Sunday, December 24, 2006

De um conto de Natal

Não resisto a pôr aqui um pedaço de um conto de Natal, escrito por Saramago, antologiado por Vasco Graça Moura,

Diz assim:

Um dia uma Professora teve uma ideia de Professora e mandou aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Claro está que não empregou esta linguagem, o que disse foi: “Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam segunda-feira”. [...] Os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. [...] A Professora segura um desenho nas mãos, um desenho que não é melhor, nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está confusa, perturbada: o desenho mostra a invariável manjedoura, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena já sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?

“Porquê?” pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A Menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu”. Fez-se silêncio e a Professora pensou, assim o veio a contar mais tarde; “À Lua já chegámos, mas quando e como conseguiremos chegar ao espírito de uma criança que pintou a neve preta porque a mãe lhe morreu?”

Este é o outro lado do Natal, o lado do conforto. O conforto que desejamos para nós e o conforto que nos angustia saber haver crianças que o não têm. E que outros que um dia foram crianças também o não têm.

O conforto que gostamos de ver lado a lado com a alegria.

Posted by Fernando at 16:33:21 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, September 13, 2006

Luís Catarino, uma bênção da vida

O Luís encontrou na Sabedoria do Silêncio o modo de viver, na mais profunda intimidade pessoal, a inexorabilidade da sua condição vital, feita de intenso e recorrente sofrimento, a partir de certa altura da sua vida.

Era no silêncio que ele se recolhia. Recolhia e sofria, aguentando o corpo e fortalecendo a alma. Era também com o silêncio sobre a condição da sua saúde física que ele fazia a magia da alegria, da bondade e da tranquilidade quando se estava junto dele.

Perdi um amigo. Irreparavelmente. Ganhei um farol, que irradia a mais bela de todas as luzes, a iluminar o caminho da estranha religiosidade que pratico.
A mim cabe reduzir-me humildemente à dimensão da minha insignificância. Ao Luís caberá fruir o muito merecido repouso e a muito merecida paz.

É com uma sabedoria-sabor muito especial que recordo e repito os versos daquele menino abandonado pelo lado feliz da vida, versos que o menino leu, também no mais profundo silêncio, no dia do Pai de há alguns anos atrás, junto à campa de seu pai, e que - disse eu atrás neste blogue - um dia haveria de deixar escritos aqui.

Penso que é este o momento de o fazer.

Meu pai, meu paizinho,
Se te tiver ofendido,
Se me puderes perdoar,
Fico muito agradecido.
E, neste dia,
Se quiseres ouvir uma cançãozinha,
Deixa, deita-te e descansa,
Que eu sento-me aqui a teu lado
E canto-te baixinho.

Pois bem, o menino que escreveu estes versos foi um dos muitos que eu pude testemunhar se tornaram felizes por causa da bondade do Luís. O Luís conheceu estes versos mais ou menos na altura em que foram escritos. Deixei-lhos no consultório, um dia qualquer, misturados com outros relatos de outros meninos, que também tiveram a felicidade de conhecer a pessoa e o dom do Luís.

No que a mim me diz respeito, tenho vontade de me sentar muitas vezes a teu lado, Luís, cantar-te baixinho e fortalecer-me na tua luz. 

Posted by Fernando at 19:21:14 | Permalink | Comments (7)

Saturday, July 22, 2006

Ninfa veio, ninfa foi…

A insistência, hoje renovada, do Paulo V., para que lhe fizesse chegar às mãos as fotografias da actividade - meia visita de estudo, meia de férias – de há 3 anos atrás, em Alcoutim, levou a que me pusesse a remexer nos álbuns e envelopes de fotografias, coisas sempre muito desarrumadas, pelo menos em minha casa.

 

Acidentalmente, acabei por encontrar o álbum das fotografias da tropa, que tive a curiosidade de rever, dado que na semana passada me reencontrei, após mais de 20 anos sem darmos sinal de vida um ao outro, o João Lopes, camarada de armas na altura e actualmente professor na Universidade do Minho.

 

São coisas fascinantes, as memórias. Pensar que, em tão curto espaço de tempo, nos últimos dias, tive de recorrer também à memória dos tempos da tropa, para poder situar com mais precisão a história do Fernando Paixão. E outras, que se agarraram como cerejas,  uma, mais uma, mais uma… Coisas de coincidências ou não, pois sim, que sejam, ou que deixem de ser. A gente, adiante.

 

A minha guerra foi já uma guerra civilizada, durava das oito da manhã de segunda às duas da tarde de sexta-feira. Aos fins-de-semana, exceptuando um serviço à unidade de tempos a tempos, era cidadão civil outra vez.

Por essa altura eu tinha uma participação importante num movimento social, a nível nacional, ligado à criação de escolas de ensino especial. Volta e meia, os fins-de-semana levavam-me para fora de Lisboa, para reuniões de trabalho, sempre com uma envolvente política muito evidente, em resultado da participação cívica de cidadãos empenhados, “que sentiam na pele” os problemas das crianças que tinham necessidades educativas especiais.

 

Já depois da recruta e da especialidade feitas, já oficial de Psicologia Militar, calhou que uma dessas reuniões acontecesse em Tróia. De uma das escolas que se tinham juntado ao movimento havia pouco tempo, pediu a palavra, a certa altura, uma jovem educadora de infância. Ela já tinha dado pela minha presença, porque eu já pedira a palavra duas ou três intervenções antes. Na intervenção que a moça fez, os seus olhos parecia que se prendiam nos meus, e os meus, pouco a pouco, deixaram se de ser capazes de olhar para outros que não os dela. Pelas janelas coladas ao tecto do salão transformado em sala de reuniões entrava a luz intensa do sol que espalhava uma aura dourada difusa que conferia mistério e encanto aos movimentos que moldavam as palavras sérias e lentas que continuou a dizer por mais algum tempo.

 

Assim que a ordem de trabalhos do dia acabou e a formalidade dos actos sociais subsequentes permitiu, os olhos de ambos levaram-nos para onde as emoções e os corpos pediam que os levassem e deixaram que acontecesse o que era de acontecer.

 

No álbum que agora revisitei deixei escrito o seguinte: “(…) na volta ao quartel, trouxe inspiração para estes versos:

Foste um dia o meu poema.

Vinhas sem leme e sem lema,

Deste à praia em doura bóia,

Brotavas espuma em fina taça…

Tomei-te… foi em Tróia…

Foste o sol da minha graça.”

Forçámos as nossas ocupações para nos encontrarmos novamente, já em Lisboa, antes do fim-de-semana seguinte. Quando foi tempo de se dizerem outra vez palavras, elas disseram o que lhes cabia dizer e puseram fim ao turbilhão apetitoso dos sentidos que tinha tomado conta de nós alguns dias antes. A educadora estreante das reuniões de pessoas política e socialmente empenhadas ia casar. Na semana seguinte.

 

Teria bastado, no encontro inesperado surgido no coração da reunião formal, que a ordem tivesse sido diferente, isto é, que as palavras tivessem tido a primazia, que os sentidos despertados não teriam revelado qualquer expressão. Por isso, as nossas últimas palavras foram ditas para saudar que elas tivessem tardado tanto.

 

Lembrei-me dos versos. A espuma, assim como se faz, assim se desfaz. A onda traz agora o que logo a seguir leva outra vez. Por um momento, portanto, no momento de escrever aqueles versos, as palavras estiveram ao serviço dos sentidos.

Posted by Fernando at 00:02:16 | Permalink | No Comments »

Wednesday, July 12, 2006

A caminho de Braga, com Paixão…

Há acontecimentos, há pedaços de vida que não cabem nas palavras, por mais que elas sejam. Que não cabem por mais extensas e poderosas que as palavras sejam. Há pedaços de vida que ficarão sempre insuficientemente contados, mas há alguns que ficarão mais insuficientemente contados do que outros.

 

Vim hoje a Braga, para um encontro científico. Já com meia bagagem do lado de fora da porta, peguei à pressa numa quantidade de cd’s que pareciam fazer-se convidados à viagem, ali bem à bordinha de umas das prateleiras da última estante da sala antes de sair de casa e, antes de me pôr a caminho, renovei praticamente na totalidade os cd’s da caixa do porta-bagagem do automóvel.

Já em viagem, conduzindo parecia que em piloto automático, com o pensamento deambulando quase inconscientemente por cima do próprio pensamento, sou de repente tomado por um baque e, instintivamente, desvio o olhar da estrada para o mostrador do rádio-cd, que acabava de atirar para as colunas de som a batida forte do tema “Paixão” dos “velhos” Heróis do Mar.

 

Não há vez nenhuma que a audição desta batida não me traga a lembrança da história de vida que a ele ficou ligada, que me tornou um pouco mais pessoa, e que ainda hoje recordo com a mesmíssima intensidade emocional de então.

 

É uma história muito bonita, que precisa das palavras certas para ser contada. Vou tentar fazê-lo, certo, desde já, que não cabe no espaço deste blogue, em que algumas das histórias que aqui contei desafiam já o limite adequado do que aqui deve ser dito e partilhado.

 

É uma história de paixão - paixão mesmo! - o que aconteceu por alturas em que este tema musical apareceu. Sem ele, a história já teria um grande significado para mim. Com ele, parece que alguma coisa que manda que a vida aconteça foi de ideia que seria bonito trazer-lhe um elemento harmonizador, onde se sentisse o pulsar forte da batida da vida.

 

A história está contada num texto a que um “link” permitirá o acesso. Mas quero pedir a quem tiver curiosidade de a ler, que, antes de o fazer, deixe correr a sua imaginação e tente adivinhar qual possa ser o seu conteúdo, o seu tema.

 

Façam isso, por favor! Só depois leiam a história. No fim de a lerem, recordem a história que antes imaginaram. Talvez acabem por ficar com outra história bonita para contar: no vosso blogue, ou neste, como desafiei desde a primeira hora que pudesse vir a ser feito.

 

O meu computador portátil tem o ecrã estragado. Felizmente, o computador alheio que um amigo meu me emprestou dispensou-me da necessidade de registar primeiramente a história no papel. Mesmo que a meia mesa que o pequeno quarto da residencial em que estou agora quase não dê sequer para o poisar em boa estabilidade.

 


 Ligação a HISTÓRIA DE PAIXÃO

Posted by Fernando at 23:50:35 | Permalink | Comments (6)

Saturday, April 29, 2006

Amoras em Roupa Lavada

Ontem ao fim da tarde sentia-me cansadíssimo. Tão cansado que, assim que acabou a última aula da tarde, antecipei com redobrada satisfação a ocasião de um jantar de conversa com um bom amigo. Optámos por ir comer grelhados e ele insistiu que fosse eu a escolher o vinho. A lista era enorme e os preços de alguns eram elevadíssimos. Optei por um que me despertou curiosidade porque não o conhecia e provinha de uma região que me trazia recordações agradáveis, a região de Armamar. E o preço era razoável.


 

A minha escolha deixou o empregado que recolheu o nosso pedido visivelmente satisfeito, e fez questão de no-lo dizer: aquele vinho era da região dele, ele era de Armamar.

Nessa altura dei mais atenção ao rapaz e reparei que ele era muito jovem. Na breve conversa que um restaurante cheio de clientes à hora do jantar permite, trocámos reconhecimentos de sítios que nos eram familiares: Goujoim, Gojim, Travanca…

 

Talvez tenha sido o sorriso do rapaz que me trouxe à lembrança o Fernando, meu homónimo, rapazinho de família bem modesta que eu conheci em Goujoim há muitos anos. Eram muitas crianças juntas, todas pequenas, entre irmãos, primos e sobrinhos; com alguns destes mais velhos que os próprios tios. O Fernando, sem o saber, acabou por tornar-se o autor de uma das mais deliciosas memórias de vida que tenho.

 

Foi assim: eu tinha chegado a Goujoim na noite do dia anterior, um dia do Verão de 77, talvez 78. Tão tarde que foi praticamente chegar, cumprimentar a tia Adosinda (o vinho que pedimos chamava-se Ardosindo), que se mantivera de pé para nos receber, e deitar-me.

 

Nessa noite, dormi tão consoladoramente que, ao contrário do que é habitual, não dei conta de nada que se estivesse a passar à minha volta. Entretanto, se normalmente acordo com o sol, aquele dia não foi excepção. Contudo, também ao contrário do que é habitual, na aparência do meu comportamento físico só os olhos acordaram, o resto do corpo não se contorceu nos vulgares movimentos de espreguiçamento matinal e parecia que se mantinha a dormir. E mesmo os olhos acordaram tão lentamente que o Fernando, que estava sentado ali à minha cabeceira, não deu conta. Ele estava de corpo bem voltado para mim, a cerca de um metro de distância, mas, naquele momento, olhava pela janela fora, talvez a ver as movimentações de alguém da família, que morava logo ali a seguir. Não sei porquê, “instintivamente” cerrei outra vez os olhos, tão devagar quanto pude, porque não queria que ele “ouvisse” o barulho dos olhos a cerrarem. Cerrei o suficiente para que ele não se apercebesse de que eu tinha acordado, mas que me permitisse manter uma visão nítida do rapaz.

 

Aos poucos dei-me, então, conta de que ele já tinha tomado banho nessa manhã e que tinha vestido roupa lavada, da cabeça aos pés. A t-shirt era de um verde-limão e estava toda tingida de gotas de rosa forte, gotas iguais à do vinho que escolhi para o jantar. Nas mãos ele segurava um saco de plástico verde-azeitona. As mãos tinham também a cor do vinho.

 

Deixei-me ficar ali, fingidamente adormecido, a apreciar aquele quadro vivo. Vi-o suspirar profundamente, mas silenciosamente, não fosse ele acordar-me. Eu sentia-me bem a vê-lo limpo e tingido, a cheirar a lavado. Pela janela entrava o aroma agradável da manhã na aldeia. Havia ainda um outro aroma, intenso, doce, que, pouco depois, me apercebi que vinha de dentro do saco que o Fernando segurava nas mãos.

 

Finalmente os nossos olhares cruzaram-se. O Fernando fez um sorriso tão grande que a pele da cara se engelhou toda e só a testa acentuou o brilho, quase espelhando nela o sol que entrava pela janela. Era o sorriso do rapaz a quem pedi o vinho, amplificado mil vezes. “Tome, são para si…” disse o Fernando estendendo-me o saco que tinha nas mãos. Puxei-me para cima na cama, sentei-me e aceitei o saco.

 

Estava abundantemente fornecido de amoras prenhas de suco tinto. “Coma, insistiu o Fernando, fui apanhá-las agora.” Sim, eu não tinha quaisquer dúvidas de que ele tinha acabado de as apanhar! Até consegui lembra-me da amoreira em que ele fizera isso. Tínhamos conversado os dois ao pé dela, no Verão do outro ano. Comi 2 ou 3 amoras e convidei-o a que comesse algumas comigo. “Não, essas são todas para si… Eu depois vou apanhar mais para mim…” Continuei a olhar para ele. O sorriso mantinha toda a intensidade. Olhei para dentro do saco e comi mais algumas amoras. Era evidente que naquele momento estávamos os dois muito felizes.

 

Contei esta história ontem à noite ao Rodrigo, ao jantar, a saborear o vinho, antes de a escrever hoje.

Posted by Fernando at 17:12:40 | Permalink | Comments (1) »