Lembrar o Tibete, o sofrimento das suas crianças
Quando se almoça sozinho, dá-se mais atenção ao que passa na televisão. É habitual nas nossas casas haver uma televisão a jeito de quem se senta à mesa a comer.
Quando liguei a minha televisão, sintonizei-a na SIC Notícias, que começava a passar um documentário sobre as crianças do Tibete.
O documentário está muito bem feito, mostra o sofrimento, a esperança, o cuidado pessoal do Daila Lama, a defesa da luta não violenta; e a insistência na contenção do ódio. “Tibete - crianças no exílio”.
Muitos pais tibetanos pagam a passadores para que levem os seus filhos para Dharamsala, na Índia. Pagam, em média, pelos serviços incertos dos passadores, à volta de 700 euros, o correspondente a dois anos de trabalho. Atrás do sonho da liberdade e da educação na escola. De um futuro bem melhor.
Os repórteres queriam seguir o percurso das crianças, desde que saem de ao pé dos seus pais até que iniciam a sua vida junto da comunidade tibetana que os recebe na cidade indiana. Chegaram-se de máquina de filmar e de microfone em punho à casa que acolhe estas crianças, foram junto de um rapazinho e perguntaram-lhe se ele tinha chorado quando deixou os pais.
É claro que reagi imediatamente a esta pergunta quase perversa, quase obscena! Como se eles não soubessem o que iria na amálgama de afectos e emoções sofridos que seguramente preencheriam naquele instante toda a vida da criança. O rapazinho teria à volta de uns 10 anos.
Ele largou o sorriso que até ali mostrara, a expressão do rosto (no olhar ziguezagueante, nos trejeitos dos pequenos e diversos músculos faciais e nos movimentos repentinos e desconexos, quase imperceptíveis, do pescoço) a denunciar o turbilhão emocional profundamente sofrido que o avassalava, e mentiu com a nobreza que o recato e o respeito pela intimidade pessoal e familiar reclamam:
- Não… não chorei…
Nesta altura quem tinha os olhos já completamente marejados de lágrimas era eu!…
Mas a malvadez inconsciente do repórter (Bem-hajam os repórteres que nos trouxeram um documentário assim!, é o paradoxo destas coisas…) quis espetar a faca um pouco mais fundo ainda e desferiu outra pergunta:
- Mas não tens saudades dos teus pais?…
Aparentemente a criança não teria saída, desta vez: humanamente, é impossível que uma criança, compulsivamente afastada dos pais que ama e que a amam, não tenha saudades dos próprios progenitores; moralmente, todos os filhos devem gostar e ter saudades dos seus pais. A câmara do técnico de som fazia agora companhia ao silêncio da repórter e esperava avidamente pelas primeiras lágrimas da criança. A intensidade dramática da reportagem assim exigia: lágrimas, já!
Olhos postos na criança, todos pudemos voltar a ver os mesmos sinais de vertigem emocional. Mas mais rapidamente ainda que perante a pergunta anterior, a criança, aquele rapazinho admirável, fixou os seus olhos nos olhos da repórter, sorriu-lhe e deixou sair de si as seguintes palavras, medidas e soltadas pausadamente, claramente; muito firmemente:
- Eu não quero ter saudades dos meus pais…
Manteve os olhos fixados nos da repórter como que a dizer: Vê se entendes onde é que eu quero chegar, o que é que eu te estou a dizer. Já muito os meus pais e eu sofremos para que eu chegasse aqui sem eles; e tu me pudesses estar a fazer estas perguntas. Agradeço-te a tua preocupação, mas, por favor, não me obrigues a mostrar e a manter aberta a ferida que nos faz sofrer tanto.
Alguns meses depois o mesmo repórter perguntou ao mesmo rapazinho o que queria ele fazer no futuro. Ele respondeu-lhe que queria estudar durante dez anos e depois voltar para ao pé dos pais.
Que lição, senhores, que lição de vida!…
