Saturday, April 25, 2009

“25 de Abril, sempre!” edição de 2009

Ontem participei, na Escola, na palestra que algumas colegas do Grupo de História (a Eulália Andrade, a Paula Faia e a Cristina Kirkby) organizaram para lembrar e celebrar o 25 de Abril. Essencialmente, alguns professores da Escola, desfiaram lembranças pessoais desse dia e dessa época.

No meu caso, não quis deixar de destacar a grande alegria, a paz, a tranquilidade que o dia me trouxe:
O meu pai, sargento do Exército Português, fez praticamente a guerra toda. De 1961 a 1974, os anos todos da guerra no Ultramar, raramente ele esteve estavelmente na companhia da esposa e dos filhos. Foi muito mais o tempo de estar em Angola e Moçambique em comissões militares do que na Metrópole, junto da família. 
Como muitas famílias portuguesas, nós - a minha mãe, os meus irmãos e eu próprio - tivemos que nos habituar a viver permanentemente com a tensão do que se passava em África, especialmente na província ultramarina em que o 1.º-sargento Pinto se encontrava.
Lembro-me de, por volta dos 14 anos, fazer repetidamente as contas ao tempo da minha vida que tinha sido passado com pai e mãe; e irmãos. E nunca gostei do resultado dessas contas! Por mais voltas que desse, por mais pequenas ocasiões que aproveitasse, nunca consegui que fosse dominante o tempo de estarmos todos juntos!
A dedicação da minha mãe à troca de correspondência e à marcação diária das cruzinhas (uma por cada dia que passava, a reduzir o espaço branco - enorme! - dos dias que faltavam para o dia do regresso, são e salvo) era observada com discrição e alguma distância por mim e os meus irmãos. Eles - pai e mãe - sempre procuraram poupar-nos ao conhecimento de factos, de horrores vividos ou presenciados, cuja realidade os filhos deduziam apenas quando observavam a mãe sentada à escrevaninha  a reagir com lágrimas - tantas vezes de aflição! - às palavras que dias antes o marido tinha decidido confidenciar-lhe ou partilhar.
Lembro-me perfeitamente que nesse dia, no 25 de Abril de 1974, a certa altura fui tomado pela certeza, indefinidamente saborosa, de que o meu pai não voltaria à guerra em África!
Os 10 de Junho, que começámos a seguir na televisão, eram, em nossa casa, dias terríveis. Quantas vezes a nossa mãe nos contagiou com a reacção que as imagens de viúvas e órfãos-crianças; de soldados estorpiados; de velhos pais, órfãos, também, dos seus próprios filhos, despertavam nela, tão forte seria a identificação que faria a esses dramas pessoais e familiares, o espectro da possibilidade de a mesma tragédia um dia poder tocar-nos na pele.
Lembro-me de um dia - creio que o único dia! - em que o meu pai foi à escola dos Quinchosos falar com o meu professor, o professor Virgílio. O orgulho e a satisfação que tive nesse dia! A causa era, outra vez e sempre, a guerra, que não deixava oportunidades para que o que aconteceu naquele dia na escola - e me deixou tão feliz - acontecesse mais vezes.
Pois é… que saborosa aquela certeza que o 25 de Abril me deu!
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Sunday, March 8, 2009

Lembrar o Tibete, o sofrimento das suas crianças

Quando se almoça sozinho, dá-se mais atenção ao que passa na televisão. É habitual nas nossas casas haver uma televisão a jeito de quem se senta à mesa a comer.

Quando liguei a minha televisão, sintonizei-a na SIC Notícias, que começava a passar um documentário sobre as crianças do Tibete.
O documentário está muito bem feito, mostra o sofrimento, a esperança, o cuidado pessoal do Daila Lama, a defesa da luta não violenta; e a insistência na contenção do ódio. “Tibete - crianças no exílio”.
Muitos pais tibetanos pagam a passadores para que levem os seus filhos para Dharamsala, na Índia. Pagam, em média, pelos serviços incertos dos passadores, à volta de 700 euros, o correspondente a dois anos de trabalho. Atrás do sonho da liberdade e da educação na escola. De um futuro bem melhor.
Os repórteres queriam seguir o percurso das crianças, desde que saem de ao pé dos seus pais até que iniciam a sua vida junto da comunidade tibetana que os recebe na cidade indiana. Chegaram-se de máquina de filmar e de microfone em punho à casa que acolhe estas crianças, foram junto de um rapazinho e perguntaram-lhe se ele tinha chorado quando deixou os pais.
É claro que reagi imediatamente a esta pergunta quase perversa, quase obscena! Como se eles não soubessem o que iria na amálgama de afectos e emoções sofridos que seguramente preencheriam naquele instante toda a vida da criança. O rapazinho teria à volta de uns 10 anos.
Ele largou o sorriso que até ali mostrara, a expressão do rosto (no olhar ziguezagueante, nos trejeitos dos pequenos e diversos músculos faciais e nos movimentos repentinos e desconexos, quase imperceptíveis, do pescoço) a denunciar o turbilhão emocional profundamente sofrido que o avassalava, e mentiu com a nobreza que o recato e o respeito pela intimidade pessoal e familiar reclamam:
- Não… não chorei…
Nesta altura quem tinha os olhos já completamente marejados de lágrimas era eu!…
Mas a malvadez inconsciente do repórter (Bem-hajam os repórteres que nos trouxeram um documentário assim!, é o paradoxo destas coisas…) quis espetar a faca um pouco mais fundo ainda e desferiu outra pergunta:
- Mas não tens saudades dos teus pais?…
Aparentemente a criança não teria saída, desta vez: humanamente, é impossível que uma criança, compulsivamente afastada dos pais que ama e que a amam, não tenha saudades dos próprios progenitores; moralmente, todos os filhos devem gostar e ter saudades dos seus pais. A câmara do técnico de som fazia agora companhia ao silêncio da repórter e esperava avidamente pelas primeiras lágrimas da criança. A intensidade dramática da reportagem assim exigia: lágrimas, já!
Olhos postos na criança, todos pudemos voltar a ver os mesmos sinais de vertigem emocional. Mas mais rapidamente ainda que perante a pergunta anterior, a criança, aquele rapazinho admirável, fixou os seus olhos nos olhos da repórter, sorriu-lhe e deixou sair de si as seguintes palavras, medidas e soltadas pausadamente, claramente; muito firmemente:
- Eu não quero ter saudades dos meus pais…
Manteve os olhos fixados nos da repórter como que a dizer: Vê se entendes onde é que eu quero chegar, o que é que eu te estou a dizer. Já muito os meus pais e eu sofremos para que eu chegasse aqui sem eles; e tu me pudesses estar a fazer estas perguntas. Agradeço-te a tua preocupação, mas, por favor, não me obrigues a mostrar e a manter aberta a ferida que nos faz sofrer tanto.
Alguns meses depois o mesmo repórter perguntou ao mesmo rapazinho o que queria ele fazer no futuro. Ele respondeu-lhe que queria estudar durante dez anos e depois voltar para ao pé dos pais.
Que lição, senhores, que lição de vida!…
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Friday, December 26, 2008

Cardeal Patriarca de Lisboa apela ao entendimento na Educação

O Público destacou ontem o seguinte, na edição on line do jornal:

Cardeal Patriarca de Lisboa apela ao entendimento na Educação 

25.12.2008 - 16h32 Lusa

O Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, apelou ontem a um entendimento entre professores e tutela, considerando que a educação das crianças e jovens não pode ser alvo de batalhas políticas ou sindicais.

Na sua mensagem de Natal, D. José da Cruz Policarpo classifica a missão dos professores e formadores “como decisiva para o futuro de Portugal” e faz referência aos últimos acontecimentos na área da educação marcados por um conflito entre docentes e Ministério da Educação relativamente ao modelo de avaliação do desempenho.

“Que ninguém ouse transformar este sofrimento em simples arma de luta política, porque na batalha da educação os únicos vencedores têm de ser os vossos filhos”, referiu D. José Policarpo.

Para as crianças e jovens, adianta o Cardeal Patriarca de Lisboa, “esta batalha não é política ou sindical: é a batalha da vida, que eles só vencerão com a generosidade, a competência e a coragem de todos nós”.

Na sua mensagem de Natal intitulada “O Natal é a vitória da vida e da esperança”, D. José Policarpo afirma que neste dia tem particularmente no coração aqueles que sofrem, pelo que dedica também umas palavras às famílias com dificuldades económicas, “agravadas com a situação que o mundo está a viver”.

“Também aí é preciso deixar reacender a esperança, perceber que viver é lutar”, referiu o dignitário da Igreja Católica.

Em crises deste género, adiantou, os que por elas são atingidos não podem considerar-se apenas vítimas, mas protagonistas da solução.

“Abramos o coração à solidariedade, estejamos atentos ao nosso próximo, isto é, ao nosso vizinho. E se as dificuldades exigirem de nós austeridade, saibamos que ela pode ser convite à coragem e experiência de liberdade”, disse.

Na sua mensagem de Natal, o religioso faz ainda referência aos doentes, sobretudo àqueles para quem o sofrimento “se torna tão pesado que lhes tira a alegria de viver”. “Alguns desistem mesmo de viver e suplicam que os ajudem a morrer” referiu o Cardeal Patriarca, que, numa alusão à prática da eutanásia, adianta que “ninguém tem o direito de ajudar os outros a morrer”.

 

No espaço disponibilizado pelo jornal, deixei o seguinte comentário:

 

Do meu ponto de vista, o Cardeal Patriarca de Lisboa disse mais, parece-me que o Público não destaca o essencial. O Senhor Cardeal destaca, nas suas palavras, ditas sob o signo do sofrimento libertador, imitado no Filho de Deus feito Homem, os doentes, as famílias em dificuldades e os professores. Pessoalmente, agrada-me muito que o Senhor Cardeal tenha chamado a atenção de todos para esta dimensão do sofrimento fundamental, libertador, a que se liga a função do professor. Por ele, por esse sofrimento fundamental, passa, nas imensas condições adversas em que os professores exercem hoje em dia o seu papel, a generosidade, a competência e a coragem que também são deles, dos professores. Salienta, finalmente, o Senhor Cardeal Patriarca, que a batalha da Educação é a batalha da vida; não é uma batalha qualquer: é vida e é batalha, não é um “fait divers”. Só mais uma palavra. A fonte do sofrimento é o amor pelo próximo. As palavras não são minhas, são do Senhor Cardeal Patriarca.

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Friday, December 12, 2008

O bispo do Porto e os professores

Excerto da entrevista do bispo do Porto, D. Manuel Clemente, à Visão (n.º 823, 11 a 17 de Dezembro de 2008)

No conflito entre professores e ministra da Educação ainda haverá espaço para o bom-senso?

Tem de haver. As partes envolvidas têm de pensar no bem dos alunos. É para isso que existe a escola.

Em que medida tudo isto não é uma consequência da desvalorização do papel do professor?

Eles queixam-se disso. E uma coisa é factual: o papel que o professor tinha como transmissor de uma cultura e garantia dos alunos está esbatido. Há um esvaziamento do seu papel social. Os professores devem ser constantemente estimulados pelo Governo e pela sociedade. E isso é uma batalha a longo prazo.

Pela minha parte, por agora, nenhum comentário. Para todos pensarmos.

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Wednesday, November 19, 2008

Carta aberta ao Professor Vital Moreira

Sr. Provedor,
A publicação, na edição do Público de ontem, dia 18 de Novembro, na secção “Espaçopúblico”, de um artigo de opinião do Professor Vital Moreira, sob o título “Uma reforma que não pode ser perdida”, na página 41, merece da minha parte, professor do ensino secundário público, um comentário que a seguir exponho e que peço seja publicado no jornal. Obrigado!

Senhor Professor Vital Moreira,

               Ainda nos anos 80, depois de ter concluído a licenciatura em Psicologia, recebi um convite irrecusável de uma universidade americana que me abria as portas de uma carreira universitária muito promissora, convite “irrecusável” que recusei.
               Levei algum tempo a decidir-me, longas conversas sobre este assunto mantive com o dr. João dos Santos, que algumas vezes me convidou a sentar-me ao seu lado, ali nos “cadeirões dos sábios”, como ele dizia, na sua casa de Sintra. Entre outras coisas, ele alertou-me: “Fernando, há oportunidades que só surgem uma vez na vida, mas cada um de nós é que tem de saber por qual optar, tentando ter claras para si todas as consequências que da escolha advirão. E são consequências pessoais, profissionais e de cidadania”. Como já disse, recusei o convite irrecusável. Educadamente, bem entendido.
               Hoje, depois de ler o seu artigo de opinião no Público, assinado (provavelmente a responsabilidade não é sua) como “Professor universitário”, rememorei o convite e as conversas com o dr. João dos Santos e senti-me a renovar a satisfação pela opção de abraçar o ensino secundário.
               Sabe, Professor, o senhor tem sido, de há muitos anos a esta parte, uma das minhas mais importantes referências políticas e de participação cívica; e não deixará certamente de o ser depois desta carta.
               Errar é humano. Vale para si e vale para mim.
               O que eu disse sobre o convite americano não me confere competência especial, nem sequer legitimidade para opinar e comentar as suas opiniões acerca do tema central do seu artigo e deste meu contraponto: o processo actual de avaliação dos professores portugueses no ensino secundário.
               Conhece certamente a já clássica afirmação de Ortega e Gasset, “Eu sou eu e a minha circunstância”. O “episódio” que comecei por apresentar pretende apenas alguma coisa dizer sobre a circunstância histórica e de desenvolvimento pessoal que me leva a escrever o que a seguir vai encontrar.
               Os tempos que correm não são de feição para os textos longos, doutrinários ou outra coisa que sejam. Querem-se (diz-se – alguém diz – que é assim que a opinião pública os quer) “concisos”, “directos”, que vão logo ao fundo das questões.
               Vou tentar fazer assim.
               E parto destas premissas: há bons e maus professores. A grande maioria, são professores bons, com vontade de fazerem cada vez melhor. E, desta maneira, não somos melhores, nem piores que qualquer outro grupo profissional.
               A primeira ideia com que fiquei do seu texto foi que se espraiava fundamentalmente em considerações ou aspectos ideológicos; mas agora já hesito se não predominarão as considerações e os aspectos puramente afectivos.
               No meu pensamento – humano, por isso, repito, sujeito ao erro -, sintetizo a sua argumentação numa simples afirmação, que imagino mentalmente quase gritada por quem histrionicamente cerra com força nas mãos uma bandeira bem levantada “- A reforma! Avante a reforma!…! Eu até direi: “- Pois… a reforma, seja… Mas… qual reforma?…” Neste aspecto penso que o seu texto é completamente omisso, ao contrário de outros artigos de opinião publicados na mesma edição do Público, como sejam os do “jornalista” (assim apresentado) José Vítor Malheiros, de Helena Matos, e de Miguel Gaspar. Daí a minha hipótese da ideologia e da afectividade. E pergunto-lhe: de que nos serve a ideologia sem substância?… Ou a afectividade?… Sinceramente custa-me imaginá-lo quase preso da irracionalidade que vocifera “É preciso não deixar que essa classe consiga ganhar!…”
               Lamento vê-lo estatelar-se nas águas lamacentas das afirmações preconceituosas que garantem (com base em que critérios que são puramente subjectivos, neste caso, os seus) que os professores não querem ser avaliados. A este propósito, permito-me enviar-lhe, em anexo, um pequeno texto de circunstância, que escrevi à pressa num dos meus blogues, seguramente incompleto, mas que seguramente também expressa o essencial da minha ideia sobre o assunto. E sobre isto não digo mais nada.
               Percorre outro caminho de consistência muito duvidosa e traiçoeira quando diz que “é mais do que compreensível que uma reforma destas não seja aceite de bom grado por uma classe profissional mal habituada a uma “carreira plana”, sem diferenciação de níveis profissionais e com progressão profissional garantida por simples antiguidade.” Professor Vital Moreira, estas palavras não podem ser suas, não acredito. Não o tenho em conta de nenhumas das seguintes alternativas: da ignorância e da irresponsabilidade que põe alguém a falar com gravidade do que não sabe; ou da má fé, por parte de quem sabe que está a dizer coisas que não correspondem à verdade.
Por palavras semelhantes, colegas meus de uma escola secundária de Viseu apresentaram já queixa em tribunal contra o sr. Primeiro ministro José Sócrates. O menos que importará agora será a condenação ou a absolvição do potencial réu. O Senhor Professor sabe bem os caminhos complexos que as verdades e as mentiras tomam nos corredores e salas de audiência dos tribunais. O que não se apagará já, nunca mais, do comportamento dos homens é a defesa da dignidade e da honra assumida por quem tem responsabilidades educativas sobre “os homens de amanhã”, que devem fazer a experiência humana e social de valores e éticas na vida dos grupos humanos em que participam.
               Não quero tomar-lhe muito mais tempo. Por isso, antes de algumas considerações finais, ó Professor Vital Moreira, quando diz que “não existe razão, salvo uma ilegítima prerrogativa ‘histórica’, para que os professores não sejam avaliados”, sabe que isso duvidosamente vai além do simples jogo de palavras. Sabe isso, não sabe?… Pergunto-lhe outra vez, se me dá licença: que substância tem essa afirmação? Escreveu assim porque estava a ironizar, não estava?
               Na minha opinião, na minha representação mental das coisas, à moda do mítico Sancho Pança, quase pragmaticamente, as reformas devem ser avaliadas como as árvores, pelos seus frutos. E que frutos produziu já esta árvore? Vejamos: abandono das escolas por parte dos professores mais velhos, com mais tempo de serviço, mais experientes. Desencantados e ofendidos. Tratados sem dignidade.
Como outros grupos profissionais, temos muitas características corporativas; e uma delas, das mais importantes, é a transmissão do saber e da experiência, pessoa a pessoa. Concorda comigo, ou não? Se concordar, será também levado a concordar que muitas escolas estão a ficar decapitadas e descapitalizadas (falamos de capital humano, naturalmente), o que empobrece o ensino. E, por favor, não caia no outro preconceito de dizer que os professores que foram embora são provavelmente os que não queriam trabalhar mais! Isso já foi dito perante as câmaras das televisões por quem verdadeiramente tem responsabilidades políticas pelo governo da Educação em Portugal! E já foi respondido bastamente. O caso da Escola Infanta D. Maria, paradigma das escolas do ensino público nos tão discutíveis rankings das escolas será exemplo suficiente. Dou aulas em Lisboa, conheço esta escola de Coimbra e já lá estive, e comigo levei alunos, para com professores e alunos de lá aproveitarmos dos seus saberes. Antes do aparecimento dos rankings.
               A sociedade portuguesa, não obstante todos os “simplexes” produzidos, continua a justificar as tiradas humoristas dos “Gato Fedorento” sobre “o papel, qual papel?…”
               Um dia, Sebastião da Gama respondeu a alguém que lhe perguntava se tinha muito que ensinar: “Não, tenho muito que amar”. Hoje muito dificilmente os professores têm tempo para ensinar, mais dificilmente para amar; porque a exigência é de que se escrevam ou preencham formalidades. E o Professor sabe que uma “ficha” (no governo da Educação deste País é a palavra que se ouve mais; a outra a seguir é “aligeirar”. E de tanto se aligeirar torna-se quase humilhante o nível de exigência a que se chega, acredite!, é um professor do Secundário que lho diz agora! O que torna indigna a avaliação… o modelo… a reforma. E contra essa reforma inconsistente os professores também se opõem) que se escreve sobre um aluno, sobre muitos alunos, por mais pequena que seja, não se escreve assim num repente com dois rabiscos, se se quer agir com sentido de responsabilidade e com objectivo de eficácia útil para o(s) aluno(s) em questão.
               Argumentará que padeço do mesmo mal que o acuso: a ideologia ou a afectividade. Será?… O senhor ajuizará de mim como eu tive a liberdade de o fazer em relação a si.
               Miguel Torga dizia que para educar é preciso ter as mãos purificadas. Será que vivemos tempos em que se torna ridículo assim falar, tal como no admirável mundo novo de Aldous Huxley se tornou ridículo dizer-se que se tinha nascido por parto natural?
               Acredite que tenho necessidade de ouvi-lo com a objectividade, a imparcialidade (não obstante os escolhos inerentes a este conceito; bom como em relação aos outros, afinal) e a “meta”-reflexão a que aos poucos me habituou. É verdade, pôs-me esse “vício” no corpo. Precisamos de pessoas assim, que nos esclareçam. Faça-me acreditar que este seu texto é um pesadelo que a noite trouxe, mas que a manhã, quando chegar, vai dissipar.
       Voltando a Sebastião da Gama – cujo Diário considero um fabuloso manual de verdadeira pedagogia, sempre actual, porque prodigaliza o húmus da fundamental relação pedagógica entre o professor e a turma; e infelizmente completamente esquecido (se calhar nunca o leram!…) por muitos dos nossos responsáveis educativos -, ele escreve a certa altura: “Ser PROFESSOR É DAR-SE… e lembrei-me então do Amaro e de que era tão bom que não fosse apenas o professor a dar-se…”
       E acabo com palavras do Padre António Vieira, de quem ainda estamos a comemorar os 400 anos do seu nascimento: “Para ensinar sempre é necessário amar e saber; porque quem não ama não quer; e quem não sabe não pode; mas esta necessidade de sabedoria e amor não é sempre com a mesma igualdade. Para ensinar nações fiéis e políticas é necessário maior sabedoria que amor; para ensinar nações bárbaras e incultas é necessário maior amor que sabedoria.”

Fernando Pinto, professor do ensino secundário, na Escola Secundária Eça de Queirós, em Lisboa

ANEXO:
A avaliação e os professores - 1: Porque é que se desconfia dos professores sempre que eles falam em avaliação?
Indo direito ao assunto: desconfia-se dos professores porque ninguém gosta de ser avaliado. O que quer dizer que quando alguém, da “opinião pública”, ouve os professores a dizerem que não contestam a avaliação, o que contestam é este modelo de avaliação, pois esse “alguém” pensa logo que os professores estão a mentir, porque, na verdade, o que eles querem é não serem avaliados! E isto é verdade!… Só que, como diria Marcelo Rebelo de Sousa parodiado pelo Ricardo Araújo Pereira, “É verdade, mas isto não é bem verdade…”
Vou tentar explicar.
Ninguém gosta de ser avaliado. Ponto. Só gosta de ser avaliado quem gosta e precisa de receber um elogio e acredita que merece e vai recebê-lo.
O ser humano, enquanto tal, e qualquer ser - humano e não humano - não existe para ser avaliado. Qualquer ser existe para agir, para fazer coisas, uma após a outra e, em função dos resultados que obtém, volta a fazer igual, ou faz diferente. Ora, isto, se tem alguma coisa de avaliação, é de “auto”-avaliação, não é de “hetero”-avaliação.
O ser (humano ou não) quando avalia não é para penalizar, é para melhorar, é para “afinar a pontaria”.
O problema da avaliação, hoje em dia, em geral - e, se calhar, nas sociedades humanas cheias de superegos - é que é sempre penalizadora.
A natureza quando põe a leoa a falhar a vitória sobre a presa - essencial para alimentar os seus filhotes - não castiga a leoa (já é “castigo” suficiente ela ficar sem o alimento), mas obriga-a, só pela simples falha do seu labor, a ser melhor da vez seguinte.
Sejamos claros, a natureza hedonista do ser humano não aprecia a avaliação: nem a natureza humana dos professores, nem a natureza humana dos que dizem que os professores (quando dizem que não recusam a avaliação, mas apenas este modelo de avaliação) o que na verdade querem é não serem avaliados.
E porquê? Porque nas nossas cabeças, na nossa tradição judaico-cristã (pelo menos nesta), a avaliação é sempre penalizadora. A avaliação tem sempre a ver com o castigo do pecado.
O reconhecimento da necessidade da avaliação é, sem rodeios e para simplificar o assunto, do domínio da ética. Por isso todos dizemos que a avaliação é uma necessidade… mas todos detestamos a avaliação… Esclareça-se: a nossa avaliação… feita pelos outros.
Fundamentalmente, o que é a avaliação? A avaliação é isto: é alguém que chega ao pé de nós e nos diz: “Ora muito bem, aqui estou eu, que tenho mais poder do que tu (note-se, poder; não competência), e venho ver se tu estás a fazer bem o que devias fazer bem; e, eu, que tenho o poder que tu não tens,  se achar que tu não estás a fazer bem, pois vou ter de dizer a quem tem mais poder do que eu, que tu não estás a fazer exactamente como deverias.”
Eu poderia discorrer sobre outras implicações desta perspectiva, de segunda e terceira ordem, até sobre a avaliação que recai sobre quem avalia, mas não me quero desviar do essencial e por isso não o vou fazer… agora! Talvez noutro apontamento, noutro dia.
Quem é que gosta de ter na sua frente alguém com poder para dizer que não está a fazer bem o que devia estar a fazer bem e assim ficar sujeito a uma qualquer forma de castigo?… Ninguém!
As pessoas da “opinião pública” não gostam da avaliação e sabem que os professores também não gostam, porque têm a mesma natureza hedonista que os da “opinião pública”! E todos “suportam” a mesma ética.

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Saturday, September 27, 2008

O Paul Newman de Raúl Iturra morreu no mesmo dia em que eu reencontrei velhos amigos da EICA

Saí hoje para Abrantes, para um almoço de antigos alunos e professores da escola onde fiz o ensino preparatório e também o secundário.

Dos meus colegas de turma, apenas encontrei o Rui Coutinho, primeiro, e depois o António Neto. Claro que nos sentámos à mesma mesa e desfiámos lembranças de episódios que tivemos juntos na escola, perguntámos por colegas e professores. Pouco ou nada falámos de nós, agora, carecas ou de bigodes brancos. Dos tempos de agora, praticamente só falámos da caça do Rui e do Neto, entretenimento que descobrimos terem em comum, o Neto apresentando-se como caçador mais maduro (ou mais mentiroso, como se deve pensar sempre dos caçadores).

De volta a Lisboa, na viagem, revisitei o nosso encontro no extenso almoço, puxei ao pensamento as imagens que trouxemos uns aos outros. Afinal, imagens de gentes e acontecimentos que moldaram fortemente a pessoa que hoje sou.

Senti saudades dos cabelos loiros e encaracolados do Neto! O seu desaparecimento simbolizava, no instante em que o consciencializei, o irremediável da juventude que se perdeu para sempre. Mas senti que se poderia recuperar quase integralmente o “velho” Rui, assim a gente consiga fazer qualquer coisa com a grande barriga sedentária que ele deixou que o envolvesse. Quer dizer, simbolicamente também, afinal, de tudo o que se perdeu, coisas há que ainda se podem recuperar. E que terão eles pensado de mim?…

Cheguei a casa e, quando pude, fui ver o que tinha na minha caixa de correio electrónico. Lá estava um pequeno texto de Raúl Iturra, de homenagem a Paul Newman, que morreu hoje. Só por este texto o soube. Porque o Raúl o quis partilhar comigo.

Raúl Iturra fala dos personagens a que Newman deu corpo. Que marcaram… que o marcaram… que moldaram… que o moldaram… que simbolizaram e fixaram, pela própria ficção, comportamentos, gestos e pensamentos humanos.

Comparei os personagens de Iturra com os personagens (os meus antigos colegas de escola, e os professores) que desfilaram nos “filmes” que vi em retrospectiva quando voltava para Lisboa. O pequeno texto, escrito em inglês, se calhar, para que o próprio Paul Newman mais facilmente os possa ler e entender, fez-me tomar consciência da força que os personagens têm na formação das pessoas em que nos tornamos: se são reais (como os meus colegas de hoje), com eles construímos ficção que nos guia ou nos apazigua – ou que interrogamos; se são de ficção (como os homens virtuais de Newman), facilmente os deslocamos para as nossas realidades e os tornamos partes vitais das acções e dos comportamentos em que nos envolvemos.

Soube-me muito bem estar com os meus colegas de há mais de trinta anos atrás, trinta e muitos. Também por esse reencontro de hoje li as palavras de Raúl Iturra com um outro espírito e provavelmente com um entendimento mais autêntico do que ele escreveu sobre Paul Newman, o homem, o actor, os personagens.

É com a autorização e a gentileza do cidadão do Mundo, Raúl de seu nome, que aqui transcrevo integralmente o seu texto de homenagem a Paul Newman, com a sinceridade única do que é dito a quente, de coração aberto.

Paul Newman has passed away. Sad. However, no one can bring eternity into this earthly world. To my relief, he is not suffering anymore, either himself, extremely nice and faithful wife Joanne Woodward, as good as an actress as Newman was, descendents and friends. And the large mob of admirers he had all over the world. Friendly, serene, happy, friend of the poor. He is Exodus, he is Butch Cassidy, he is the writer, he is all the plays he performed, above all, he is Brick, he is Professor Michael Armstrong, he is Chance Wayne, as he is the sweet birth of youth. Paul Newman is force by his brilliant career, to live eternally as Hud Bannon and, above all, the father who knows how to teach as Eddie Felson. No need to cry, he lives in his pure soul and in the soul and feelings of Joanne Woodward. We, Portuguese, revere, respect, mirror on him.

Prof. Dr. Raúl Iturra

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