A insistência, hoje renovada, do Paulo V., para que lhe fizesse chegar às mãos as fotografias da actividade - meia visita de estudo, meia de férias – de há 3 anos atrás, em Alcoutim, levou a que me pusesse a remexer nos álbuns e envelopes de fotografias, coisas sempre muito desarrumadas, pelo menos em minha casa.
Acidentalmente, acabei por encontrar o álbum das fotografias da tropa, que tive a curiosidade de rever, dado que na semana passada me reencontrei, após mais de 20 anos sem darmos sinal de vida um ao outro, o João Lopes, camarada de armas na altura e actualmente professor na Universidade do Minho.
São coisas fascinantes, as memórias. Pensar que, em tão curto espaço de tempo, nos últimos dias, tive de recorrer também à memória dos tempos da tropa, para poder situar com mais precisão a história do Fernando Paixão. E outras, que se agarraram como cerejas, uma, mais uma, mais uma… Coisas de coincidências ou não, pois sim, que sejam, ou que deixem de ser. A gente, adiante.
A minha guerra foi já uma guerra civilizada, durava das oito da manhã de segunda às duas da tarde de sexta-feira. Aos fins-de-semana, exceptuando um serviço à unidade de tempos a tempos, era cidadão civil outra vez.
Por essa altura eu tinha uma participação importante num movimento social, a nível nacional, ligado à criação de escolas de ensino especial. Volta e meia, os fins-de-semana levavam-me para fora de Lisboa, para reuniões de trabalho, sempre com uma envolvente política muito evidente, em resultado da participação cívica de cidadãos empenhados, “que sentiam na pele” os problemas das crianças que tinham necessidades educativas especiais.
Já depois da recruta e da especialidade feitas, já oficial de Psicologia Militar, calhou que uma dessas reuniões acontecesse em Tróia. De uma das escolas que se tinham juntado ao movimento havia pouco tempo, pediu a palavra, a certa altura, uma jovem educadora de infância. Ela já tinha dado pela minha presença, porque eu já pedira a palavra duas ou três intervenções antes. Na intervenção que a moça fez, os seus olhos parecia que se prendiam nos meus, e os meus, pouco a pouco, deixaram se de ser capazes de olhar para outros que não os dela. Pelas janelas coladas ao tecto do salão transformado em sala de reuniões entrava a luz intensa do sol que espalhava uma aura dourada difusa que conferia mistério e encanto aos movimentos que moldavam as palavras sérias e lentas que continuou a dizer por mais algum tempo.
Assim que a ordem de trabalhos do dia acabou e a formalidade dos actos sociais subsequentes permitiu, os olhos de ambos levaram-nos para onde as emoções e os corpos pediam que os levassem e deixaram que acontecesse o que era de acontecer.
No álbum que agora revisitei deixei escrito o seguinte: “(…) na volta ao quartel, trouxe inspiração para estes versos:
Foste um dia o meu poema.
Vinhas sem leme e sem lema,
Deste à praia em doura bóia,
Brotavas espuma em fina taça…
Tomei-te… foi em Tróia…
Foste o sol da minha graça.”
Forçámos as nossas ocupações para nos encontrarmos novamente, já em Lisboa, antes do fim-de-semana seguinte. Quando foi tempo de se dizerem outra vez palavras, elas disseram o que lhes cabia dizer e puseram fim ao turbilhão apetitoso dos sentidos que tinha tomado conta de nós alguns dias antes. A educadora estreante das reuniões de pessoas política e socialmente empenhadas ia casar. Na semana seguinte.
Teria bastado, no encontro inesperado surgido no coração da reunião formal, que a ordem tivesse sido diferente, isto é, que as palavras tivessem tido a primazia, que os sentidos despertados não teriam revelado qualquer expressão. Por isso, as nossas últimas palavras foram ditas para saudar que elas tivessem tardado tanto.
Lembrei-me dos versos. A espuma, assim como se faz, assim se desfaz. A onda traz agora o que logo a seguir leva outra vez. Por um momento, portanto, no momento de escrever aqueles versos, as palavras estiveram ao serviço dos sentidos.