das vezes, é o reflexo directo do nosso próprio olhar sobre a escola, do que dela achamos, do que nela sentimos; do prazer ou do cansaço que sentimos quando damos aulas, se somos professores; do entusiasmo ou do aborrecimento com que entramos nas salas de aula para ouvir os professores, se somos alunos.


            Como se lembrará hoje a menina, colega da minha irmã, daquele episódio da escola? A minha irmã já a gente sabe como se lembra. E o Diogo, como irá ele lembrar-se, daqui a uns anos, da aula em que ficou de pé junto à porta? Em que ficou encostado à parede, cheirando a suor que tresandava? Em que teve sede e foi beber água? Como passarão eles, a menina e o Diogo, os seus olhares das suas escolas para os olhares sobre a escola dos seus próprios filhos?

 

Posted by Fernando at 23:47:27 | Permalink | Comments (4)