A metáfora de Thomas Mann
Por causa da maneira como as circunstâncias se cruzam, um dia vê-se o que noutros dias olhámos e não vimos que estava lá. Foi o que me aconteceu hoje.
Há anos atrás conheci o R. numa escola de ensino especial, tinha ele a idade que o filho mais velho dele tem agora. Com argumentos buscados no credo religioso, os pais recusavam ao filho a operação ao lábio leporino.
Ao fim de anos de perseverança, consegui que o R. fizesse a correcção cirúrgica que se justificava. Fui com ele para a sala da cirurgia, tanto na primeira, como na segunda intervenção. A primeira foi a decisiva. O R. foi anestesiado mesmo antes de entrar na sala de operações. À medida que ele adormecia, assim ele apertava com mais força o meu braço. E eu devolvia-lhe um sorriso cada vez mais intensificado.
Há pouco tempo o R. veio trabalhar como empregado de mesa para o restaurante onde os meus pais costumam almoçar ao domingo.
Hoje eu passei a manhã no hospital com a minha mãe, o mesmo hospital onde o R. foi operado. A minha mãe está a fazer um tratamento muito delicado à vista, por coisas que vêm com a idade. Como saímos do hospital muito tarde, não deu tempo à minha mãe de fazer o almoço, pelo que fomos comer onde é costume ir ao domingo.
Eu tinha pressa de me vir embora do restaurante, tinha muito trabalho à minha espera.
Deixei os meus pais nas mãos do R., que os trata com muita atenção e carinho. É mesmo um profissional muito competente.
Lembrei-me vagamente da metáfora das esferas de Thomas Mann, da tetralogia “José e os seus irmãos”, que põe os homens no lugar dos deuses e estes no lugar dos homens. Vou procurar essa metáfora um dia destes, quando me dispuser a contar com outro pormenor a história do R.
É verdade, fiquei verdadeiramente tranquilo hoje, quando deixei os meus pais velhotes entregues nas suas mãos.

