Thursday, August 10, 2006

A metáfora de Thomas Mann

Por causa da maneira como as circunstâncias se cruzam, um dia vê-se o que noutros dias olhámos e não vimos que estava lá. Foi o que me aconteceu hoje.

 

Há anos atrás conheci o R. numa escola de ensino especial, tinha ele a idade que o filho mais velho dele tem agora. Com argumentos buscados no credo religioso, os pais recusavam ao filho a operação ao lábio leporino.

 

Ao fim de anos de perseverança, consegui que o R. fizesse a correcção cirúrgica que se justificava. Fui com ele para a sala da cirurgia, tanto na primeira, como na segunda intervenção. A primeira foi a decisiva. O R. foi anestesiado mesmo antes de entrar na sala de operações. À medida que ele adormecia, assim ele apertava com mais força o meu braço. E eu devolvia-lhe um sorriso cada vez mais intensificado.

 

Há pouco tempo o R. veio trabalhar como empregado de mesa para o restaurante onde os meus pais costumam almoçar ao domingo.

 

Hoje eu passei a manhã no hospital com a minha mãe, o mesmo hospital onde o R. foi operado. A minha mãe está a fazer um tratamento muito delicado à vista, por coisas que vêm com a idade. Como saímos do hospital muito tarde, não deu tempo à minha mãe de fazer o almoço, pelo que fomos comer onde é costume ir ao domingo.

 

Eu tinha pressa de me vir embora do restaurante, tinha muito trabalho à minha espera.

Deixei os meus pais nas mãos do R., que os trata com muita atenção e carinho. É mesmo um profissional muito competente.

 

Lembrei-me vagamente da metáfora das esferas de Thomas Mann, da tetralogia “José e os seus irmãos”, que põe os homens no lugar dos deuses e estes no lugar dos homens. Vou procurar essa metáfora um dia destes, quando me dispuser a contar com outro pormenor a história do R.

 

É verdade, fiquei verdadeiramente tranquilo hoje, quando deixei os meus pais velhotes entregues nas suas mãos.

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Thursday, August 3, 2006

Um carinho solidário que começou em Santarém há alguns anos

Na terça-feira passada fui às Caldas da Rainha jantar com rapaziada que conheci há alguns anos em Santarém. Não chegou a um ano escolar o tempo do trabalho que nos juntou. Mas foi tempo suficiente para uma amizade até agora muito intensa.

Ontem, de manhã, recebi no telemóvel a seguinte mensagem, do R. S.:

“No dia 1 de Agosto, ontem, num jantar de ex quartelanos, estiveram reunidos… F. P., R. S., C. (alcunha), F. (alcunha), A. (alcunha), M. da A., J. (diminuitivo) e H. Bigado a todos pela comparencia.  E também aos k mesmo nao vindo por motivos pessoais, ou nao, tentaram. Km vem é possivel juntar o pessoal, basta haver iniciativa. Faz a mensagem circular…”

Hoje de manhã, encontrei publicada na Net, num blogue de fotografias de outros dos participantes no jantar, uma das fotografias que tirámos.

A fotografia publicada tem apenso o seguinte comentário: 

“Eu e umas pessoas ke fizeram parte do meu crescimento komo pessoa.. a tds um obrigado por existirem.. :) e por fazerem parte da minha vida.. ainda ke nao façam parte do meu dia-a-dia fazem ja parte de mim.. kada um me ensinou alguma coisa..,. Mts mais jantares destes.. ke vale smp a pena.. :)”

A esse comentário juntei o seguinte:

“Ora aqui está um texto que gostaria de ter sido eu a escrever! Porque sinto exactamente o mesmo. Adorei o jantar, adorei o convívio, gosto imenso que partilhem comigo o carinho de que são capazes todos uns com os outros. Já estou a mexer-me para nova oportunidade de encontro. Um grande abraço, Fábio! Também para toda a malta!”

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Tuesday, July 25, 2006

Carta aberta ao Luís Lopes

Tenho um relacionamento muito difícil com os telefones. Sempre assim foi. Ao ponto de criar mal-estar até aos amigos que muito estimo. Ligam-me e eu não atendo. Fico de ligar e depois não o faço… Um psicólogo clínico seguramente me diagnosticaria uma qualquer forma de fobia.

O telemóvel está quase sempre no modo silêncio e, sobretudo em casa, longe de mim, esquecido no último sítio em que o pousei. Só quando consciencializo que ele permanece sem tocar há tempo a mais é que vou procurá-lo e passo uma vista de olhos pelas chamadas não atendidas e pelas mensagens recebidas. Já chegaram a atingir, entre umas e outras, um número superior a 40… no mesmo dia!

Hoje, logo pela manhã, encontrei, entre outras, uma chamada não atendida e uma mensagem do Luís Lopes. O conteúdo da mensagem era reduzido, mas, como noutras vezes, tinha o jeito das coisas que perpassam amizade e carinho.

A mensagem, que li num breve descanso que me impus na tarefa de correcção de exames de Psicologia, trouxe-me à lembrança o momento em que, dentro de mim, reconheci o Luís no estatuto de companheiro, condição afectiva que tenho atribuída a um número bem reduzido de pessoas. Por exemplo, a relação com o Fernando Paixão foi uma relação de grande intensidade, mas não foi uma relação de companheirismo. Foi de uma outra qualidade.

A minha relação com o Luís desenvolveu-se durante um tempo suficientemente grande para que se transformasse, amadurecesse e ganhasse outras dimensões. Até que o reconheci como companheiro.

Assim que a tarefa profissional que me prende agora o permitir, aqui deixarei uma carta aberta ao Luís, em que lhe direi, pela primeira vez, o momento, há alguns anos atrás, em que o acolhi no grupo muito restrito dos meus companheiros.

 

link para CARTA ABERTA AO LUÍS LOPES

 

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Saturday, June 3, 2006

Continuamos com o tapete mágico

Hoje de manhã, quando o sol nasceu, já me apanhou ao computador, a olhar o correio chegado.
Um e-mail, outro e-mail, outro… Ai, meu Deus! Até tive um sobressalto! Ainda não tinham passado 24 horas (talvez nem 12…) e já tinha ali, bem escrito à minha frente, no ecrã do computador, um e-mail para mim, assinado por Mitali Perkins!
Só poderia ter sido o tapete mágico a levar a minha carta e a trazer a resposta da escritora!

Mitali Perkins começava por me saudar e mostrar satisfação por saber que um conto seu estava a ser traduzido noutra língua para poder ser lido por outras pessoas.
A seguir, em resposta ao pedido que lhe fiz, escreveu o seguinte:


 

“Os professores e os editores livreiros desempenham um papel muito importante na ajuda às crianças imigrantes que sentem que os seus pais não conseguem ajudá-las a serem bem sucedidas, ou simplesmente sobreviverem, na cultura que os acolheu. A vossa sensibilidade de professores, a vossa hospitalidade e o vosso carinho farão a diferença, assim como a partilha de bons livros, que as ajudem a manter o seu equilíbrio pessoal.
Costumo encorajar os educadores a porem à disposição das crianças histórias que afirmem a cultura de origem dos imigrantes, histórias que não sejam apenas “politicamente correctas”, com personagens “para inglês ver”, ou personagens “verbos de encher” [as expressões entre aspas são a tradução livre, da minha responsabilidade, do termo “tokenizing”], ou que sejam simplesmente histórias com pitorescos exóticos. Isso sim, histórias que ajudem as crianças a compreender e a percorrer a vida nos seus ambientes de acolhimento, e histórias que transcendam a dimensão cultural, fazendo eco da experiência humana partilhada por todos.
Ficarei pensando em todos vós na próxima quinta-feira.”

 

Antes de ler outra vez a mensagem, olhei o Tejo, onde o Sol fazia as suas abluções matinais. Reparei que ele hoje sorria de maneira especial para mim. Pois claro! Ele já tinha percebido a minha satisfação pelo recebimento da carta. Apeteceu-me ir ter com ele. Mas acabei por me virar para o ecrã do computador e li outra vez a carta, mais devagar, com o coração a bater mais devagarinho…

 

Ah! O conto do Tapete Mágico. Podem lê-lo, na minha tradução livre, “clicando” no título que se segue: TAPETE MÁGICO.

 

Posted by Fernando at 08:06:13 | Permalink | No Comments »

Friday, June 2, 2006

Como se tivesse viajado num tapete mágico!…

Estou a preparar uma aula para dar na Faculdade, aos meus colegas de Mestrado, na cadeira de Educação Intercultural. Foi a Professora Adelina Vilas Boas que me desafiou a isto, a pretexto da minha deslocação a Pesaro, na semana passada, para apresentação de uma pequena comunicação, precisamente sobre a temática da Educação Intercultural.
Aceitei o desafio e procurei preparar a aula com todo o cuidado. A aula acontecerá na próxima quinta-feira, dia 8.

Entre outras coisas, vou propor aos meus colegas a leitura do conto de Mitali Perkins, “Magic Carpet”, que utilizei já anteriormente, em diversas acções de formação de professores e alunos.

Levado por aquela coisa que a gente não sabe bem o que é; e que nos põe a caminho ou à procura, a gente não sabe bem do quê, encontrei na Net um blogue da autora do texto e deixei nele a seguinte mensagem:

“Estou a fazer uma pós-graduação em Ciências da Educação, em Lisboa, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação. Na próxima quinta-feira vou dar uma aula sobre Educação Intercultural. O texto “gatilho” será o seu conto “Magic Carpet”.

Diga-me, o que lhe parece que seja realmente importante dizer aos meus colegas, professores tal como eu, que lidam com classes ou turmas que têm um número cada vez mais de crianças e jovens alunos imigrantes?

Obrigado pelos seus contos. Leio e releio o “Magic Carpet” e todas as vezes há sempre alguma coisa nova que me toca e sensibiliza. Traduzi livremente o texto para português.”

Confesso que estava pouco confiante em que a escritora lesse o comentário e lhe desse importância. E que o fizesse em tempo útil. Mas enganei-me, para grande satisfação minha!

Posted by Fernando at 17:59:00 | Permalink | No Comments »