Sunday, April 15, 2007

O ágora que foi o centro do Mundo!

O banco desta fotografia já foi um dia o Centro do Mundo. Entre os anos 66 e 67 do século passado.

Nessa altura havia as chamadas aulas de admissão, em que os alunos que frequentavam a 4.ª classe e queriam continuar a estudar no ciclo preparatório, tinham de fazer aulas extras, para além daquelas que conferiam o diploma do ensino básico.

Em Abrantes, na Escola dos Quinchosos, a meio da tarde, no intervalo para o lanche, um pequeno grupo de alunos da 4.ª classe do professor Virgílio, ritualmente, saía da Escola direitinho a este banco, que ficava logo a seguir à primeira curva do caminho de terra que partia, em subida acentuada, ali mesmo da beira da Escola, penetrava na vegetação alta e densa, e, misteriosamente, levava todos os passos para o castelo, lá no alto.

À vez, enquanto os restantes colegas abriam, ali sentados no banco, os sacos dos lanches, um de nós punha-se à frente dos outros e, de pé, lançava um tema para discussão entre todos. Quantas vezes deitámos o Mundo abaixo e o reconstruímos outra vez!

Este banco foi Ágora, foi MIT, foi assembleia de cátedra sapientíssima. É verdade, foi mesmo o Centro do Mundo! Não tínhamos dúvida nenhuma que éramos as pessoas mais esclarecidas do Planeta. Aprendíamos, a cada tarde que passava, a confiar mais e mais nos nossos pensamentos e no poder de produzirmos conhecimentos: é que apercebíamo-nos da atenção que os outros davam ao que dizíamos quando nos calhava a vez de estar de pé, voltados para os outros todos. E se todos, concordando ou discordando do que dizíamos, discutiam o que apresentávamos, era porque isso tinha valor, era porque isso era sabedoria. E no respeito que os outros tinham pelas nossas palavras e pelas nossas ideias, aos poucos fomos consolidando o respeito de nós para nós próprios, naquilo que dizíamos e naquilo que pensávamos.

Sentei-me hoje no banco outra vez - quarenta anos depois! - e geri como pude o avassalamento de emoções fortes, de memórias saudosas e o infinito prazer da certeza que um dia ainda nos juntaremos todos. Creio até que já nem faltará muito tempo!…

Próximo apontamento: 22 de Abril de 2007

Posted by Fernando at 21:09:51 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, April 25, 2006

O colega… Estaline

Foi no ano lectivo 1974/75. Foi na Escola Secundária Patrício Prazeres. Estava-se em pleno período de ebulição a seguir ao 25 de Abril. Num dia de aulas qualquer, se calhar, no dia em que fazia anos a morte de José Estaline, e à semelhança de tantos outros dias assim evocativos, lá fomos todos, quase de rebolão, para o ginásio da Escola, para mais uma RGA (reunião geral de alunos). A determinada altura, um dos estudantes líderes da reunião propôs que guardássemos um minuto de silêncio em memória da morte de Estaline. Estávamos ainda todos de braço no ar, de punho cerrado, o minuto ainda não tinha acabado. Baixinho, para não ser ouvida por mais ninguém, uma aluna da escola voltou-se para mim, quase encostou a boca ao meu ouvido e perguntou-me: “Conhecias o aluno que morreu?…” Afastei a minha cabeça de maneira a poder ver bem o rosto dessa colega desconhecida e respondi-lhe, sério por fora e divertido por dentro: “Não colega, nem sei em que ano andava…”
Posted by Fernando at 17:10:10 | Permalink | No Comments »