Saturday, April 25, 2009

“25 de Abril, sempre!” edição de 2009

Ontem participei, na Escola, na palestra que algumas colegas do Grupo de História (a Eulália Andrade, a Paula Faia e a Cristina Kirkby) organizaram para lembrar e celebrar o 25 de Abril. Essencialmente, alguns professores da Escola, desfiaram lembranças pessoais desse dia e dessa época.

No meu caso, não quis deixar de destacar a grande alegria, a paz, a tranquilidade que o dia me trouxe:
O meu pai, sargento do Exército Português, fez praticamente a guerra toda. De 1961 a 1974, os anos todos da guerra no Ultramar, raramente ele esteve estavelmente na companhia da esposa e dos filhos. Foi muito mais o tempo de estar em Angola e Moçambique em comissões militares do que na Metrópole, junto da família. 
Como muitas famílias portuguesas, nós - a minha mãe, os meus irmãos e eu próprio - tivemos que nos habituar a viver permanentemente com a tensão do que se passava em África, especialmente na província ultramarina em que o 1.º-sargento Pinto se encontrava.
Lembro-me de, por volta dos 14 anos, fazer repetidamente as contas ao tempo da minha vida que tinha sido passado com pai e mãe; e irmãos. E nunca gostei do resultado dessas contas! Por mais voltas que desse, por mais pequenas ocasiões que aproveitasse, nunca consegui que fosse dominante o tempo de estarmos todos juntos!
A dedicação da minha mãe à troca de correspondência e à marcação diária das cruzinhas (uma por cada dia que passava, a reduzir o espaço branco - enorme! - dos dias que faltavam para o dia do regresso, são e salvo) era observada com discrição e alguma distância por mim e os meus irmãos. Eles - pai e mãe - sempre procuraram poupar-nos ao conhecimento de factos, de horrores vividos ou presenciados, cuja realidade os filhos deduziam apenas quando observavam a mãe sentada à escrevaninha  a reagir com lágrimas - tantas vezes de aflição! - às palavras que dias antes o marido tinha decidido confidenciar-lhe ou partilhar.
Lembro-me perfeitamente que nesse dia, no 25 de Abril de 1974, a certa altura fui tomado pela certeza, indefinidamente saborosa, de que o meu pai não voltaria à guerra em África!
Os 10 de Junho, que começámos a seguir na televisão, eram, em nossa casa, dias terríveis. Quantas vezes a nossa mãe nos contagiou com a reacção que as imagens de viúvas e órfãos-crianças; de soldados estorpiados; de velhos pais, órfãos, também, dos seus próprios filhos, despertavam nela, tão forte seria a identificação que faria a esses dramas pessoais e familiares, o espectro da possibilidade de a mesma tragédia um dia poder tocar-nos na pele.
Lembro-me de um dia - creio que o único dia! - em que o meu pai foi à escola dos Quinchosos falar com o meu professor, o professor Virgílio. O orgulho e a satisfação que tive nesse dia! A causa era, outra vez e sempre, a guerra, que não deixava oportunidades para que o que aconteceu naquele dia na escola - e me deixou tão feliz - acontecesse mais vezes.
Pois é… que saborosa aquela certeza que o 25 de Abril me deu!
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Thursday, March 19, 2009

No dia do Pai

Pus-me na Net à procura do poema do salgueiro à borda d’água, que o meu pai cantava aos netos, a embalá-los - é assim a lembrança que dele guardo, não me lembro de o ouvir cantar a canção do salgueiro aos filhos -, completamente dedicado e feliz nessa ocupação ao mesmo tempo tão paternal e tão maternal.
Antes de encontrar o poema (que mais abaixo reproduzo), encontrei estoutro, em boa hora, que aqui deixo, e que na família facilmente se perceberá porquê: Coimbra… a “cabra”… o Mondego… o comboio… Abrantes…
E desde já recomendo a visita ao blogue do seu autor, que saúdo agradecendo o poema oportuno:

UM BREVE ADEUS

Parto! Da minha Coimbra ao anoitecer
Talvez a “cabra” dê uma badalada
Que imagem tão linda de se ver
A alta universitária iluminada
Ou a luz que serve de guia
Naquele templo de sabedoria

No Mondego, correm abundantes águas
Que inundam todos os seu recantos
Quem sabe se de velho estudante são mágoas
Ou lágrimas de D. Pedro nos seus prantos

Há notas que uma guitarra entoa
Espelhada em sonhos de uma mocidade
Tocando na Utopia que por ali voa
Palavras de versos na eternidade

Mas na noite, a cidade esvai-se por fim
Na noite, da sua própria imensidão
Deixa muita, mas muita saudade em mim
Para sempre, gravada no coração

Coimbra, 6 de Abril 2006
Rui Lopes
(texto escrito no combóio de Coimbra para Abrantes)

E agora, o poema do salgueiro à borda d’ água, especialmente a pensar nos netos que, ao colo do avô Pinto, fixavam os olhos (enquanto os conseguiam manter abertos) na boca que lhes passava o encantamento da melodia:

O salgueiro à borda d’água
Dá-lhe o vento, balanceia
Quem tem seus amores na terra
Pela porta lhe passeia

O salgueiro à borda d’água
Perguntou ao amieiro
Qual dos amores é mais firme
O segundo ou o primeiro

Um abracinho, bem apertado
Para quem ama não é pecado
Não é pecado, não é, não,não
Um abracinho do coração

Posted by Fernando at 16:52:29 | Permalink | No Comments »